Às nove em ponto, ela juntou três pedras de gelo e meia medida de uísque num copo, completou a dose com água gasosa. Não que gostasse da bebida, bem ao contrário, havia se decidido pelo uísque exatamente por detestar o cheiro e o gosto excessivo de álcool. A nova mulher, a determinada, já passara também pelo teste do telefone, uma conversa incisiva, direta ao assunto. O assunto com um toque de exagero, admitia. Não fosse assim, ele não viria de pronto.
Encostou a porta do quarto do filho há horas vencido pela tarde de futebol na praia, e a da cozinha, isolando empregada e novela. De passagem pelo lavabo, retocou a maquiagem, discreta, pouco mais que batom e rímel. Ajeitou as alças do vestido, sentou-se cuidadosamente numa das cadeiras à mesa de jantar, evitando amassar a seda açafrão. As sandálias, tiras finas e salto doze trucidando os dedinhos, eram usadas apenas, ele sabia, em ocasiões especiais. O aniversário de alguém “muito” querido, por exemplo. Disso não estava certa. Podia parecer coincidência demais.
Reconheceu os dois toques curtos da campainha. Terno azul marinho impecável, ele entrou afrouxando a gravata, largou a pasta na poltrona, reclamou do trânsito, do dia cheio, do caminho desviado, a irritação quase palpável nas palavras.
Ela estendeu um uísque, caubói, pediu desculpas pela atrapalhação, noite de sexta, também tinha compromisso, não ia demorar nada, prometia. Sentiu os olhos esquadrinhando seu corpo, sandálias, pernas, vestido, decote. Menos de um ano antes a visão astaria para excitá-lo. Agora, ele sentou-se ao lado da pasta e resmungou entredentes “pronta para sair e arrumada desse jeito, não deve ser mesmo grave”.
Elogio labiríntico, mas indiscutível. Ela conteve um sorriso.
Esperava bem pouco desde a tarde em que ele saiu de casa, depois de resmungar meses a fio, precisava de espaço, de um tempo, stava sufocado; para se juntar com outra, nem bem dobrou a esquina, uma garota, quinze anos mais nova que ela.
Mas o fim, linha imaginária fugidia – ao menos do ângulo dela – acabou se concretizando somente na noite do domingo anterior, ao ouvi-lo refutar, dessa vez um tom à beira do ódio, todas as razões para uma volta. Nessa mesma noite, quando afinal parou de chorar, prometeuse, diante de todos os espelhos da casa, uma mudança radical de atitude.
Só não poderia mudar o menino no quarto, o pai cuspido e escarrado, o “até que a morte os separe” em carne e osso. Que adorava ontar com detalhes os fins de semana quinzenais, as brincadeiras, os passeios com o pai e a “tia”. Domingo não, domingo sim, era omo assistir a um filme de terror, as almas penadas sorridentes vagando pelo apartamento.
Ele esvaziou o copo num gole.
De volta à cadeira da mesa de jantar, a fenda lateral do vestido bem fechada entre os dedos, cruzou as pernas, encarou-o. “Não, não é grave, mas é importante. Nosso filho parece estar com problemas na escola.” Ele quicou na poltrona antes de falar: “Parece? Como um garoto de cinco anos pode ter problemas na escola?”.
“Anda agressivo, batendo nos colegas, a professora disse. Ela me perguntou se a rotina dele havia muda-do, eu contei – você me desculpe, não dava para mentir – o pai saiu de casa há uns meses, ele ficou triste nos primeiros dias, mas logo, pensamos, se acostumou com a idéia.”
Nesse ponto, ela o percebeu murcho, braços, ombros e olhos caídos.
A mulher antiga, bebedora compulsiva de coquetel de frutas sem álcool, teria se arrependido, tentado um beijo, um afago nos cabelos. A nova mulher engoliu a última gota da água amarga, já sem gás, uma inexpressão minuciosamente congelada no rosto. Se ele não sabia, “são as crianças que sofrem mais numa separação” – um dos clichês usados pela professora – do qual, aliás, ela discordava com todas as forças.
Testa pregueada de rugas grossas, olhar fixo na parede atrás dela, ele suspirou minutos inteiros. Depois, parecendo buscar as palavras pelos móveis, murmurou, nem de longe os maus bofes do começo: “a gente precisa fazer alguma coisa”.
No impulso de responder “a gente não, meu caro, você precisa consertar essa besteira”,
chegou a abrir a boca. Engoliu um pouco de ar, desistiu. Refez a máscara no rosto, falou como se o compreendesse: “Eu marquei uma psicóloga. Segunda-feira, na hora do almoço. Seria bom se você fosse também. Não perguntei o preço, mas você não vai barganhar a saúde do menino, eu sei”.
Previsível, ele aceitava tudo, gemendo do fundo do assento, “claro, tudo bem, eu dou um jeito”.
Ela se levantou. Pegou a pasta no canto da poltrona, pôs no colo dele. A mão resvalou na barba rala, um incontrolável eriçar de pêlos correu o braço. Ele se afastou, sumiu dentro do quarto do filho.
Porta da rua aberta, esperando rígida sob o marco, mal o percebeu de novo na sala, ela ouviu a própria voz, mais hesitante do que gostaria, “é melhor você ir, eu estou atrasada”. Ele passou mudo, esquadrinhando outra vez, sandálias, pernas, vestido, decote, o eriçar de pêlos antecipando o olhar.
Sandálias caídas ao lado da cama, dedos esparramados nas havaianas, deixou o vestido escorregar cor-po abaixo, largou a trouxa de seda açafrão no meio do quarto. Lavou o rosto, catou uma camiseta velha no armário, ligou o ar condicionado.
Passava pouco das dez, quando apagou a luz e deslizou para baixo do edredom. Pela primeira vez em meses, havia sido ela a terminar a conversa. Sem dramalhão, sem gritaria, sem súplicas, principalmente.
Precisava extrair as últimas lascas de desejo, doendo inutilmente sob a pele, sabia. Para isso, o tempo. De todo modo, a nova mulher já podia ser conside-rada um sucesso.
Ela projetou novos amigos, novas ocupações, e em algum momento, sem dúvida, um namorado. Conferiu a casa, o garoto no quarto, a empregada, o ex-marido, a rival. Com pequenos ou grandes ajustes, tudo acabaria por alcançar a importância exata.
Ainda assim, as cobertas pinicavam o corpo, pesavam sobre o peito, a madrugada chegou muito antes do sono.
Em algum lugar, alguma coisa faltava demais.

