ESTOU AQUI por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Os meninos do “Bairro negro” são, agora, os meninos dos bairros sociais que por vezes andam na boca da comunicação social por terem comportamentos disruptivos.

Já alguém olhou bem para esses meninos?

Alguém sabe dos gritos, do desconforto afectivo e material que com eles convivem?

Alguém sabe que a família quando recebe o Rendimento Mínimo de Inserção Social vai tomar o pequeno almoço ao café e que os meninos bebem coca-cola e comem bolicaus?

E é ver a alegria com que se sentam na cadeira do café, com que comem um pequeno almoço que desafia todas as normas de uma alimentação saudável…

Estão com kispos apertados, quase não se podem mexer para desfrutar aquele manjar. As mães puxam por eles e gritam-lhes, gritam-lhes por tudo e por nada.

“Oh professora eu não consigo trabalhar porque fazem muito barulho” . A professora tem que gritar com os outros para que haja condições para a aprendizagem.

Já alguém olhou para o ambiente sonoro que rodeia estes meninos, no café, em casa, na rua? Não admira que falem também aos gritos.

“Os pais devem dar o exemplo” diz um menino do 4º ano de uma turma de P.C.A. (Programa Curricular Alternativo).

Alguém já olhou para a maneira como os meninos são acordados? Pois é, é aos gritos e às ameaças se chegarem tarde à escola.

pai a gritar

“Porque chegaste tarde?” “Porque a minha mãe se atrasou e eu não acordei”.

Já alguém olhou para os meninos quando chegam aos colégios? Os pais saem do carro que fica mal estacionado, saem à pressa do carro, gritam com os filhos “despacha-te senão chegas atrasado”. Atravessam a rua a correr. A mãe leva a pesada mochila do filho que vem, ainda, a comer um croissant com fiambre.

Já alguma vez olharam para o ambiente sonoro destes meninos? No recreio gritam com os colegas, em casa onde está o som? Na televisão, no computador, no telemóvel. Não entre os membros da família. Cada um ouve o som que quer, normalmente alto, com os “fones” nos ouvidos. É um silêncio tão barulhento que estes meninos parecem ser educados pelas tecnologias

Já alguém reparou nestes meninos quando estão com a família num restaurante? Estão a jogar nos telemóveis e o pai e a mãe, por vezes também, ou então passam a refeição calados. Não há som!

Mas o barulho do silêncio é algo que os faz sofrer.

O mau trato não é só bater, é também não olhar, não escutar.

Como se comportarão estes meninos, quando forem adultos, numa sociedade barulhenta e  silenciosa.

As famílias descritas como o meio mais seguro para as crianças, já quase não existem.

Com conforto ou sem conforto, as crianças precisam de tempo para os afectos.

É muito frequente haver meninos no 1º ciclo que reclamam o afecto do professor/a. Às vezes, com meiguice, abraçam e agarram os professores, outras vezes interrompem as aulas, fazem traquinices e muitas vezes batem nos colegas para que o professor/a sinta o grito da criança ESTOU AQUI!

 

3 comments

  1. Maria de sa

    [image: Imagem intercalada 1]este artigo -Um GRITO …..no fundo do tnel social ..[image: Imagem intercalada 2]Vou postar no meu face -Maria

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