EDITORIAL – «Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi».

logo editorialNum dos artigos da nossa edição comemorativa do 40º aniversário do 25 de Abril, usava-se a expressão «o dia em que tudo mudou em Portugal». O argonauta catalão Josep A. Vidal, questionou em oportuno comentário a pertinência da afirmação – se tudo mudou, por que razão os que fizeram a mudança estão impedidos de falar no Parlamento? O povo, que supostamente tomou o poder, que poder tem hoje?

Mais uma vez, citamos de Tomasi di Lampedusa o diálogo de O Leopardo,  entre Tancredi, príncipe de Falconeri, arruinado e oportunista, e seu tio, Don Fabrizio Corbera, príncipe de Salina, que romanticamente persiste na sua lealdade aos Bourbons, renitente em passar para o campo da casa de Sabóia «A não ser que nos salvemos, dando-nos as mãos agora, eles submeter-nos-ão à República. Para que as coisas continuem iguais, é preciso que tudo mude».

O Portugal de Salazar que Caetano herdou, era insustentável. Caetano apercebeu-se dessa insustentabilidade e quis fazer as mudanças que permitiriam que o essencial fosse conservado nas mãos em que estavam. Tomás persistiu na lealdade à memória do ditador.

A genuína revolta popular de que as Forças Armadas foram vanguarda, contestada por minorias, de forma violenta e primária, foi progressivamente sendo empalmada pelos sobreviventes e pelos herdeiros do antigo regime – quer alguns dos herdeiros biológicos, mas sobretudo pelos herdeiros ideológicos da União Nacional. E aí os temos ocupando as cadeiras do poder e tecendo loas a uma democracia que representa uma energia limpa, despoluída, atingindo sem repressão visível os objectivos que os «camisas verdes» só conseguiam à custa dos tais «safanões dados a tempo» – guerra colonial, tortura, polícia política, miséria…

Até agora, são eles que têm mais motivo para celebrar. Porque na mesma data moram duas efemérides. A nossa, a de um momento mágico em que a Liberdade nos atingiu com o fulgor de uma luz cegante, e a deles em que as suas verdades excrementícias encheram o molde que o MFA nos entregou limpo e radioso. O nosso amigo, coronel Matos Gomes, um «capitão de Abril» colocou na sua página do facebook a seguinte reflexão: “Ir à Assembleia comemorar o quê, 40 anos depois? Ter um fóssil como presidente da República; Uma tonta como presidente da Assembleia da República; Um barítono amador como presidente do governo da República; Um lusito da Mocidade Portuguesa como presidente da Comissão Europeia; Uma senhora do Movimento Nacional Feminino como presidente da caridade e das sopas dos pobres; Um soba movido a cachaça como presidente do governo da Madeira; Um homem invisível como presidente do BPN, a maior cloaca financeira da Europa; Um relojoeiro adamado como presidente da comissão de restauração da independência contra a troika; Um cervejeiro como presidente da televisão pública; Um funcionário do BES como presidente da comissão dos negócios do Estado; Um compère de revista de cabaret manhoso como presidente da Cultura?”

Voltamos à pergunta implícita no comentário de Vidal – Quem tem motivos para comemorar?

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