DE LONDRES MANDARAM-ME UM GRANDE POSTAL ILUSTRADO – por JÚLIO MARQUES MOTA

PARTE V
(CONCLUSÃO)

“ No momento em que uma monarquia se está a desmoronar

Autor….Desconhecido, por agora

No momento em que uma monarquia está para se desmoronar, podem ser observados vários fenómenos. O primeiro é o de que a nobreza tende a dissolver-se. Ao dissolver-se divide-se, separa-se, desagrega-se como classe, e eis como: o Reino vacila, a dinastia apaga-se, extingue-se, a lei caiu em ruínas; a unidade política desfaz-se face ao forte regime de intrigas que passa a ser dominante nas relações entre os seus elementos de classe; o topo da sociedade abastarda-se e degenera; um sentimento de enfraquecimento mortal é sentido por todos, pelos de dentro e pelos de fora; as grandes coisas do Estado caíram por terra, só as pequenas coisas se aguentam de pé, trata-se agora de um triste espectáculo público; mais polícia, mais exército, mais finanças; cada adivinha que o final está a chegar. A partir daí, em todas as cabeças, em toda a gente, têm-se os problemas no dia anterior, o medo do dia seguinte, a desconfiança instalada em cada pessoa, o desânimo sobre tudo e nada, um desgosto profundo.

Como a doença do Estado está embrenhada na forma de se ver agora a realidade, a nobreza, aqueles que a esta pertencem, é a primeira a ser atingida. O que é que acontece, então. Um grupo de cavalheiros, os menos honestos e menos generosos permanecem na corte. Tudo será tragado pela queda, o tempo faz-se muito curto e a pressão estala, é necessário apressarem-se, é preciso rapidamente enriquecer ou engrandecer-se aumentando a riqueza já havida, tirar o máximo de proveito das circunstâncias. Cada um só pensa em si. Cada um aproveita-se, sem nenhuma piedade para com o país, uma pequena fortuna bem especial escondida num canto do grande infortúnio público. É-se, seja cortesão, seja Ministro, cada um se apressa para ser feliz e poderoso. Tem-se o sentido de humor, depravam-se, consegue-se, tem-se sucesso. As ordens do Estado, as dignidades, os lugares, o dinheiro, quer-se todo, rouba-se tudo, saqueia-se tudo. Agora só se vive pela ambição e pela ganância. Escondem-se as desordens secretas que podem levar a criar a enfermidade humana em muitos a ser de uma gravidade externamente visível. E, como esta vida muito dada às vaidades e aos prazeres tem como a sua primeira condição o esquecimento de todos os sentimentos naturais, estas gentes tornam-se ferozes. Quando chega o dia da desgraça algo de muito monstruoso se desenvolve então no cortesão caído, e homem se transforma num verdadeiro demónio.

O estado desesperado do reino empurra a outra metade da nobreza, a melhor e a mais bem nascida e crescida, numa outra via. Ela larga a corte e vai para casa, ela regressa aos seus palácios, aos castelos, aos seus domínios. Tem horror pelos negócios, contra isso não pode fazer nada, pode, o fim do [ seu ] mundo aproxima-se; faça o que ela fizer, e para quê desolar-se? É necessário atordoar-se, fechar os olhos, viver rapidamente, beber, amar, gozar. Quem sabe? Será que ainda se tem um ano pela frente?”

Terminado este postal, permanece ainda a minha interrogação, de quem será afinal este texto? Venho a saber que se trata de um texto de Vítor Hugo, publicamente conhecido em 1838! Terminado este meu texto fico a pensar na intenção de quem me enviou de Londres o postal, a pensar igualmente no poema acima reproduzido, e do qual não me canso de ler e reler a seguinte passagem:

Não fiquemos cercados, aflitos,

numa prece de angústia desmaiada.

Saibamos ser o vento imaginado

que de novo liberta o que há de vir

 

E nos faça colher com um só gesto

o que foi duramente semeado.

(Excerto do poema de Rui Namorado)

E fico a perceber a mensagem do postal enviado de Londres assim como  a do poema de Rui Namorado igualmente. Se activarmos os mecanismos de força política ao nosso alcance talvez os salteadores da Europa quase perdida não durem um ano sequer. É esta a mensagem que pelas duas vias me quiseram enviar, é esta a mensagem que aqui vos deixo. Feliz Ano Novo, portanto.

Júlio Marques Mota

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Principal bibliografia utilizada:

Catherine Rampell, Comparing This Recession to Previous Ones: Job Changes, New York Times.

Joseph Rowntree Foundation (JRF), Report reveals the new face of UK poverty

Financial Times, UK living standards drop to lowest level in a decade.

Heidi Shierholz, The U.S. Economy’s Recovery Is Stronger Than People Think,

Jan in ‘t Veld, Fiscal consolidations, and spillovers in the Euro area periphery and core.

Joseph Rowntree Foundation (JRF), Monitoring poverty and social exclusion 2013.

Katie Schmuecker, (JFR) Poverty is a price we can ill-afford to pay – jrf reaction to annual poverty figures.

Institute for Fiscal Studies, Living Standards, Poverty and Inequality in the UK: 2013.

Scott Winship, Comparing Employment Changes During Recessions

Tejvan Pettinger, Comparing different recessions

The Economist, Living standards, Squeezing the hourglass

The Federal Reserve Bank of Minneapolis, The Recession and Recovery in Perspective

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Para ler a parte IV desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/01/03/de-londres-mandaram-me-um-grande-postal-ilustrado-por-julio-marques-mota-4/

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