CRÓNICA DE DOMINGO – O REGRESSO AO PASSADO – por João Machado

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Aproximando-se o fim daquilo que se convencionou chamar a intervenção da troika, o governo e seus apoiantes andam agora a tentar convencer-nos não ser possível o regresso ao passado. A proximidade das eleições europeias incentiva claramente a intensificação desses esforços, porque, embora estejam em jogo os lugares no parlamento europeu e não na assembleia da república, os resultados vão ter repercussão em toda a vida nacional. Para melhor, ou para pior. Se correrem mal aos partidos do governo, vão ter dificuldades acrescidas em conseguirem convencer-nos de que isto está a recuperar. Se correrem muito mal, vão ficar apertados. Não vão estar em jogo apenas os problemas nacionais, vistos à moda de Passos/Portas. Estará também a carreira política dos que integram os governos e dos que os apoiam mais de perto. Os “mercados”, a “Europa” querem resultados, e estes medem-se pelas dívidas públicas altas (eles querem-nas assim, por muito que digam o contrário) e juros altos, mas pagos sem falta. Isto é um negócio!

Mas… a que chamarão o passado? Obviamente o período de tempo anterior às leis que regulam o trabalho e aos cortes nas prestações sociais. Foram estas as suas principais realizações, desde Junho de 2011, para não dizer as únicas. O que pretendem com isto? Convencer-nos, primeiro, de que a austeridade é uma opção inelutável. Não se pode pô-la de parte, querem-nos impingir. Segundo, que só eles o conseguem fazer. Mais ninguém.

Com certeza que muitas pessoas não acreditam nisto. O problema é a insegurança que sentem. O facto é que as pessoas não se sentem seguras, por várias razões. A principal é sem dúvida o pouco hábito de participação na vida social e política, resultante de vários factores, mas sobretudo da convicção de que o poder é propriedade exclusiva de uns poucos, que se transmite por via hereditária, ou por generosa concessão de que o detém a alguns abençoados. Estes últimos são pessoas de comportamento modelar, que cumprem as normas do sistema. Que nunca põem em causa os mercados. E que dizem dez vezes ao dia (pelo menos) que o ensino público, o serviço nacional de saúde e a segurança social põem em causa a liberdade. Omitindo evidentemente que se trata da liberdade deles, dos que detêm o exclusivo do poder, e não da liberdade do comum das pessoas.

Ignorar a importância destas eleições europeias é obviamente um disparate. Agora é claro que só ajudarão a mudar a face deste país se tiverem um resultado mau, de preferência muito mau, para quem detém o poder, não só o político, como o económico e o ideológico. Para além do problema da falta de hábitos de participação, que não se resumem de modo nenhum a meter um papel numa caixa (urna, é o nome que lhe dão, talvez de propósito), há que combater o desejo de fuga, irmão gémeo do desprezo pela participação, inculcado durante séculos nos espíritos. E combater também o espírito mesquinho que faz passar rivalidades pessoais à frente da necessidade de enfrentar os que chamam “regresso ao passado” a pôr fim àquilo a que designam por austeridade.

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