Discriminação racial na Austrália – por Carlos Loures

Um artigo de John Pilger publicado há semanas no London Daily Mirror, chama a atenção para o facto de a discriminação racial dos aborígenes australianos não ser menos desumana do que o apartheid sul africano, passando mais despercebida . E lembra que a indignação que a nível mundial se ergueu para denunciar o apartheid teve papel decisivo na queda do regime africânder.

John Pilger relata como em finais da década de 60 foi encarregado pelo chefe de redacção do Mirror de regressar à Austrália, seu país natal, e descobrir o que está por trás da face radiosa que a Austrália mostra ao mundo. Quando o jornal fizera campanha contra o apartheid, foi bem recebido pelos brancos sul africanos que diziam   «Admiramos-vos australianos, pois vocês sabem como lidar com os vossos pretos».  Pilger ficava chocado com estas declarações racistas, colonialistas, pois não tomara até então consciência de que no seu país as coisas não corriam melhor. As provas de uma forte discriminação racial eram muitas e em todos os campos de actividade, nomeadamente no desporto em que grandes praticantes aborígenes eram impedidos de competir se teimassem em ganhar.

Em 1969 foi até  Alice Springs e encontrou-se com Charlie Perkins.  À época  os aborígenes não eram contados no recenseamento; os carneiros, sim. – Charlie era o segundo aborígene a obter um grau universitário. Usara o diploma para empreender “campanhas itinerantes” por cidades onde a segregação racial era mais aguda.  Num velho Ford de aluguer e com Hetti,  mãe de Charlie, uma anciã do povo aranda, viajaram até ao “inferno”, ou seja,. Jay Creek, uma “reserva nativa”- centenas de aborígenes encurralados em condições desumanas – água insalubre, falta de instalações sanitárias; as rações”, eram à base de fécula e açúcar. As crianças apresentavam todos os sinais de subnutrição – pernas só pele e osso e barrigas inchadas.

Pilger ficou vivamente impressionado com a quantidade de mães e avós enlutadas, mulheres a que a polícia e as autoridades, durante anos, roubaram crianças ao abrigo de um programa de assimilação que consistia em «integrar» as crianças com pele mais clara. Os rapazes iam  para fazendas dirigidas por brancos e as raparigas eram «integradas» como criadas de servir de famílias da classe média – é a chamada «geração roubada». Em 2008 o governo pediu desculpa, embora avisando que não seriam pagas indemnizações. Sob a capa de um eufemismo, as crianças aborígenes estão de novo a ser roubadas às suas famílias. A versão oficial é que as crianças são removidas para  sua protecção. Em 2012 havia cerca de 13.300 crianças aborígenes em instituições ou entregues a famílias brancas. Actualmente, o roubo de crianças é mais elevado Fala-se já em «segunda geração roubada». Frequentemente, as crianças são levadas sem. “qualquer aviso. As famílias não têm ideia de para onde os seus filhos estão a ser levados. Pilger conclui: Isto é destruir a cultura aborígene e é racismo. Se o apartheid da África do Sul tivesse feito isto, teria havido um alvoroço”.

Falando depois de Wilcannia, uma cidade da Nova Gales do Sul, onde a esperança de vida dos aborígenes é de 37 anos – mais baixa do que na República Centro-Africana, talvez o país mais pobre do mundo, e conta como viu numa casa onde se amontoavam 32 pessoas, na maior parte crianças, muitos deles a sofrerem otite média, uma doença infecciosa totalmente evitável que prejudica a audição e a fala. E cita opiniões de destacadas personalidades que consideram a discriminação a que os aborígenes estão sujeitos como um “um insulto aos direitos humanos”., sendo que a maioria dos australianos ignora o segredo mais sujo da sua nação. O professor James Anaya,  enviado especial da ONU, ao inteirar-se da realidade dos aborígenes, classifcou a política do governo como racista.

A morte de Mandela foi muito lamentada na Austrália. Em grande parte, o apartheid foi derrotado por uma campanha global da qual o regime sul-africano nunca recuperou. Na Austrália ocorre uma discriminação mais violenta e desumana, mas a exposição mediática desse crime é mínima. Em todo ocaso, a resistência dos aborígenes está a aumentar, particularmente entre os jovens. Como diz Pilger, o exemplo da África do Sul é uma esperança para eles e uma ameaça para o poder central.

2 Comments

  1. Bom trabalho, Carlos. Estamos habituados a que da Austrália só se diga bem; no meu caso, só comecei a desconfiar de tanto «êxito» com o comportamento que a Austrália, ou o seu Governo e restantes políticos, teve em relação à criminosa ocupação de Timor Leste por parte da Indonésia e estou muito desconfiado em relação ao apoio que agora querem dar a este país da lusofonia – o petróleo move muitos e criminosos interesses!

    1. Foi o nosso amigo Carlos Leça da Veiga que me chamou a atenção para o artigo de John Pilger no London Daily Mirror. O artigo é extenso e contém pormenores interessantes. Porém, sem a devida autorização para o transcrever, limitei-me a “descrever” os aspectos que me pareceram essenciais numa denúncia de que por detrás da tal face radiosa da Austrália, há a máscara sinistra da segregação racial e do desrespeito por elementares direitos da Humanidade. Se a ONU fosse uma organização séria e credível, a Austrália seria expulsa. Se.

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