NADIR AFONSO, UM GRANDE MESTRE DA PINTURA – por Carlos Loures

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Foi no princípio doVerão de 1962. Estava a viver e a trabalhar em Vila Real. Uma tarde de domingo passei pela Pastelaria Gomes. Na mesa do plano superior da sala, além dos habituais amigos, estava uma cara estranha. Não me recordo de quem eram os presentes. De certeza, estavam o António Cabral e o Ascenso Gomes. Não posso precisar se o Eduardo Guerra Carneiro e o Gonçalinho de Oliveira, estavam. António Cabral apresentou-me a «cara estranha» – era o Nadir Afonso.

Naquela altura era mais falado do que agora – colaborara com Le Corbusier em Paris (de 1946 a 1951) e com Oscar Niemeyer no Rio de Janeiro, de 1952 a 1954 (numa notícia necrológica, leio que foi em São Paulo que colaborou com Niemeyer). Tinha obras no então Museu de Arte Contemporânea de Lisboa. Em suma, com apenas 42 anos era já uma lenda. Ouvira falar dele nas tertúlias lisboetas que frequentei antes de me «exilar». Fora, salvo erro, Alfredo Margarido com o seu saber enciclopédico, que me falara deste arquitecto português que colaborara com Niemeyer nos projectos de Brasília. E ali estava ele. Não me lembro do que foi dito. Nadir não falou muito e conservo a ideia de que era pouco falador. Segundo julgo lembrar, António Cabral, ainda sacerdote católico, fez as despesas da conversa. Estavamos envolvidos na organização do número duplo da revista Setentrião.

No primeiro número o pintor Nuno Barreto (irmão de António Barreto, também ligado ao Setentrião), publicara uma entrevista com Nadir Afonso. Numa das questões iniciais, Nuno Barreto perguntava: Não lhe parece que a pintura dos nossos dias deveria ser mais humana, em vez de se isolar em harmonias geométricas? Pergunta algo provocatória, considerando que Nadir Afonso era, com Vasarely, um cultor da abstracção geométrca. Respondeu: – O pintor parte inicialmente do real e do humano. Pinta figuras humanas e paisagens. Nenhum pintor é inicialmente abstracto; começa pelas árvores e pelas casas. Depois, no corpo a corpo com a matéria, é atraído pela geometria e pela matemática. A sua sensibilidade percepciona certas leis geométricas que regem as formas puras da geometria, o quadrado, o triângulo, a circunferência, etc. E conta como numa reunião com outros pintores, Vasarely e Herbin entre eles, distribuiu por cada um uma cópia de uma composição geométrica a que retirara um elemento, pedindo a cada pintor em separado que apontasse a causa do desequilíbrio e o remediasse. E todos repuseram o lemento retirado, restabelecendo o equilíbrio e a harmonia da composição.

Quando são postas perante uma pintura abstracta, muitas pessoas reagem com a recorrente exclamação – «Isto também o meu filho, com cinco anos, era capaz de fazer?» Rui Mário Gonçalves, o crítico e historiador da arte, quando ouve este disparate – pergunta «Então, por que é que não faz?» Na mesma entrevista, Nadir Afonso, completa a sua lição sobre a forma de apreciar uma obra de arte: O critério para apreciar uma obra de arte é a nossa sensibilidade artística. Para isso, devemos educar essa faculdade.

Grande lição – quem não saiba ler, não pode aperceber-se do conteúdo de uma obra literária. Do mesmo modo, quem não possua uma adequada educação da sensibilidade artística, dificilmente poderá apreciar uma obra de arte.  A prende-se a ler a arte. Não basta olhar e ver – é preciso saber descodificar. Mas a ignorância é arrogante.

Nadir Afonso, deixou-nos. Há mais de 50 anos soube explicar o que meio-século depois continua a ser um cavalo de batalha para muita gente – a compreensão da chamada arte moderna.

Lega-nos uma grande obra e o exemplo de uma vida dedicada à arte e à cultura.

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