A FRANÇA TALVEZ AINDA NÃO ESTEJA CONSCIENTE DE QUE PODE MORRER, por CHRISTOPHE BEAUDOUIN

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Christophe Beaudouin: A França talvez ainda não esteja consciente de que pode morrer*

Uma entrevista publicada por Nouvelles de France, Outubro de 2013

PARTE III 
(CONTINUAÇÃO)

Quais são os países onde os dirigentes e/ou os povos começam a abrir os olhos sobre o que se tornou a UE? (tendência global + casos específicos)?

Vejam-se os estudos “Eurobarómetro” desde há vários anos e ver-se-á que a União europeia é cada vez mais impopular. Há também a queda contínua da participação nas eleições europeias em mais de 20 pontos em trinta anos. As  pessoas mais hostis são, em termos de faixas etárias, as pessoas com mais de 40 anos e em termos de categorias: os desempregados, os trabalhadores independentes e os reformados. Para a França, recorde-se mesmo assim “o não” massivo ao referendo de 2005 e relembro a sondagem IFOP para Valores atuais publicada em Junho, revelando a queda continua desde há dez anos da taxa de opiniões positivas. É impressionante entre aos países mais atingidos pela crise no Sul da Europa, mas também na França onde os que pensam doravante que “a pertença à União é uma má coisa” passou de 25% em 2004 para 41% em 2013. Na Alemanha, o novo partido anti Euro criado por intelectuais (AFD) recolheu 4,9% nas eleições gerais, o que lhe daria alguns eleitos com o mesmo com a mesma taxa de votos para as europeias e têm  mesmo possibilidades de progredir. As sondagens são mirabolantes para o Ukip no Reino Unido, em que Nigel Farage conseguiu o feito de fazer do seu partido a terceira força política do país. Na verdade, a desconfiança contra as elites dirigentes – das quais a Europa integrada é o único projecto desde há quarenta anos – é colossal sobre todo o continente. O risco hoje, é que esta desconfiança popular seja em certos países sejam captados sobretudo por partidos extravagantes, racistas ou perigosos (Grécia), em vez de o serem por candidatos sérios, responsáveis e competentes.

“Os Europeistas chamam “a Europa” ao que hoje não é mais do que uma acumulação de normas e de injunções, uma fria construção de vidro e de aço, sem portas, sem tecto e sem memória.  Já não há muito “europeismo” na sua chamada “União europeia” mas “um mundialismo “ vulgar, materialista e relativista. Na verdade, são o humanismo e os valores fundadores da civilização europeia que é necessário virar contra esta barbárie mole, tecnocrática e mercantil, e contra os seus empregados políticos igualmente.”

Porque não se ouvem mais vozes credíveis a protestar contra a deriva da UE? (censura, subvenções, pescas à linha, etc.)?

Isso depende dos países. Na França, na Alemanha ou na Bélgica, o europeísmo está relacionado com o sentimento religioso. Inscreve-se no “progressismo”, esta religião das classes dirigentes brilhantemente dissecada por Jean-Claude Michéa. A cada um de nós , esta religião ordena que se quebre com “o mundo de antes” e por conseguinte, que se transgridam todos os limites morais, culturais e políticos recebidos em herança. Repetem-nos com sucessivas emissões de televisão e de rádio assim como com editoriais que a tendência é inelutável, “que não se para o progresso”, “ com a mundialização”, “com a Europa” etc. Embora tudo isso choque diariamente com a realidade, é esta temporalidade fechada da ideologia que torna difícil ou mesmo perigoso para o seu autor a expressão da mais pequena  crítica e é assim até ao absurdo.

Os Europeus sinceros deveriam ser os mais vigilantes na denúncia destas derivas que afundam a Europa. Ora, qual  dos apóstolos da austeridade orçamental por exemplo confessou aos Franceses que a Europa era a união comercial menos protegida do mundo[1], ou que , desde há desde 18 anos, o Tribunal de Contas europeu recusa simplesmente certificar as contas da União devido ao número elevado de irregularidades e de suspeitas de fraudes? Qual dos nossos grandes democratas se ouviu até agora dizer que se sentiu indignado  no momento da assinatura do tratado de Lisboa, que não era mais do um corta e cola do tratado constitucional rejeitado pelo povo francês e neerlandês aquando dos referendos de 2005? Qual o eleito da nação ou constitucionalista que se tenha comovido com a confusão dos poderes entre as mãos de uma Comissão europeia, desprovida de qualquer mandato democrático saído das urnas, ao acumular funções legislativas, executivas e mesmo jurisdicionais, quase sem nenhum controlo democrático?

Algures na Europa, a questão da viragem para a pós-modernidade democrática é levantada por grandes vozes, cada uma à sua maneira. Penso, por exemplo, em Jürgen Habermas, em Joseph Weiler, grandes universitários, penso em dois antigos Presidentes da República: Vaclav Klaus na República Checa e Roman Herzog em Alemanha. Há também, à sua maneira, os cursos constitucionais alemão e italiano ou ainda a comissão dos Negócios europeus da Câmara dos lordes britânica. Porque é que a integração europeia correria o risco de ameaçar a democracia na  Itália, na Alemanha, na Dinamarca ou no Reino Unido, mas nunca em França, onde se acusa de alienado mental aqueles que ousam, tranquilamente, levantar a questão? De uma maneira geral, a liberdade de expressão no nosso país não cessou de recuar desde há trinta anos, incluindo de resto – o sinal não engana – às custas dos humoristas e dos artistas…

É o humanismo e os valores fundadoras da civilização europeia que é necessário contrapor a esta doce barbárie tecnocrática, mercantil, e contra os seus empregados políticos
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[1] Nota do Tradutor. O autor refere-se, creio, às declarações proferidas por Jean-Michel Banier, possivelmente o Comissário mais competente da actual Comissão Europeia e, por isso mesmo, o mais sinistro, o mais convincente dos Leopardos da Comissão e nesta só conhecemos dois, ele e Laslo Andor.  É o homem encarregado da regulação, o homem que antes da sua nomeação assustou Londres porque esta capital temia que a Comissão atacasse a City! Curiosamente,  o insuspeito Le Monde na altura tomou a defesa da City!  Mas santa ignorância, conforme se provou à posteriori,    os serviços secretos ingleses deveriam saber que Banier  tinha sido um dos arquitectos da Directiva Bolkestein, para deverem compreender que não havia razão para medos. Uma das afirmações mais curiosas de Banier sobre a política de liberalização promovida pela União Europeia é a de que esta tinha sido ingénua nas relações comerciais  estabelecidas com os países emergentes… 
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*Fonte: o texto está disponível no site :  http://www.ndf.fr/poing-de-vue/11-12-2013/christophe-beaudouin-france-nest-etre-pas-encore-bien-consciente-quelle-mourir-13

Foi depois retomado por muitos outros sites entre os quais o Observatoire de l’Europe onde lhe foi dado o título:

A União tornou-se numa empresa de liquidação da Europa como civilização e como projecto

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Para ler a Parte II desta entrevista a Christophe Beaudouin, publicada ontem em AViagem dos Argonautas, vá a:

A FRANÇA TALVEZ AINDA NÃO ESTEJA CONSCIENTE DE QUE PODE MORRER, por CHRISTOPHE BEAUDOUIN

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