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Calais ao longe e o cheiro a mar faziam adivinhar o Canal. Não tardariam a aparecer os rochedos brancos de Dover. Atravessar a Mancha de barco ou Eurotunnel…de shuttle era mais excitante. Sentir, dentro da cápsula, o fundo do mar e o peso das suas águas agitava as ondas da imaginação. Em pouco mais de meia hora atravessavam Kent, o pomar de Inglaterra, chegando a tempo de ver o eclipse do sol em Cambridge nas margens aveludadas do rio Cam.
Sempre os atraíra o Norte. Mais o Norte que o Sul. As neblinas, a penumbra, as montanhas traziam no ventre o mistério do encanto. Rolava já o carro pelas solitárias Highlands da Escócia, movido pelo deslumbramento dos seus três ocupantes, à deriva, sempre à deriva, descobrindo por si próprios as maravilhas adivinhadas meses antes, nos seus devaneios de libertação e aventura. Passavam ao lado rebanhos plantados na quietude das montanhas em atitude graciosa de animais civilizados. Ao longe, espreitavam os topos dos mais belos castelos do mundo, castelos assombrados, inspiradores de lendas da Dama Verde, do fantasma de Mary Stuart, do Gaiteiro, influxo da beleza da prosa ou da poesia, com os seus jardins de cor e perfume em desalinho harmonioso e os elaborados labirintos de buxo, fonte de recreio e paciência. Uma paisagem misteriosa, simultaneamente agreste e acolhedora. Terras de Walter Scott ou Robert Burns. E a Norte, já muito a Norte, desenhava-se o Loch Ness de águas muito negras e quietas, reflectindo na baça superfície a negritude das suas margens. Comprido, não muito largo, acompanhava o carro no seu rodar ao cair da tarde, chamando a noite. A essa hora dormiria o misterioso monstro, ou o criptídeo aquático rastejava pelas margens feito dinossauro ou serpente ou apenas a fantasia o fazia borbulhar à tona da água tão quieta e enigmática, contida em margens tão austeras.
Deliciaram-se os olhos no encanto daquelas terras altas, terras de malte e lã genuína, dos kilts célticos de tartan, da música cristalina das gaitas de foles, do humor afável daquelas gentes.
Rodou o carro, carregando o deslumbramento dos seus ocupantes, descendo a ilha, na contemplação das suas cottages, das suas pequenas e belas cidades, a Chester medieval feita de madeira e história, a bela York e vieram repousar nas margens do lago Windermere. I wondered lonely as a cloud …saw a crowd, a host of golden daffodils…fluttering and dancing in the breeze. Com tintas perenes, soube tão bem Wordsworth pintar esta hoste de junquilhos amarelos a agitar-se, baloiçando e dançando na brisa da beira do lago. A beleza cresce e nunca se reduz a nada. A thing of beauty is a joy for ever – Keats.
Ziguezagueando de condado em condado, Strattford respirava Shakespeare e alfazema, a vetusta Oxford espelhava sabedoria na excelência dos seus colleges, Bath o bafo das suas águas termais e o requinte dos seus chás ao som de um violino.
Lentamente, carregando a beleza e a saudade, esbarraram novamente com o mar. Portsmouth e o fim da ilha. Terra de Dickens, o criador dos mais belos contos e romances vitorianos.
O grande e moderno hovercraft, com asas de condor, cortando as águas de canal e mar, rumo à França apetecida.
Fez-se noite. Aconchegados a bordo com uma shepherd´s soup, recordam o que ficou para trás. Àquela hora, talvez o Nesssie andasse por lá, acordando a história ou afugentando a lenda na quietude misteriosa do lago. To be or not to be that is the question.
