EDITORIAL – NA SÍRIA NÃO SÃO SÓ AS BALAS QUE MATAM, MAS TAMBÉM A FOME E A FALTA DE RECURSOS NA ÁREA DA SAÚDE

Fez ontem três anos que os sírios saíram às ruas para protestar contra o logo editorialgoverno do ditador Bashar Assad, tendo depois os protestos derivado numa guerra. As tentativas de organismos internacionais para mediar o conflito (o chefe das forças de paz das Nações Unidas, Herve Ladsous, Kofi Annan que renunciou à missão por não ter obtido sucesso no cargo e Lakhdar Brahimi, que também não conseguiu avanços) foram infrutíferas e em Junho de 2012 a situação passou a ser reconhecida como uma guerra civil.

A situação dos seus habitantes e de refugiados é dramática. Para além das 10 mil crianças que terão sido vítimas directas do conflito (dados do último relatório entregue ao Conselho de Segurança das Nações Unidas), a organização Save the Children diz que centenas de milhares de menores terão morrido por causa de doenças tratáveis, dado que o colapso do sistema de saúde está a sujeitar crianças a condições bárbaras, com práticas médicas brutais que lhes estão a provocar sofrimento, havendo paragem dos programas de vacinação, nascimentos em condições precárias e tendo a poliomielite voltado ao país.

 A campanha de solidariedade para com as vítimas do conflito – #WithSyria – que a Amnistia Internacional tem em marcha, juntando-se a mais 115 agências humanitárias e grupos de defesa dos direitos humanos, oriundos de 24 países, pede que sejam tomadas acções urgentes, incluindo por parte do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que assegurem a chegada de ajuda humanitária aos sírios, sobretudo o às zonas povoadas por civis que se encontram sob cerco armado há meses ininterruptos e onde as pessoas estão a morrer à fome e devido à falta de assistência médica. Esta campanha tem também por objetivo que as vozes dos civis sírios sejam ouvidas e tidas em conta em conversações de paz que devem ser relançadas prontamente.

E vêm-nos também à memória um acontecimento, ocorrido precisamente há 46 anos, só conhecido um ano depois, mas igualmente chocante: o massacre de My Lai onde em apenas quatro horas, soldados americanos mataram animais, queimaram choupanas, violaram e mutilaram mulheres, assassinaram homens e trucidaram crianças, num total de 504 cadáveres dos aldeões, na sua grande maioria idosos, mulheres e crianças (cerca de 170), todos desarmados e assassinados a sangue frio.

O conceito de “ banalização do mal”, que Hannah Arendt defendeu a propósito da sociedade alemã pode ser estendido a qualquer situação em que os direitos humanos são violados.

Leave a Reply