CONTOS & CRÓNICAS – “Maria João” – por Margarida Ruivaco

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Um duche morno, demorado, antecedeu o creme perfumado, que passou pelo corpo ( não chegou a uma parte das costas). Optou por roupa interior de algodão, simples, lisa, branca, e por um vestido de seda, com flores miudinhas, de laço nas alças e folhos na bainha, que roçavam as pernas  pouco abaixo do meio da coxa.

Anteviu, antecipou, (sentiu até), as mãos dele a deslizarem sobre a seda e a deterem-se ao sentirem o primeiro relevo da costura do algodão. E fazerem pequenos círculos, acariciando a anca primeiro, e os glúteos, o rabo, portanto, depois.

Suspirou, hidratou a cara com creme não perfumado e não gorduroso. Nada de base, nada de blush, apenas uma sombra discreta nos olhos, um rímel espesso, e um brilho nos lábios. Sem cor, sem sabor. Nada poderia saber mal. Unhas cortadas, macias, com um verniz incolor.

Aspergiu apenas uma suave colónia, com notas de lúcia-lima e limão.

Calçou umas sandálias quase sem salto, macias, boas para caminhar a noite toda, se fosse preciso.

Reviu a pequena malinha, e lá encontrou tudo o que pensou precisar ( como poderia faltar, se a tinha arrumado algumas horas atrás?)

Olhou-se no espelho, gostou do que viu.

Prendeu o cabelo escadeado, com uma mola grande, com uma grande flor, de modo informal, e ensaiou o seu melhor sorriso, o seu olhar mais inocente, o seu ar mais provocador, pegou na echarpe e no bolero de algodão e dirigiu-se à porta, (que fechou, rodando a chave lentamente, e sem barulho), e depois ao elevador.

Enquanto os pisos iam subindo à sua frente, gozou os arrepios de frio que lhe causaria o brisa da praia, e quase sentiu a areia debaixo da grande echarpe.

Desceu a rua, outra, mais outra, sorrindo à noite de sábado, tão morna.

Na última esquina, parou, respirou fundo e voltou para trás. No local combinado, as mãos dele deslizavam, quase imperceptíveis, sobre outro vestido de seda, camufladas pelo escuro da noite e pela multidão que se juntava para ver o fogo de artifício da noite de S. João.

Não seria esta a noite, nem outra qualquer, nem nunca mais. Com ele. Que, afinal, não conhecia.

Os pisos desceram, a porta foi aberta e fechada. O coração também.

E aspirando o ar da noite, voltou a sair, por outras ruas, à procura de outras mãos firmes, de dedos macios.

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