AINDA SOBRE AS PRAXES, A DOS ESTUDANTES E A DO FMI, DO BUNDESBANK E DA TROIKA IGUALMENTE – por JÚLIO MARQUES MOTA

PARTE II
(continuação) 

Nesta linha de raciocínio, dois rápidos exemplos apenas

A Queima das Fitas, que julgava eu ser organizada por estudantes, era organizada por outsourcing, pelo genro do Sr. Cavaco Silva, o senhor Montez creio,  e, é feita para dar dinheiro! E é aqui que entram os Quim Barreiros, para trazer gente, foi o que me explicaram, estudantes situados à esquerda, ou entram então por uma questão cultural, da (in) cultura moderna.

Ainda sobre a Queima. Alguém se preocupa com o que ela representa no imaginário das crianças da cidade de Coimbra e não só? Possivelmente o direito à festa colectiva, desde teenagers. Alguém se preocupa com a pressão que é feita sobre os adolescentes para o convite da noite e do álcool ao longo de toda a noite e de toda uma semana? Alguém controla a qualidade das bebidas servidas nos recintos da Queima, os ditos shots, e a quem são servidos? Alguém percebe que deveriam ser espectáculos proibidos para jovens com idades inferiores a (…) à idade que quiserem? Dir-me-ão, cabe aos país impedir. Paradoxo; cabe à sociedade permitir, cabe aos pais proibir! E tantas vezes que a pressão externa, a da turma, se torna tão insuportável que um Não imposto pelos pais pode ser bem mais perigoso que um sim. Alguém se preocupa com as dezenas de estudantes que vão parar às urgências do Hospital completamente encharcados em álcool? Não. Isso é para esconder, porque o que importa é o lucro da Sagres ou da Super Bock. E o senhor ministro da Economia, gestor de uma produtora de cervejas, que nos diz a isto? Nada diz, claro está.

Dir-me-ão que estou a exagerar. Antes assim fosse. Em tempos, há dois anos, pedi a um jovem licenciado da minha Faculdade que comentasse um texto que circulava na NET sobre a geração dita rasca, ou antes, geração à rasca, mas à rasca estamos todos nós, o país inteiro. Eis pois o seu comentário sobre a juventude do seu tempo e estamos  a falar em 2011:

“Bom dia caríssimo Professor.

Estive a ler o email que me enviou “Diálogo com um jovem à rasca”, e infelizmente, por muito que me custe, este diálogo corresponde à realidade, pois conheço VÁRIOS colegas que PENSAM (se isto é pensar!) da mesma forma. Para mim é frustrante e um sacrifício enorme ouvi-los, pois é triste saber que desta forma se contribui, se aceitam e aplaudem reformas do tipo “Bolonha” pois nem sequer se sabe a razão de uma manifestação, o seu verdadeiro significado e sentido.

Normalmente em tempo de aulas, no decorrer de um determinado semestre, as conversas que se têm numa mesa de café entre esta geração que na qual eu pertenço, é do género: “vamos curtir a noite hoje; beber até morrer; comer umas miúdas…; não vens! És uns cortes! Temos que começar já a treinar para a queima!!!; olha, já sabes da melhor! a nossa queima é a festa onde se bebe mais cerveja (motivo de orgulho); não demos hipótese a ninguém (a beber)!!! O Zé é um cromo de todo o tamanho, disse que não vai sair hoje porque tem de fazer um trabalho para a próxima semana! Se fosse eu, um dia antes fazia-o na boa! Que cromo! Que rato de biblioteca! Vai morrer ignorante! Olha, vamos com a associação à manifestação, a Lisboa! Aproveitamos, bebemos uns copos, partimos aquilo tudo, pois somos os maiores e temos que mostrar que aqui é que à diversão, aqui é que a noite é a sério! Mostrar aos lisboetas que são uns meninos é beber ao pé de nós!”

Este tipo de diálogo é o que vigora entre nós, geração à rasca. A probabilidade de se falar, por exemplo, de um determinado livro, autor, etc. é raro e, se eventualmente vier à conversa algo do género: “olha este, armado em cromo”, é a reacção geral.”Segundo exemplo, a Avenida Sá da Bandeira, outrora uma avenida preenchida de comércio, de lojas de tudo. Hoje, lojas de nada, fechadas, ou se abertas, transformadas em centros da noite, da bebida, de outras substâncias, resumindo, de dinheiro a circular com a certeza de que alguém o há-de vir a ganhar. Nada mais.” Tudo bem claro, portanto. Numa Universidade onde se vive assim, se “pensa” assim ensino de qualidade não pode haver.

