Os Estados Unidos, na sua estratégia planetária, que alguns chamam eufemisticamente política internacional, continuam a insistir no cerco às potências continentais, a China e a Rússia. Por isso investem naquilo que procuram fazer passar por apoio à Ucrânia, do lado de cá, e na Coreia e nas disputas entre a China e o Japão, do outro. Contudo, neste momento, parecem estar a dar alguma prioridade ao ocidente, portanto ao lado de cá. A questão do Médio Oriente tem merecido um lugar especial, é verdade, no meio de todos estes jogos, mas há indícios de que, para desgraça dos povos que ali habitam, está atolada cada vez mais em disputas insolúveis.
A questão fundamental no Ocidente, para falar em poucas palavras, é o futuro da Europa. A oligarquia que nos governa continua com a preocupação especial de baixar o nível de vida dos povos que vivem neste cabo da Ásia, insistindo em dizer a umas horas que são especiais, que a cultura europeia dá aos seus portadores um lugar especial no mundo e na história, e a outras a arregimentá-los em concepções como a do crescimento económico ilimitado, das virtudes da desigualdade e da competitividade, da mercantilização da vida em geral e da defesa do capital. Por cima disso emergem no dia a dia das pessoas campanhas de contornos pouco definidos sobre os valores nacionais, de superioridade de uns sobre os outros, que variam conforme as necessidades do momento, sejam elas comerciais, de propaganda eleitoral ou simplesmente destinadas a fazer face a questões variáveis, como sejam os desajustamentos derivados do fracasso das políticas de austeridade.
A questão da Ucrânia faz vir à luz do dia as enormes contradições derivadas das tensões subjacentes a todo processo. Um dos casos mais flagrantes é o do problema dos nacionalismos. Como gerir a integração europeia, conjugadamente com as tendências autonómicas na Escócia, no País Basco ou na Catalunha (entre outras situações igualmente importantes)? Já se tem equacionado esta contradição, mas não parece que alguém na Europa tenha ideias claras sobre o assunto. Como deter o avanço da extrema-direita, que vai reclamando a defesa da raça e do nível de vida, misturando tudo no mesmo saco, com a rejeição do que é diferente e o ódio ao estrangeiro? Não se pode querer obrigar os russos a ceder na Ucrânia e manter a Irlanda do Norte separada da República da Irlanda, só para dar um exemplo. Ao agitar um saco, é preciso pensar no que vai sair dele.