Portugal entrou para a CEE em 1986, já lá vão 28 anos. As repercussões desta adesão no nosso país não parecem ter sido boas. É verdade que vieram muitos dinheiros para o nosso país, contudo o efeito que tiveram não parece ter sido muito grande. Quanto foi ao todo e como terá sido aplicado? Também houve verbas que seguiram em sentido contrário. Mas qual o valor das contribuições de Portugal para a CEE, primeiro, e para a UE, depois? E qual o seu destino?
Estas questões, e outras semelhantes, relacionadas com a integração europeia (parece que ainda a chamam assim), deveriam ser pormenorizadamente tratadas e periodicamente discutidas em público. Portugal continua integrado na UE, e parece que a tendência é para continuar assim. No próximo mês há eleições para o Parlamento Europeu. A abordagem destas matérias é escassíssima, e quando é feita, é de uma superficialidade confrangedora. Ponhamos a questão de um modo sucinto: como vão os portugueses poder votar conscientemente se o esclarecimento é tão pouco?
Há inclusive questões, que vão ter influência muito grande na vida de todos os países que estão na EU, mas sobre as quais o esclarecimento é quase nulo. Veja-se uma: a escolha do sucessor de Durão Barroso à frente da União Europeia. A maioria dos nossos compatriotas não tem tempo, nem mesmo possibilidades de acompanhar os debates que aparecem na televisão, quase sempre desenvolvidos num tom de despique, a dar para o acintoso, tendo como resultado que o mais malandreco é que dá nas vistas, e por isso vai ter direito a mais uns votozinhos, embora ainda diga mais asneiras que os outros. Entretanto, vão atirando palpites sobre o resultado final, palpites esses, afinal, muito parecidos. O vencedor (segundo os palpites) irá ser o líder do SPD, partido social-democrata alemão, Martin Schulz, escolhido claro, pelo Conselho Europeu, que é formado pelos governantes dos países membros. Seguem-se as especulações: o SPD faz parte da Internacional Socialista, o que será bom para o PS, português. Mas formou governo na Alemanha com Angela Merkel e a sua CDU, o que será bom para quem? Será mau para muita gente, provavelmente.
Este tipo de discussões, que pouco diferem em conteúdo das levadas a cabo nas revistas cor-de-rosa, sobre o casamento da sobrinha da rainha Beltrana, com o filho do duque Fulano, propiciam sobretudo o afastamento dos eleitores das urnas e da política em geral, mais do que outra coisa qualquer. Ou então os eleitores vão lá a fazer apostas de que são capazes de votar no que ganha, e não no que fará as melhores escolhas políticas, o que obviamente não leva a nada, e agrava a situação. Tratá-las como o local onde poderá ser feito um voto de protesto contra as políticas de actual governo, poderá sem dúvida ter um significado: o povo protesta contra a política nacional, o que será importante, claro, mas deixa passar ao lado uma questão fulcral: os governos e as nossas classes dominantes têm andado a usar os mecanismos e as influências das estruturas europeias para se manterem no poder, com o beneplácito destas últimas.
As eleições europeias deveriam ser aproveitadas para um debate mais útil e esclarecedor dos portugueses. Até para poder deixar ficar claro que teremos cada vez mais de procurar outras vias, sem ser numa Europa subjugada pelos Estados Unidos e pelo grande capital.