UCRÂNIA, CRIMEIA, EUROPA, RÚSSIA, LADOS DO MESMO DRAMA: A INCAPACIDADE DAS NOSSAS ELITES EM DAREM LINHAS DE FUTURO AOS POVOS EUROPEUS – por JÚLIO MARQUES MOTA

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Amanhã, haverá um referendo na Crimeia. A Europa a dividir-se por força da política neoliberal e talvez da força expansionista alemã a querer refazer as suas fronteiras económicas de antes da guerra, é o que me parece.

Ninguém morre por um acordo comercial, foi a ideia que me levou a estudar o problema Ucrânia.   Vários textos  foram já por nós editados, em particular, uma   montagem de artigos do Washington Post e praticamente todos eles  a dizerem não à escalada da violência, praticamente todos eles a responsabilizarem o Ocidente pela aventura em que se terá metido.

Diplomaticamente um absurdo, é o que me foi dado a ler na maioria dos casos. Estamos portanto longe da ideia de que Putine  é o papão e os políticos ocidentais de Durão Barroso a Nuland, passando por Merkel ou Obama, são uns santos.  A famosa gravação entre Catherine Ashton, Alta Representante dos Negócios  Estrangeiros e Segurança  e o ministro da Letónia levantando a suspeita de atiradores especiais pagos para matar levou-me a  interessar-me ainda mais sobre o tema.

Em seguida, dentro dos vários artigos lidos havia alguns que claramente responsabilizavam sobretudo Durão Barroso e a Comissão pela aventura em que estavam a colocar a Europa, estão e estarão, pois que a partir de agora nada mais será como dantes. O regresso aos tempos da desconfiança reciproca instalou-se, o mesmo é dizer que o caminho para o regresso aos tempos da Guerra Fria aí está e está para ficar. Na nossa opinião, a  de quem só agora andou a ler sobre o assunto, há aqui um estranho   conjunto de coincidências, a da incompetência dos nossos dirigentes, qual deles o pior, o interesse especial alemão em estender a sua área de influência  económica, descentrando-se da sua importância pela zona euro ou seja, virando-se mais para leste, e a crise económica, que deve ser abafada por acontecimentos que  a ultrapassem e um clima de guerra fria viria mesmo a calhar.

Como assinala Christophe Beaudouin , num artigo que iremos publicar sob o titulo : A França talvez ainda não esteja consciente de que pode morrer:

“Com efeito, a passagem da Europa das nações à Europa da integração, do Mercado comum à globalização mercantil é a assinatura de uma grande renúncia. Uma renúncia à Europa como vontade e como civilização. Uma renúncia à democracia compreendida como a soberania colectiva e mais geralmente como “o governo dos Homens”. Esta renúncia egoísta das novas elites – aquelas que controlam os fluxos de dinheiro e de informação mundiais – conhece grandes precedentes históricos: no século IV, a decadência do espírito público que atingiu a classe dirigente romana provocou a desordem que está na origem da implosão de Roma assim oferecida aos invasores; do mesmo modo, o desmoronamento moral das elites francesas preparou o desmoronamento militar e “a estranha derrota” de Maio-Junho de 1940 de acordo com a famosa fórmula de Marc Bloch. Mas como justificar ainda os seus privilégios se as elites viram assim as costas ao Bem comum? Chateaubriand via nesta traição das elites uma espécie de fatalidade: “Uma classe dirigente conhece três idades sucessivas: a idade das superioridades, a idade dos privilégios, a idade das vaidades: a saída do primeira, degenera na segunda e apaga-se na última.” Assim, no dia seguinte ao da queda do muro de Berlim em 1989, os dirigentes das democracias do Ocidente europeu, onde o individualismo egoísta minava outra vez o espírito público, foram tomadas de pânico em face das responsabilidades novas de que  as suas democracias herdavam enquanto nações soberanas, num mundo finalmente livre. Ao contrário do sentido desta libertação histórica que teria devido encher de alegria todo o continente e o mundo inteiro, dispararam numa correria para uma concepção de fusão da Europa,  de resto, velha dos anos 50. Sentindo o vazio a corroer a nação a partir de dentro, a elite francesa deixou de imaginar,  desde há muito tempo, um destino próprio para a nação. Em vez de pensar  sobre uma arquitectura europeia flexível que conjugue respeito das democracias, da necessidade de fronteiras e economia de mercado, os Estados da Europa colaram-se os uns aos outro sob a égide da administração de Bruxelas, como galinhas doentes a um canto do galinheiro. Já não era nem a paz nem a fraternidade europeia que os movia desta vez, mas a angústia de um mundo que estava em grande mudança. A integração supranacional é a última viagem das democracias cansadas, exaustas e quase que aliviadas por sentirem estar a chegar o seu fim, sem nenhum problema de consciência, face às responsabilidades decididamente exigentes da soberania.”

Pois bem, como primeiro texto deste pequeno conjunto que iremos publicar a partir de Domingo, dia de uma nova grande fractura na Europa, publicaremos um texto que nos mostra que o drama da Ucrânia não está desligado do de Portugal,  Espanha, Itália, Irlanda, França e outros que se lhe seguirão : é um produto claro do neoliberalismo uma vez que um subproduto deste é o esvaziamento intelectual das nossas elites, caracterizadas por uma cegueira total quanto aos interesses colectivos e por uma ganância brutal no que diz respeitos aos interesses particulares. A partir de amanhã, Domingo, um artigo sobre os infantilismos europeus. Seguem-se depois uma série de artigos entre os quais a síntese de um relatório apresentado ao Senado de França, cuja redacção terá terminado em meados de Janeiro, onde se descreve  que uma verdadeira política europeia cheia de sentido dos valores de que a Europa se reclama seria o oposto do que a Comissão Europeia tem levado á prática  e em que descreve  o que ela, Comissão, fez para pressionar a esta situação absurda a que se chegou! Um texto para-oficial notável. Este é pois um texto distante, parece-nos , muito distante mesmo das posições da deputada Ana Gomes ou do Rui Tavares Enfim, um comportamento de Bruxelas e de Washington a levar a que muitos analistas  expressem que a válvula de segurança para a Europa apareça do lado do ditador Putine! Desagradável certamente mas mais desagradável ainda é termos de  suportar estas elites dispostas a todas as mentiras, a todas as manipulações para se conservarem nas rédeas do poder a servir os mercados desregulados e quem bem enriquece com eles, empobrecendo com isso os povos europeus e a Europa enquanto espaço económico, social e  político.  Uma aventura belicista que nos pode custar caro é o que transparece na maioria dos textos publicados. Possivelmente, Bruxelas e os ou as Nuland deste planeta pensaram que poderiam fazer o mesmo a Putine que fizeram a Gorbatchov, perdendo-se com isso a oportunidade histórica de uma integração até aos Urais, em que os dirigentes europeus andaram de humilhação em humilhação até o substituírem por um bêbado-Ieltsine. Quem se lembra de um célebre G-8 em Londres em que Gorbatchov foi humilhado por um John Major qualquer?   Política externa séria é o que se  pretende com estes textos, é disso que se fala neles, é também para a demissão urgentes destas  nossas elites   que se quer alertar.

Coimbra, 15 de Março de 2014.

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