Deste clima,  em tempos protestei face ao Ministro Mariano Gago e, na altura, escrevi:

“A propósito da qualidade de ensino e do seu efeito sobre as capacidades intelectuais de quem dela é um produto, como me custa a imaginar, senhor Ministro, o que entenderá cada um dos “seus licenciados de Bolonha”, face à vida, face ao “mercado”, face ao seu próprio devir. Terá cada um deles capacidade de questionar o que é o Homem? Será cada um deles capaz sequer de sentir que a pergunta tem sentido? Ou será que ganharão esse sentido quando o não sentido que lhes é agora imposto se transformar em corrente humana, na rua, em manifestações, em protestos, conferindo-lhes pela revolta esse sentido de fazerem parte da vida, de fazerem parte da História, como nós o ganhámos nas ruas, nas fábricas, outros nos campos, outros nas universidades, nas campanhas de solidariedade que organizámos, nas manifestações, na capacidade de enfrentar directa ou silenciosamente o poder de Estado, o terrorismo de Estado de então?”

A contestação política como outrora desapareceu no quadro das Universidades, foi sendo sucessivamente substituída pelos mecanismos de acefalia que convinha ao sistema em que as praxes como prática se inserem, ee inserem-se como peças  fundamentais  na produção e gestão do vazio que à juventude se quer impor.

 A lógica da “brincadeira”, da inserção estudantil por esta via, corresponde à visão de uma sociedade que nada tem para lhes oferecer. Deixá-los então distraírem-se, têm tempo mais tarde para se sentirem mal com a vida, para se ferirem quando vierem para o mercado, era o que alguém meu amigo me argumentava contra a minha posição considerada de velho do Restelo. Mas não seria então mais válido preocuparem-se e impedirem que estes jovens sejam magoados depois, dando-lhes mecanismos de protecção de entrada na vida activa? É o que penso e escrevi em tempos numa carta aberta à ministra do Trabalho da altura onde argumentava, face a um conjunto de relatos de jovens que andavam à procura do primeiro emprego, que era necessário proteger e acompanhar a juventude na fase da procura de emprego. Era necessário proteger os jovens da barbárie que é actualmente o mercado de trabalho. Tinha razão, mas estava errado. Não é necessário, eles não têm emprego, têm é que se ir embora, dizem-nos as autoridades.

Nessa época escrevia mais ou menos isto:

Os jovens de hoje, esses, não têm esse direito fundamental, que é o direito ao trabalho, porque o não conquistaram e não o conquistaram porque o sistema concorrencial a que são submetidos de aprender para imediatamente esquecer e a classificação elevada obter para da concorrência dos outros se defender, que é o sistema exigido desde há vários anos no ensino secundário, na verdade a isso os não incentiva, a ter imaginação, a ter vontade de saber. Mas, mesmo que pelas novas escadas de serviço, que o neoliberalismo recentemente arranjou, as venham a conseguir subir, e falo das escadas da vida ou do ascensor social, escadas agora muito mais difíceis que as do fascismo de então devido à crise entretanto criada e bem instalada, certo é que esbarram a seguir na mesma deformação do ensino universitário que desde há vários anos para cá de ensino universitário tem sobretudo o nome “universitário” e pouco mais. Esbarram, ou seja, são considerados desajustados às necessidades. Mas, mesmo que passem esta nova barreira, com um ensino de qualidade por via pessoal adquirido, e venham a subir esta nova escada de serviço, que se passará a seguir? Não se passa nada, a não ser descer as escadas entretanto subidas. Porquê? Porque no final das escadas, por altas que sejam, a porta no final, está bloqueada. A crise económica fechou-a, blindou-a, blindaram-.na com as políticas pro-cíclicas desenvolvidas pelos diversos Sócrates, pelos diversos Sarkozys, pelos múltiplos François Hollande, para não falar ainda do bando de assaltantes que em Portugal impera legalmente a fechar todas as portas do elevador social sob a protecção do actual Presidente da República, porque até com a sociedade querem acabar, de uma maneira ainda mais violenta que a da Dama de Ferro que está a enferrujar em paz. Portas blindadas e o que essa juventude pode encontrar, blindadas com as políticas de saque autenticadas pelos diversos Durão Barroso que reforçam ainda mais a blindagem dessa mesma escada. Bloqueada a escada de serviço, bloqueados também todos os elevadores sociais que o 25 de Abril fabricou, porque a essa saída profissional, dessa séria juventude aparentemente garantida por uma sólida formação adquirida, falta a contrapartida que a sociedade, essa, somos todos nós e os dirigentes que elegemos, tinha a obrigação de lhes ter já construído, ou seja, as condições ou as possibilidades de lhes poder garantir trabalho de acordo com a formação adquirida, é no vazio social que os estamos actualmente a projectar.

(continua)

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Para ler a Parte I deste texto de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá:

AINDA SOBRE AS PRAXES, A DOS ESTUDANTES E A DO FMI, DO BUNDESBANK E DA TROIKA IGUALMENTE – por JÚLIO MARQUES MOTA

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