MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA, DE DARIO FO E FRANCA RAME – por Manuel Simões

MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA,

DE DARIO FO E FRANCA RAME

por Manuel Simões

 

É numa Itália dilacerada pelos chamados “anos de chumbo” (1960-1980) que os dois grandes comediógrafos escrevem e encenam esta farsa que nasceu, como refere o “prólogo”, da necessidade de não cancelar a memória dos distraídos sobre o que ficou conhecido como o «massacre do Banco da Agricultura de Milão e sobre o assassinato de Pinelli» (Dezembro de 1969). O espectáculo foi apresentado pela primeira vez em Dezembro de 1970, quer dizer, quase em cima dos acontecimentos, o que decerto engrandeceu a tensão emotiva derivada do tema e do tratamento dramatúrgico.

Franca Rame e Dario Fo

Os autores, recorrendo à ironia satírica que anula o eventual efeito panfletário, produzem um discurso que tende a anular a versão oficial do suicídio (salto pela janela da esquadra de polícia) e a restituir a mecânica dos factos, com a ressalva de que «os diálogos foram reconstruídos a partir de documentos autênticos, sem que tenha sido necessário inventar qualquer situação» (nota dos autores). O aspecto distintivo consiste na distribuição singular deste material, adaptando-o, por personagens que representam a estrutura oficial (agentes e comissários da polícia), aos quais se contrapõe a funcionalidade da jornalista, fundamental para o desvelar progressivo da verdade, e da simbólica intervenção do Louco (personagem à medida para Dario Fo), que assume, entre outras, as funções de juiz inspector do processo que terminara arquivado e que, na sua simulação, prepara a armadilha final: «Tenho até um gravador com que gravei todas as vossas palavras desde que cheguei (Acto II, p. 134).

O texto nasce, portanto, para servir de guião de um evento teatral, sem a preocupação primária de o difundir como texto literário a usufruir por um público mais vasto. Também em Portugal a farsa foi divulgada primeiro como exercício teatral da companhia A Barraca, com dramaturgia de Augusto Boal, encenação de Hélder Costa e música de Vitorino (Lisboa, 1980), e só agora disponível para os muitos admiradores do teatro de Dario Fo e de Franca Rame, graças à reconhecida e inteligente programação da editora Antígona, modelo ímpar no panorama editorial português.

Na edição portuguesa há a salientar ainda o excelente prefácio (Um teatro de desobediência civil) de Júlio Henriques. Creio que seria difícil descrever de forma mais impressiva a didáctica entre realização teatral e texto literário, ao mesmo tempo que recorda como este teatro de vanguarda tem raízes no “teatro crítico-paródico medieval” e como adquire toda a intensidade através da dignidade da palavra, do corpo do actor como emissor mímico e sonoro, e da relação directa com o público, que para os Autores tem toda a importância como força qualitativa de grande vigor, quer dizer, quando ao texto proposto se associa a «interpretação vocálica e física».

Uma palavra sobre a tradução de Miguel Serras Pereira, rigorosa na transposição dos diálogos incisivos, sem renunciar a uma escrita sóbria e convincente, como requeria a idiossincrasia dos vários personagens. Miguel Serras Pereira só confirma a sua qualidade de excelente tradutor.

 

 

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