CRÓNICA DE DOMINGO – A ditadura dos partidos – por Carlos Loures

cronicadomingo3 (2)

Tenho com frequência abordado a questão da partidocracia, ou seja, de um sistema que se baseia no domínio e na autoridade dos partidos, no seu poder que se situa acima de todos os outros poderes. Poucas pessoas estão de acordo. Militantes de partidos de esquerda, concordam que o chamado bloco central , na sua rotatividade ou alternância governativa, configura uma situação de ditadura; mas recusam-se a aceitar que PCP e BE ao manterem deputados na Assembleia da República,  legitimam essa ditadura. «É preciso que alguém ali diga as verdades», é o argumento mais usado. Como se as verdades interessassem de algum modo às maiorias!…

Em quase todos os países em que vigora a chamada democracia representativa, são dois os partidos que se alternam no poder. Segundo o politólogo espanhol Gustavo Bueno, «a partidocracia constitui uma deformação sistemática da democracia», pois, cada um dos partidos do poder «tem sistematicamente que atacar o outro». Não se trata aqui da guerra entre esquerda e direita ou entre conservadores e progressistas. Luta-se, não por princípios ou por ideais (esses, no fundo, são os mesmos), mas por lugares privilegiados.

As oligarquias partidárias digladiam-se pela conservação ou pela tomada do poder, mas no fundo, graças a uma «engenharia endogâmica»  – criadora de uma verdadeira oligarquia – o poder está sempre nas mesmas mãos. Este sistema duocrático vigora em Portugal e em quase todos os países onde existe a democracia formal e parlamentar. Os eleitores podem, no entanto, conservar a ilusão de que vivem numa verdadeira democracia. Podem livremente escolher o partido que quiserem. Levados ao redil do consenso nacional por um aparelho mediático que funciona como cão-pastor, escolhendo entre a lepra e a peste bubónica, votam maioritariamente num dos dois grandes partidos. E chamam a esta alternância, o «jogo democrático». Jogo, talvez seja; agora democrático

1 Comment

Leave a Reply