Celebrando Luís Pignatelli – 1 – por Álvaro José Ferreira

Imagem1Nota prévia:Para ouvir os poemas de Luís Pignatelli (cantados por Vitorino, José Afonso, Janita Salomé, Adriano Correia de Oliveira e Teresa Silva Carvalho), há que aceder à Página

 http://nossaradio.blogspot.pt/2013/12/celebrando-luis-pignatelli.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

 

«Luís Oliveira de Andrade — ou Luís Pignatelli, o poeta — nasceu em Espinho, concelho de Aveiro, a 1 de Janeiro de 1935 (e não, como consta em todas as antologias onde figura, por mitografia própria, em 1932) e morreu em Lisboa, a 20 de Dezembro de 1993. Em Espinho fez a instrução primária e frequentou o liceu. E, de habilitações literárias, foi quanto lhe bastou — autodidacta de si e da Vida, o bardo sedutor.

Nas lides da escrita e da letra de forma, aí está ele, aos 18 anos de idade, em Maio de 1953 (ano da extinção da “Árvore” e da 3.ª série dos Imagem3“Cadernos de Poesia”), a estrear-se, pela mão de Augusto Navarro e António Rebordão Navarro, na revista “Bandarra”, com o poema “Aguarela” (assinado por Luís de Andrade e não ainda Pignatelli), poema bem distante, não obstante a linha de lirismo tradicional em que se insere, de uma juvenília que a sua obra não comportará. E nesta revista, publicada no Porto, em 3 séries, entre 1953 e 1964, continuará a colaborar (é sua a capa do n.º 20 da I série, de Agosto de 1954), até à sua ida e fixação de residência em Coimbra, nos meados da década de 50, onde, de passagem, na revista “Vértice”, assina alguns poemas de pendor neo-realista, sem que, contudo, se dilua o lirismo que lhe marcará indelével toda a poesia.
Desse tempo de Coimbra data a amizade com José Afonso, que lhe traça o perfil, no livro de José A. Salvador “Livra-te do Medo, Estórias & Andanças do Zeca Afonso” (A Regra do Jogo Edições, 1984), nos termos seguintes:

— Conheceste o Pignatelli em Coimbra?
— Aliás, Luís Andrade; nós chamávamos-lhe Luís Andrade. Ele trabalhava lá nas Águas, numa secção da Câmara Municipal, chateadíssimo. Era um tipo que não se dava com aquela cidade. Tinha problemas vários e foi sempre bastante meu amigo em períodos muito difíceis que vivi em Coimbra. Na altura em que me divorciei, o Luís foi sempre fraternal para mim. Às vezes surripiávamos uns livritos, eu por uma banda, ele por outra, mas creio que o tipo me bateu aos pontos. Eu frequentava umas livrarias, sobretudo a Coimbra Editora, que diziam ser do Salazar, do presidente da Assembleia Nacional e do Cerejeira. Com tais proprietários foram-se-me os últimos escrúpulos.

E é através de José Afonso que o seu leque de amizades se vai alargando a Herberto Helder, Adriano Correia de Oliveira (que, tal como Zeca Afonso, dará voz a dois poemas seus — “Elegia” e “Cantiga de Amigo” – em 1967 e 1971, respectivamente), ao pintor António Quadros (João Pedro Grabato Dias, Frey Ioannes Garabatus e Multimati Barnabé João, como poeta), António Ferreira Guedes, Manuel Alegre, o pintor Mário Silva, António Cunha Pinto (autor de “Pinóquio”, com o pseudónimo de Leonel Brim e cuja capa Luís Pignatelli assina), Fernando Gonzalez, Luís e António Faria Lourenço, entre outros.
Em Coimbra, 1958 é o ano da publicação de “A Voz e o Tempo”, poemas (um deles, “Conjugação Verbal” dedicado a Luís de Andrade) de Jorge de Sampaio — colaborador e organizador, com Aureliano de Lima, Eduíno de Jesus, José Ferreira Monte e Rui Mendes, do número único do fascículo de poesia “Pan”, pouco antes dado à estampa — onde Luís de Andrade colabora como autor da capa e dos desenhos.
Em 1963 passa alguns meses em Moçambique, onde trabalha, como jornalista, na “Tribuna” de Lourenço Marques.
De regresso a Portugal, volta para Coimbra, onde é funcionário na secção de estatística do Município, colaborando na imprensa local como crítico de música e artes plásticas.
No Verão de 1965 muda-se definitivamente para Lisboa, onde frequenta tertúlias e faz amizade com José Sebag, João Rodrigues, Virgílio Martinho, Ricarte-Dácio de Sousa, António José Forte e Aldina, Ernesto Sampaio, Vítor Silva Tavares, José Cardoso Pires, Luiz Pacheco, Mário Cesariny, António Alçada Baptista, Maria Teresa Horta, José Quitério, Maria Velho da Costa, Isabel Barreno, Carlos Veiga Ferreira, Júlio Moreira, os pintores João Vieira, Henrique Manuel e Renato Cruz, Edmundo de Bettencourt, António de Navarro, Alexandre O’Neill, Ruy Cinatti, José Carlos González, Vitorino e Janita Salomé, entre tantos outros.

