EDITORIAL – ATÉ QUANDO SE AGUENTA A EXISTÊNCIA DE DOIS PAÍSES?

Nos últimos dias vários programas de televisão, suplementos de jornais, logo editorialconferências, exposições, novos livros, se empenharam em fazer as suas análises sobre o que se passou neste últimos 40 anos, aqueles em que vivemos sem censura, sem medo de falar e de ir preso. Aqueles em que pudemos ter liberdade de associação, criar partidos, votar para as várias instâncias, ou ficar em casa e abster-se de tomar posição e deixar aos outros essa escolha.

Nos últimos dias, houve comemorações. Umas em recintos fechados, outras na rua. Nas ruas ouviu-se “a esquerda unida jamais será vencida”. Que se entendia com isto? Que já não se suporta esta sociedade cada vez mais desigual? Que não se suporta mais desemprego? Que não se suporta a forma altiva como somos olhados de cima, com o franco desprezo pelas vidas humanas, que vão a pouco e pouco deixando de ter a dignidade que merecem e a que têm direito? Que não se acredita que não haja outras soluções para responder à crise? Que não se percebe porque se prendem pessoas por pequenos furtos e se deixam livres os grandes corruptos? Que não se percebe porque se exige contenção e se cortam ordenados, enquanto as despesas gastas em ministérios, Assembleia e Presidência da República aumentam?

É, temos mesmo dois países.

Um, bem pequeno em número de elementos, mas com contas bancárias bem recheadas (no país e no estrangeiro); que tem empregos garantidos porque começou na política fazendo, desde cedo, parte de um grupo de “J”’s de dois partidos; em que seus elementos passam de cargos públicos para outros de empresa que trabalham para o Estado.

E outro que não se conforma com o facto de os cidadãos não terem sabido aproveitar a  oportunidade surgida há 40 anos para terem construído uma sociedade mais justa e igualitária; que não se conforma que o retrocesso nos direitos “adquiridos”, com a destruição do serviço nacional de saúde, com uma educação com menores condições…

Este outro país está, de novo, a sentir que “Viemos com o peso do passado e da semente / Esperar tantos anos torna tudo mais urgente / e a sede de uma espera só se estanca na torrente”(Sérgio Godinho). Essa torrente está começando a confluir e há-de chegar a algum lado.

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