Ontem, em França, ocorreu a segunda volta das eleições municipais. Como se previa, o partido de François Hollande teve maus resultados. A UMP- União por um Movimento Popular foi a organização política concorrente mais votada. Mas o facto mais badalado pela comunicação social foi a ascensão de Marine Le Pen, e da Frente Nacional. Pela primeira vez, este partido da extrema-direita francesa conquistou câmaras municipais, num total de 11, que, somadas às três conquistadas pela Liga do Sul, fazem um total de 14. Nem a vitória de Anne Hidalgo em Paris, a primeira mulher a ser eleita para o lugar de presidente da câmara (maire) da cidade, chega para amenizar esta derrota.
É preciso tentar ver as coisas de perto. Os resultados da extrema-direita estão empolados pela taxa de abstenção, que não andou longe dos 40%, uma percentagem muito elevada em relação ao que é habitual em França. Há referências de que câmaras cujas presidências estavam na mão de socialistas, com gestões muito satisfatórias, mudaram de mãos, obviamente devido ao voto de protesto contra a política nacional de Hollande. Por outro lado, há comentadores que referem que França tem 980 cidades com mais de 10 000 habitantes, e as 14 conquistadas pelas duas forças de extrema-direita não pesam muito no conjunto, sendo talvez mais significativos os 1200 lugares que obtiveram nas assembleias municipais. Há mesmo comentadores que não dão grande importância a este aspecto, chegando mesmo a opinar que a UMP, nuns casos, e os socialistas, noutros, tentariam reeditar o cenário da reeleição de Chirac, em 2002, como presidente da república, ao diabolizar a Frente Nacional e os seus parceiros, conseguiu pôr toda a esquerda a votar nele, e obter uma maioria de 85%. Vejam o que diz Daoud Boughezala, em Municipales: la vague bleue n’a pas droitisé la France, em Le Causeur:
http://www.causeur.fr/municipales-fn-ps-ayrault-2,26869
O grande problema obviamente foi a política de Hollande, que torpedeou o trabalho, melhor ou pior, que se possa ter feito nos municípios franceses. O mesmo tem ocorrido noutros países, incluindo Portugal. Quando os partidos socialistas chegam ao poder, e governam aplicando políticas neoliberais, desiludem o eleitorado, e predispõem a opinião pública contra o socialismo em geral. Explicar ao público que Hollande e outros primeiros ministros, eleitos por partidos socialistas, puseram em prática políticas provenientes de outros quadrantes, é uma tarefa de alta complexidade, mas que tem de ser feita. E as posições assumidas têm de ser condenadas. Hoje em dia, no campo das ideias, vive-se numa dicotomia direita neoliberal versus esquerda socialista. Como podem os cidadãos compreender que quem se diz de um lado, chegue ao poder e aplique as ideias do outro? É desta situação e de outras similares que advém o descrédito da política e da classe política.


* Oxalá o novo 1ºMinistro se deixe de esquemas entre a tal direita e o socialismo na gaveta .*
*Maria *