FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – SELECÇÃO E TRADUÇÃO DE JÚLIO MARQUES MOTA

Keynes - I

Versão portuguesa do texto 1 – B “National Self-Sufficiency” de J. M. Keynes

PARTE IV
(CONCLUSÃO)

Perante tal facto, observo três perigos entranhados no nacionalismo económico e nos movimentos para a auto-suficiência nacional, que colocam o seu sucesso perigosamente no fio da navalha.

O primeiro é uma patetice – a patetice da doutrina. Não me causa nenhuma estranheza que cada um de nós a possa descobrir nos movimentos, que surgiram um pouco de repente a partir da fase da conversa da meia-noite bombástica para o campo da acção política. Em primeiro lugar, não distinguimos, pelo menos no princípio,  entre a côr da retórica com a qual nós ganhámos a confiança de um povo e a substância terna  da verdade da nossa mensagem. Não há nada de falso na transição. As palavras ditas de forma pouco polida, duras mesmo, são para eles o ataque da reflexão sobre o irracional. Contudo, quando os lugares de poder e da autoridade forem alcançados, não deve nisso  haver nada mais que se possa sentir como  poético. Temos, portanto, que contar o custo até o último centavo, o que a nossa retórica tinha desprezado. Uma sociedade em grande mudança tem necessidade de ser muito mais eficiente do que uma sociedade já estabelecida, já estabilizada, se quiser viver e sobreviver com segurança. Esta vai precisar de toda a sua margem económica para atingir os seus próprios e apropriados fins, e não se pode dar ao luxo de deixar nada sob a responsabilidade da insensatez, da ingenuidade e nem responsabilizar a inviabilização doutrinária. Quando um processo doutrinário está em curso, está em acção, deve-se, por assim dizer, deve-se esquecer a sua própria doutrina. Para aqueles que estão em acção estar a lembrar a sua letra pode provavelmente significar que perdem aquilo de que andam à procura. O segundo perigo, uma ameaça pior do que a patetice – é a urgência. Vale a pena citar o aforismo de Paul Valery: “Os conflitos políticos distorcem e perturbam o senso de distinção das pessoas entre o que são assuntos de importância e o que são assuntos de urgência. ” A transição económica de uma sociedade deve ser prosseguida lentamente. O que eu tenho vindo a discutir não é uma revolução repentina, mas sim a direcção da tendência secular. Actualmente temos um exemplo de temor na Rússia, vítima dos males dessa pressa insana e desnecessária. Os sacrifícios e perdas de transição serão muito maiores se o ritmo for forçado. Não acredito na inevitabilidade da gradualidade, mas acredito em gradualidade. Isto é, acima de tudo, verdade na transição para uma maior auto-suficiência nacional e para o planeamento, a nível interno, de uma economia. Por essa razão deve-se respeitar o curso natural dos processos económicos, [por esta razão o processo económico deve ganhar as suas próprias raízes com o tempo]. Uma rápida transição despoletará uma pura e vincada destruição de riqueza, de tal modo que o novo estado de coisas será, a princípio, muito pior do que o antigo, e a grande experiência será desacreditada. Os homens são julgados impiedosamente pelos seus resultados e mesmo que fossem os primeiros resultados sê-lo-ão igualmente.

O terceiro risco, e o pior de todos, é a intolerância e a repressão contra o raciocínio crítico. Os novos movimentos na generalidade advêm de um poder que foi conquistado numa fase de violência ou de semi-violência. Estes não usam a argumentação para convencer os seus adversários, pelo contrário, deitam-nos abaixo e por todos os meios possíveis. É o método moderno, severamente monstruoso. Ainda me enquadro no modelo antigo e daí consigo resistir à propaganda e não deposito confiança nos órgãos de opinião pois estão subornados, tudo é pensado na métrica de fossilizar o pensamento e de usar todas as forças da autoridade para paralisar a capacidade de pensar e de se ter pensamento crítico. Para aqueles que acham indispensável que se deva recorrer a todos os meios necessários, quaisquer que sejam, para alcançar o poder, há uma grande tentação que é a de querer continuar a usar, na tarefa da reconstrução, as mesmas ferramentas perigosas com que se conseguiu o arrombamento preliminar.

De novo, a Rússia fornece-nos um exemplo dos erros crassos cometidos por um regime que se auto–isenta de críticas. A explicação da incompetência com que as guerras são sempre realizadas por ambos os lados pode ser encontrada na isenção comparativa da crítica que a hierarquia militar permite ao alto comando. Não tendo eu nenhuma admiração significativa pelos políticos, reconheço que estes mantêm um ar educado quando são deparados com críticas, superando mesmo os soldados a este respeito! As revoluções são somente bem sucedidas porque são conduzidas por políticos contra os soldados. Por paradoxal que seja, quem já ouviu falar numa revolução bem sucedida realizada por soldados contra os políticos? Mas todos nós odiamos críticas. Nada, para além do princípio enraizado nos fará de bom grado expormo-nos a elas. No entanto, os novos ditames económicos, com os quais nós ainda lidamos de forma desajeitada, são, na essência da sua natureza, apenas experiências. Desta forma não temos de antemão nenhuma ideia clara daquilo que exactamente pretendemos. Iremos descobri-lo à medida que vamos avançando no tempo e teremos de nos moldar assim como às nossas ferramentas de acordo com a nossa experiência.

Agora, para que este processo permaneça, ousado, livre e sem remorsos, o criticismo é uma condição sine qua non de sucesso final.

Devemos prestar atenção e colaborar com todos os espíritos brilhantes, independentemente da idade. Estaline eliminou tudo e todos, seja de que quadrante viesse a crítica, mesmo aqueles que de forma geral eram seus simpatizantes. Com ele gerou-se um ambiente em que os processos mentais são atrofiados. Tudo se passa como se as convoluções moles do nosso cérebro sejam até elas transformadas em madeira. O ruido ampliado por um alto-falante substitui as inflexões suaves da voz humana. A morbidez da propaganda aborrece e provoca estupefacção até mesmo nos pássaros e nos animais do campo. Deixe-se então Estaline ser um exemplo terrível para todos os que procuram fazer mudanças sociais rápidas, pela violência. Se assim for, eu próprio, darei por mim em breve regressado e de braços abertos a agarrar os meus velhos ideais do séc. XIX, onde os efeitos da crítica sobre o pensamento criaram para nós a herança intelectual de que dispomos hoje, adicionado por aquilo que os nossos pais reuniram para nós, ideais estes que procuram desviar-nos dos nossos próprios e adequados fins.

Texto em inglês disponível em : http://russeurope.hypotheses.org/1672

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Para ler a Parte III da versão portuguesa de National Self-Sufficiency, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/12/15/falemos-de-economia-falemos-entao-de-politica-seleccao-e-traducao-de-julio-marques-mota-9/

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