UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (17)

FELIZ ANO NOVO

 

2013-2014

2013-2014

Ele há para aí criaturas, supostamente letradas, pretensamente inteligentes e hipoteticamente sabedoras, que nos aspergem, quando tagarelam, com carradas de estrangeirismos, alegando que, na língua Portuguesa, não existem vocábulos capazes de exprimir convenientemente os seus pensamentos ou acções.

Neste Natal, apanhei um desses, e ainda por cima um defensor do suposto AO, que ninguém no Mundo da Língua Portuguesa quer pôr em pratica ou sequer aceitar por princípio, mas que os últimos dois governos da Nação implementaram e defendem, só porque sim, ao arrepio de tudo quanto é gente.

É preciso ter muita pachorra para aturar este tipo de gentinha, mas estamos no Natal e enchi-me do espirito da época para aguentar o parvalhão e passar um bom bocado, rindo-me para dentro, e por breves momentos também para fora.

É que o espírito desta altura do ano é importante. Permite-nos ouvir os outros, entendê-los, aceitá-los e até dar-lhes pontualmente alguma razão.

Na verdade, ouvimos com frequência, no decorrer de uma qualquer conversa meramente banal, um ‘overhead’ (do Inglês = despesas gerais, suspenso, pendente) e, sem demora, um ‘delay’ (do Inglês = atraso) incompreensível, abalançando-se, o possuidor de uma inteligência superior, a partir daí, num ‘take off’ (do Inglês = levantar voo, partir) espectacular, seguido de uma ignota ‘performance’ (do Inglês = desempenho, execução) na busca desenfreada de ‘bués’ (do quimbundo/dialecto africano = muitas, ror, quantidade) de ‘dicas’ (do brasileiro = sugestões, indicações) para aumentar o ‘budget’ (do Inglês = orçamento), e do mais singular ‘outsourcing’ (do Inglês= sub-contratação de serviços, a terceiros) linguístico.

A conversa que tive de escutar e na qual também tive de participar, teve o condão de me transportar para outras alturas, outros anos, e outras vivências.

Por essas alturas, as conversas de Natal em casa dos meus avós e mais tarde na casa dos meus sogros, eram conversas inteligentes, onde a cada passo se aprendia algo de novo, e onde cada um contribuía com alguma coisa para o aumento dos conhecimentos dos outros. Lembro-me de num dos anos em que conseguimos estar todos juntos, situação cada vez mais difícil de se repetir dada a vida complexa dos dias de hoje e das famílias paralelas que se vão criando, ser tema de conversa a cidade do Porto e o que tinha a cidade que a diferençava, pela positiva, das demais.

Cada um de nós se foi lembrando de este ou aquele pormenor, e naquele ano ficamos a saber que foi no Porto, a 12 de Setembro de 1895, que entrou em funcionamento a primeira linha de tracção elétrica da Península Ibérica (falávamos das origens do Carro Eléctrico), que esta linha, entre o Carmo e a Arrábida, utilizava a energia fornecida por uma central própria, na Arrábida, e que a primeira linha que existiu no Porto, ligando as zonas do Infante e Carmo à Foz ao longo do Rio Douro, foi aberta em 1872 pela Companhia Carril Americano do Porto. Os veículos utilizados eram Carros Americanos, que consistiam em carruagens rebocadas por animais. As linhas seriam, no ano seguinte, ampliadas até Matosinhos, ao longo da frente Oceânica.

Em Agosto de 1874, entra em exploração, pela Companhia Carris de Ferro do Porto, também utilizando veículos a tracção animal, a linha desde a Praça de Carlos Alberto até à Foz (Cadouços), via Boavista e Fonte da Moura, passando na rua Correia de Sá (por cima da rua de Tânger). Esta empresa abriria, no ano seguinte, as primeiras linhas urbanas, entre a Boavista e Campanhã, e entre o Bolhão e a Praça da Aguardente (posteriormente denominada de Praça do Marquês de Pombal, como já aqui contei numa crónica anterior). Depois chegou o vapor (1878) e por fim a electricidade (1895). Entretanto, em 1893, a Companhia Carril Americano do Porto fora adquirida pela Companhia Carris de Ferro do Porto.

      

 

Segundo me lembro, esta conversa durou um serão inteiro, sem ‘dicas’, delay’s’ ou os ‘take off’s’ dos dias de hoje. E foi tão importante para os nossos conhecimentos que ainda hoje, os meus primos e eu nos lembramos de quase todos os pormenores.

Dentro de cinco dias chega-nos o ano de 2014, ainda bébé, e falece este, pai do primeiro, de seu nome 2013 e cognome Annus Horribilis. Que cognome acabará por ser dado ao vindouro?

FESTAS FELIZES

Tenham todos um EXCELENTE ANO de 2014.

2014

2014

About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

9 comments

  1. Delirei com a introdução !
    E as conversas à mesa, eram assim mesmo !
    Mas, isso, era ANTIGAMENTE…
    Bela imagem ( pena não estar a estrela perfeitamente centrada com o relógio…).

    Agradeço e retribuo com amizade os votos de bués de sucessos no ano ainda sem nome.

    Um abraço.

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    • Obrigado pelos comentários meu caro João Manéres.
      Ainda tenho a sorte de, em casa de minha irmã, e sempre que ao longo do ano nos juntamos, haver a tentativa, muitas vezes conseguida, de reeditar este tipo de conversas com os meus filhos e os meus sobrinhos.
      Um abraço

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  2. helena miranda

    Ola Zézinho gosto imenso das tuas Cartas do Porto, e esta está muito boa . Boas festas e um bom ano novo acompanhado de um beijinho para ti e tua família.

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  3. Albertia Eudora Silva

    Mais um belo texto que me fez recordar as idas para a praia no verão num eléctrico se não estou em erro a linha 6 apenhadinho de veraneantes a caminho da Praia dos Ingleses ou para a do Molhe…

    Obrigada pelos votos de boas festas e igualmente para si e família desejo um 2014 muito produtivo!

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    • Muito obrigado pelo comentário.
      Se bem me lembro, para as Praias dos Ingleses, Gondarém e Molhe, e para alé do 1 que fazia Infante, Matosinhos, havia o 2 e o 18 que davam a volta desde a Praça, Carmo, Massarelos, Foz, Castelo do Queijo, Boavista e de novo Praça, e o 17 que fazia Batalha, Castelo da Foz.
      O 19, de que fala o João Menéres, fazia o trajecto do Carmo a Matosinhos.
      Abraço

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  4. Ou era o 17 ou o 19, penso…

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  5. Fernando Couto

    Obrigado pelo «miminho» José Magalhães!

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