CONTOS & CRÓNICAS – “O meu presépio de terracota” – por Eva Cruz

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Mais um Natal, mais uma vez a memória a abrir as caixas que cautelosamente guardaram com afago os enfeites aconchegados em papel de seda ou saquinhos de pano branco. Dentro de uma caixa mais pequenina, forrada a papel vermelho e brilhante, estava o meu presépio de terracota.

Em cima do escadote consegui segurar as caixas sem grande custo mas as mãos já não são as mesmas e deixei cair a de cima, estatelando-se no chão. Senti que alguma coisa se partiu e vi rolar aos meus pés as figurinhas da minha infância.

Lá se foi o meu presépio! Parti um pé ao Menino Jesus, uma asa ao Anjo anunciador da Boa Nova, a mão à Nossa Senhora e vi rolar a cabeça de S. José. Partiu mesmo a traquete. Nem o burro escapou. Só alguns cordeiros e a vaquinha saíram ilesos deste acidente.

Tenho outros presépios, dos mais diversos países, uns modernos e estilizados, outros toscos, mas como aquele, mais nenhum. Foi ele que fez, por tantos anos, voar pelos céus estrelados de Inverno a magia e o sonho ao canto da lareira, pousado sobre as pedras cobertas com musgo arrancadas aos caminhos ou ao velho muro húmido da fonte. Foram essas figurinhas de terra, compradas num dia de feira pela minha mãe a um oleiro que também fazia bonecos de cascatas de S.João, que todos os anos enfeitaram o Natal da minha infância. Não faltavam as ovelhinhas a pastar, a cabana de madeira, a manjedoura, a cabeça religiosamente reclinada da Sagrada Família a olhar o Menino nas palhinhas deitado, pastores, anjos e Reis Magos. Às vezes, por artes do meu pai, que nem religioso era, havia um regato com água a correr.

Era ao lado desse presépio que os sapatitos, os socos ou as chanquinhas esperavam pelos bonecos de chocolate coloridos a aquecer as manhãs geladas dos meus Natais.

Mais apetecidas que o chocolate eram ainda as pratas que os envolviam e que haviam, depois de muito alisadas, preencher as folhas dos livros de escola e servir de troca por santinhos ou outras insignificâncias que só tinham valor para a mente de uma criança.

Fiquei perplexa a olhar para os bonecos partidos e impressionada com o meu desgosto. Que fraqueza a minha! Não passam de figuras de barro. O que há mais é barro. O ouro vale porque é raro. E para mim aquelas figurinhas eram de ouro.

Fui comprar cola e uma por uma as fui colando. Não me pareceram mal. Só a cabeça do S. José ficou inclinada de mais e ainda por cima para o lado indevido.

Todas juntas vão uma vez mais enfeitar o musgo ao canto da lareira e entoar o hino do Natal da minha infância com a fragilidade da terracota.

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