50 anos a promover a pobreza e a caridadezinha – por Mário de Oliveira

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Só faltou que alguém gritasse, Viva o fascismo! Viva!

Chama-se Obra Diocesana de Promoção Social (ODPS). E é do Porto. Acaba de completar 50 anos de existência e de actividade. Vai daí, o respectivo Conselho de Administração decidiu que o facto merecia bem uma missa festiva. E missa houve, dia 6 de Fevereiro, na respectiva Sé catedral que se encheu de gente graúda, em ter e em parecer. Tudo conforme as hipócritas etiquetas do cristianismo. Presidiu o Pe. Lino Maia, quando era expectável que presidisse o Bispo Administrador Apostólico da Diocese. D. Pio, pelos vistos, preferiu delegar no Pe. Lino Maia, e este não se fez rogado. De resto, é o Assistente Eclesiástico da instituição, que ODPS, como é diocesana, tem de ter um assistente eclesiástico, clérigo, já se vê. A Diocese nunca deixa os seus créditos por mãos alheias. Em tudo o que meta dinheiro e poder de decisão, tem de estar sempre um clérigo. Nada sem os clérigos. Tudo com os clérigos. O Pe. Lino Maia presidiu à missa e fez homilia, mas nada disse que fosse notícia. Ficou-se pelo óbvio. Pelos narizes de cera da praxe. De resto, a missa é a missa. Produz efeito ex opere operato, assim a modos de automático. Tanto faz assim, como ao sol. O efeito é sempre garantido, independentemente do que diga ou deixe de dizer o clérigo que a ela preside. Talvez por isso o Bispo Pio tenha optado por delegar no Assistente eclesiástico. Ou, talvez já não esteja para mais maçadas e prefira delegar. Se não serve para Bispo titular da diocese, para que há-de servir para presidir a missas destas?! Contentem-se com o assistente eclesiástico. E com algum dos dois bispos auxiliares ainda em exercício de funções…

 De resto, a missa não era tudo. Nem sequer era o principal das bodas de ouro da ODPS. O momento alto veio a ser o jantar comemorativo dos 50 anos, realizado no dia seguinte ao da missa. Um jantar de gala, pois então. Bem longe dos bairros degradados do Porto, por onde a ODPS estende a sua hipócrita acção de caridadezinha e de “promoção” da pobreza. Para isso foi criada. Não para acabar com a pobreza, mas para a promover. Os ricos precisam de obras assim, para descarregarem a consciência e, cada noite, dormirem descansados. Sabem que os pobres que produzem jamais se rebelam contra este tipo de mundo, enquanto houver obras como esta, administradas por cristãos ricos que, assim, aparecem aos olhos dos pobres, como seus benfeitores e não como os seus fabricadores. A comprovar a verdade do que aqui acaba de ser escrito, diga-se que o jantar decorreu no Palácio da Bolsa. Sim, Palácio da Bolsa. Não há engano. A missa, foi na Sé Catedral do Porto. E o banquete não lhe quis ficar atrás e foi degustado no Palácio da Bolsa. Bem longe dos pobres da diocese, condenados a ter de viver em bairros degradados, ou assim, assim. Bairros de habitação social. Que estigmatizam quem neles vive, tal como o Palácio da Bolsa enobrece quem o frequenta. Cada um no seu lugar, pois então. Os ricos, no Palácio da Bolsa. Os pobres, nos Bairros de habitação social. Tudo nos conformes, tal como a Diocese, com os bispos no palácio episcopal e no topo do interior da catedral, e todos os outros diocesanos, a seus pés.

 O jantar foi organizado pela Liga dos Amigos da Obra, em parceria com o respectivo Conselho de administração. Amigos ricos, ora, pois. Os muitos comensais ocuparam nada mais, nada menos que o Páteo das Nações, no Palácio da Bolsa. E a presidir ao banquete, lá esteve o bispo D. João Lavrador. A presidir à missa, bastou o assistente eclesiástico da Obra. Ao banquete, o assistente foi apenas mais um dos comensais, não o presidente. No Palácio da Bolsa e com tanta gente fina e endinheirada, só mesmo um bispo a presidir. Os poderosos e os ricos atraem-se uns aos outros. Rico com rico. E o bispo é sempre um deles. É entre os ricos que o bispo se sente a jeito. Sobretudo, quando se trata de comer em honra de 50 anos de existência de uma instituição criada para a promoção da pobreza e da caridadezinha aos pobres.

 Presidiu o bispo e foram muitas, as graúdas figuras. Tudo gente fina. “Personalidades”, como escreve a VP, em reportagem de página inteira, no interior do jornal, edição de 12 Fevereiro 2014. Foram mais do que muitas. Até “Sua Alteza Real o Duque de Bragança, D. Duarte Pio”. Assim, tal e qual. Sem ser escrito em tom de gozo. Tudo muito sério. Tão pouco faltou o Secretário de Estado da Solidariedade e Segurança Social, Agostinho Branquinho. Houve comida requintada, ao nível da Liga dos Amigos. Só faltou dizer por quanto ficou o banquete. Mas gente fina é outra coisa. E nem faltaram os brindes, ao modo dos idos do fascismo. Houve, até, mensagens lidas, na ocasião, enviadas pelo “Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva” e pelo “Primeiro Ministro, Pedro Passos Coelho”. Tudo nos conformes, que o altar não se aguenta sem o trono e o trono cai, se lhe falta o apoio do altar e do Deus do altar. Os criminosos políticos andam sempre casados com os criminosos religiosos. Mas que ninguém diga ou escreva que são criminosos, diga e escreva que são “personalidades”. É assim o cristianismo eclesiástico. E o laico segue as pisadas do seu progenitor.

 São eventos como este que nos revelam que o 25 de Abril de 1974 nunca existiu como nos querem fazer crer. Existiu no calendário e teve cravos vermelhos que já escondiam os cravos que atravessam hoje as mãos ou os pulsos dos povos crucificados. Saibam que a ODPS nasceu ainda no fascismo e mantém-se, desde então, com cada vez mais pobres e cada vez mais caridadezinha. Nela, andam, de mãos dadas, os ricos da Liga dos Amigos e os clérigos. Deste casamento sai sempre mais domesticação e mais resignação dos pobres. A tão falada promoção da ODPS é, afinal, promoção da pobreza e da caridade, em ligação com o Banco Alimentar contra a Fome. O que seria dos clérigos sem a existência dos pobres? E dos ricos que os fabricam? Missa e banquete, uma só realidade. Sé catedral e Palácio da Bolsa, a mesma casa em dois edifícios distintos, a mesma mentira. É nestas horas que se vê que os pobres têm de permanecer encurralados nos bairros, enquanto os seus fabricadores hipocritamente se juntam numa missa festiva na Sé Catedral e depois num banquete, no Páteo das Nações do Palácio da Bolsa. Segundo a urbanidade e as conveniências eclesiásticas cristãs e ricas. Só faltou que alguém, nos brindes, se levantasse, estendesse o braço direito ao jeito de saudação da Mocidade Portuguesa e gritasse, Viva o fascismo! Viva!

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