Em Dezembro de 1965 nasce-lhe o mais velho dos cinco filhos, que celebra em dois poemas — “No ventre de sua mãe” e “A visitação – 1”.
Colabora nos suplementos literários dos jornais “Diário de Lisboa”, “A Capital”, “Jornal de Notícias”, “O Diário”, “Jornal do Fundão” e nas revistas “Commedia”, “O Tempo e o Modo”, “Cronos”, “Crónica Feminina”, “Grial” (da Galiza), “Camões”, “Crisol”, “Sílex” e “O Eugénio”.
Está representado nas seguintes antologias: “Antologia da Poesia Concreta em Portugal”, de E.M. de Melo e Castro e José-Alberto Marques, “20 Anos do Círculo de Poesia”, de Pedro Tamen, e “Antologia da Poesia Portuguesa (1940-1977)”, de Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro.
Em 1973, no Círculo de Poesia, da Moraes Editores, publica o seu único livro, “Galáxias”, considerado por Maria Teresa Horta, em 25 de Maio de 1974, no semanário “Expresso”, como “um dos mais belos livros de poesia editados durante o ano de 1973”.

Em 1979 entra como actor no filme “A Culpa”, de António Victorino d’Almeida, onde desempenha o papel de um pide, a quem, ao longo de todo o filme, se não ouve uma única palavra.

Com o pseudónimo de Athayde de Andrade, colabora n’ “O Jornal”, como crítico gastronómico, trabalho que exercerá mais tarde n’ “O Público” e na revista “Casa Cláudia”, assinando, nestas duas publicações, as suas crónicas como Luís Pignatelli.
Enquanto tradutor, verteu para português livros de Bruno Zevi, Ana Freud, Juan Carlos Onetti, o volume Tempo das Revoluções da “História Universal Larousse” e “A Casa das Belas Adormecidas”, de Kawabata. Mas é na tradução de poesia que o seu nome granjeia particular prestígio. Em volume, traduziu “Odes Elementares” e “Plenos Poderes” de Pablo Neruda, “A Destruição ou o Amor” de Vicente Aleixandre, “Antologia Poética” de Octavio Paz, “Natureza Viva” de Vicente Huidobro, “Vida de um Homem” de Giuseppe Ungaretti e “Os Prazeres Proibidos” de Luis Cernuda.
Deixou ainda inédita uma antologia de poesia japonesa (do “Período Primitivo” aos poemas de “Estilo Moderno”) e um vasto número de traduções dispersas, reunidas pelo autor desta nota, de poetas tão diversos como E.E. Cummings, Jorge Luis Borges, Francis Picabia, Philippe Soupault, Eugenio Montale, Ho Tsou, Djelal Edd in Rumi, Wang Wei, Rainer Maria Rilke, Robert Pitney, Kenneth Patchen, etc.
Sendo também autor da música de “Pombas”, escrita e cantada por José Afonso, escreveu ainda textos para a música e a voz de Vitorino e Janita Salomé [também para a voz de Teresa Silva Carvalho].
De um memorando escrito provavelmente em 1984, retenham-se estas palavras: “Tem trabalhado nos últimos anos como tradutor e revisor literário, profissão (?) que não deseja ao seu pior inimigo.”» (nota biográfica por Zetho Cunha Gonçalves, in “Obra Poética (1953-1993)”, Lisboa: &etc, 1999)

Luís Pignatelli está, infelizmente, hoje bastante esquecido. O blogue “A Nossa Rádio” aproveita a efeméride dos vinte anos do desaparecimento do poeta para o homenagear apresentando uma bela série dos poemas cantados (uma gravação por cada espécime, pois em alguns casos existe mais do que um registo).
Já agora, uma interrogação: qual o motivo de não haver na ‘playlist’ da Antena 1 uma única das canções com poemas de Luís Pignatelli? Censura premeditada ou pura ignorância de repertório?

(Continua)

1 Comment

  1. Excelente trabalho! Trouxe-me muita informação, revi muitos amigos e conheci um outro Luís, que não o que encontrava na Trave… Claro que os compositores das músicas e cantores também têm aqui importância. Todas de grande beleza e sensibilidade, nesta junção letra/música.
    Uma boa contribuição para que a História não fique esquecida.
    Devo ao Luís ter-se interessado pela troca de correspondência entre minha mãe – Maria Cecília Correia e Cecília Meireles

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