OS NATAIS DOS MAIS VELHOS E OS DE HOJE por clara castilho

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A Junta de Freguesia de Alcântara publicou o ano passado uma colectânea de textos da turma de Cultura Tradicional Portuguesa da Universidade Alcântara Sénior.

Nele podemos ler as recordações dessas pessoas, no que diz respeito a um outro Natal que se vivia de uma outra forma. Um dos testemunhos é de Helena Sousa.

Aqui nesta lareira se colocava a trempe e a sertã. Hoje frigideira, a com azeite a fritar as filhoses, se cozia o bacalhau com batatas e hortaliças. Não havia televisão e todos estavam mais juntos e conversávamos muito. Depois íamos ver o cepo a arder, vínhamos para casa e na chaminé colocavam-se os sapatos. Quase não dormíamos e, logo pela manhã, havia presentes. Tive uma boneca linda, mas pouco durou – dei-lhe banho e como era de papelão, desfez-se. Todos tinham um presente e tudo isso me fazia confusão: como era possível o Pai Natal dar tanta coisa?

Chegou o dia em que vim a saber que eram os adultos a comprar os presentes e tive uma decepção – chorei.

O natal de hoje não tem a mesma magia pois as crianças quase têm presentes todo o ano. O Natal foi feito um negócio, um consumo elevado e os valores da família e os amigos foram-se perdendo.

Apresentação1

Não vou dizer que antes era tudo melhor. Sabemos os avanços culturais, educacionais, em que o país avançou. Os presentes deixaram de ser dados pelo “Menino Jesus” e passou a ser o Pai Natal a fazê-lo. Independentemente das práticas religiosas, o dia 25 de Dezembro é Dia de Natal. E diz-se que também é dia de reunião da família. O certo é que é dia de comer muito e de ter muitas prendas, quem as pode ter…

É um facto que nas famílias de hoje se tem dificuldade em dizer não aos filhos, em parar para conversar e comunicar. É comum, na mesma sala de jantar, os vários elementos da família estarem cada um no seu computador, ou nos jogos informáticos, ou a enviar mensagens no telemóvel. Todos vestidos como a moda manda e muitas vezes com interiores vazios. Que natais são estes? Não se ousa decepcionar os mais próximos, mesmo que os orçamentos sejam baixos. Para os amigos, é agora bem visto oferecer coisas feitas pelos próprios. E bem, se enquanto se fez se pensou na pessoa receptora.

Para mim, também o Natal foi passando por todas estas fases. Com saudades de quando a família era grande e todos se conseguiam reunir. De ter poucas prendas e pouco vistosas, como fatinhos para as bonecas feitos pela avó. Por um lado com vontade de recusar todo o aparato consumista que nos é apresentado, por outro com vontade de não desiludir os que estão mias próximos de disto necessitam, porque também vivem de outras memórias.

1 Comment

  1. [image: Imagem intercalada 1]*As lgrimas vieram visitar-me na companhia deste texto -fui Me de 6 filhos numa terra igualmente plantada beira mar -a tive Natais com o sapatinho na cozinha e com esses Natais conviveram os filhos -hoje ,convivo apenas com a solido num computador esperando que netos e filhos se lembrem desta solido que s bonita na poesia mas que aperta ,aperta e arde -Maria *

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