A CANETA MÁGICA – A HISTÓRIA REPETE-SE? (I) – por Carlos Loures

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Heraclito de Éfeso disse que não nos podemos banhar duas vezes nas águas do mesmo rio, palavras que vão no sentido de afirmar a irrepetibildade dos acontecimentos históricos.  Porém, no sentido inverso, temos uma citação de peso – Se queres prever o futuro, estuda o passado, terá dito Confúcio. E neste pressuposto de que o passado contém o presente e o futuro se baseia o princípio de que «a história se repete». Vamos tentar meditar um pouco sobre esta, ideia, um lugar-comum, a bem dizer. Os lugares comuns correspondem em geral a uma visão realista. Será o caso deste principio? A história repete-se? Para sabermos o que vai acontecer, basta estudar o que aconteceu? Antes de mais, pergunto, o que é a História?

Segundo a definição de José Pedro Machado, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, o vocábulo história, provém do grego clássico historía (ἱστορία), que significa “investigação, procura, informação, conhecimento”. Por metonímia, o conjunto destes processos e dos registos obtidos, é também designado por história.

Estamos, pois, perante uma ciência que se pretende tão exacta quanto possível. Os historiadores baseiam preferentemente os seus estudos em fontes primárias, ou originais. No entanto, bem sabemos como muitas vezes essas fontes estão inquinadas. Um exemplo – crónicas encomendadas ou escritas por cronistas oficiais, reflectem a verdade objectiva ou a versão que serve os desígnios de quem paga? Há um outro lugar-comum que diz que a história é escrita pelos vencedores. A heurística, ou seja, o método científico pelo qual se avalia a veracidade das fontes históricas, comparando versões e utilizando registos coevos, recorrendo a testemunhos arqueológicos, depara por vezes com essa realidade – a “versão oficial” é a única que existe. A História é a Suprema Ficção, diz Eduardo Lourenço numa longa entrevista que José Jorge Letria publica em livro recente. No seu “1984”, George Orwell fala de um poder que todos os dias altera a história, ajustando o registo do passado às conveniências do poder no seu dia a dia. Todos os que sofreram o ensino de História durante a ditadura, sabem como os factos eram narrados, empolados ou omitidos consoante iam ou não no  sentido que ao regime interessava. Interessava que história confirmasse a legitimidade do poder salazarista.

Voltemos à questão inicial – a história repete-se? Heraclito diz que quando nos banhamos duas vezes no mesmo rio, porque ele não é em dois momentos sucessivos o mesmo; de um instante para o outro, mudou, transformou-se noutro rio pela segunda vez, o rio já não é o mesmo. Por seu turno,. Confúcio aconselha a estudar o passado para  prevermos o futuro…Mas há também um provérbio dos beduínos diz, mais ou menos, «por cada vez que olhares para trás, olha três vezes para a frente».. E, já agora, um princípio que orienta os modernos gestores – gerir uma empresa com base  em relatórios, é como guiar um automóvel olhando pelo retrovisor..

Há dias, um amigo de longa data enviou-me um texto de Guerra Junqueiro –  ‘Pátria” , escrito em 1896 e publicado, salvo erro, em A Leitura: Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo […] sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai. […]Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas[…] Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador…[…]A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.

Poderia aplicar-se ao que está actualmente a acontecer? Sem dúvida. Será que a história de 1896  e proximidades se repete nos nossos dias?

(Conclusão amanhã)

2 Comments

  1. Parece lógico que a repetição dos acontecimentos históricos seja uma realidade. Desde os tempos mais remotos que a organização social tem vivido, por sistema, da dominação de classe. A estrutura social mantem-se pese embora tenha aspectos folclóricos muito diferentes Quando qualquer classe social alcança o poder e passa a substituir outra, mais dia menos dia, acaba por comportar-se de modos demasiado idênticos. O que as faz diferir é que podem utilizar “eletrodomésticos” diferentes..
    Os exemplos das repetições não são poucos e, de facto, a água pode muito bem voltar a passar pelo mesmo sitio já que aquela que há hoje é a mesma que havia antanho. CLV.

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