CADÊNCIAS TRISTES – de CESÁRIO VERDE – poema dedicado a João de Deus

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Cesario_Verde

CADÊNCIAS TRISTES

A João de Deus

 

Ó bom João de Deus, ó lírico imortal ,

Eu gosto de te ouvir falar timidamente

Num beijo, num olhar, num plácido ideal;

Eu gosto de te ver contemplativo e crente,

Ó pensador suave, ó lírico imortal!

 

E fico descansada, à noite, quando cismo

Que tentam proscrever a sensibilidade,

E querem denegrir o cândido lirismo;

Porque o teu rosto exprime uma serenidade,

Que vem tranquilizar-me, à noite, quando cismo!

 

O enleio, a simpatia e toda a comoção

Tu mostras no sorriso ascético e perfeito;

E tens o edificante  e doce amor cristão,

Num trono de bondade, a iluminar-te o peito,

Que é toda a melodia e toda a comoção!

 

Poeta da mulher! Atende, escuta, pensa,

Já que és o nosso irmão, já que és o nosso mestre,

Que ela, ou doente sempre ou na convalescença,

É como a flor de estufa em solidão silvestre,

Ao tempo abandonada! Atende, escuta, pensa,

 

E, ó meigo visionário, ó meu devaneador,

O sentimentalismo há de mudar de fases;

Mas só quando morrer a derradeira flor

É que não hão de ler-se os versos que tu fazes,

Ó bom João de Deus, ó meu devaneador!

Tribuna

Outubro, 1874

Lisboa

Nota – Fomos buscar este poema a O Livro de Cesário Verde, da Livraria Estante Editora, edição de 1987, a quem apresentamos os nossos cumprimentos e pedimos compreensão. João de Deus nasceu faz hoje 184 anos. Também reproduzimos o conteúdo da nota que está no livro, que nos informa que este poema de Cesário Verde foi publicado pela primeira vez em 1874, na Tribuna, assinando “Margarida”. O poeta tinha na altura 19 anos.

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