Dois acontecimentos têm originado artigos e corrido nas redes so
ciais. Em Espanha, num jogo de futebol, apoiantes do clube contrário atiraram para o campo uma banana dirigida ao jogador brasileiro Daniel Alves que, calmamente a descascou e comeu. Posteriormente, um outro jogador, Neymar, lançou uma campanha de apoio a seu colega, contra o racismo, fazendo-se fotografar com seu filho, a comerem bananas. Negros iguais a macacos, pretendem dizer. Logo, “não-homens” como eles.
Daniel Alves, mais tarde, veio afirmar que sim, tem sido vítima de racismo, mas que “Tem que ser assim! Não vamos mudar. Há 11 anos convivo com a mesma coisa na Espanha. Temos que rir desses retardados.” Mas quem ri são os negros endinheirados, os que atiram a sua riqueza à cara de quem os ofende e é mais pobre. Os outros podem ser espancados, presos torturados…Ser rico faz com que sofram menos com os insultos?
Cá pelas nossas bandas, tem-se falado do aniversário do nosso atleta, campeão olímpico, Nelson Évora, em que um grupo de 16 pessoas, com mesas pré-reservadas, foi impedido de entrar numa discoteca. Dizem os ofendidos que lhes foi dito que havia “demasiados pretos no grupo!”
Ao movimento que surgiu – “Somos todos macacos”- devemos dizer que a comparação de uma pessoa negra a um macaco deve ser visto como algo culturalmente ofensivo. A banana reafirma o racismo. Não, não somos todos macacos.
Lembremos Saartjie Baartman, uma africana da Cidade do Cabo, que em 1810 foi levada para Londres, para ser exibida como objecto exótico em feiras, onde, numa jaula, era mostrada como uma selvagem. Lembrando hoje a infâmia de que foi alvo, ela pode representar o que acontece a muitos quando se confrontam com um ser diferente de si mesmos, seja pela cor, religião, preferência sexual ou ideias. Em 2002 fez-se justiça e o corpo de Saartjie Baartman, que tinha sido dissecado e moldado em gesso, sendo exposto no Museu do Homem em Paris até 1974, voltou à sua terra natal.
Hoje, em Lisboa, grupos de pessoas negras que se encontram, mesmo em locais que implica terem capacidade económica, ouvem a palavra “arrastão”, numa alusão a um acontecimento na praia de Carcavelos. A igualdade só está escrita no papel.

Grande lição de dignidade humana deu o Daniel Alves áqueles trogloditas cujo comportamento apenas pode ser comparado ao dos bovídeos numa manada em disparada, comparação aliás corroborada pelo caso Nelson Évora, impedido de entrar numa discoteca lisboeta pelo gorila de serviço que alegou haver demasiados “negros” lá dentro, razão para barrar a entrada ao atleta e aos seus acompanhantes.
Ao gorila da discoteca pergunto: Quantos são “demasiados negros”? Quem estabelece os critérios e com que rigor? – Geográfico, demográfico, antropológico, sociológico, ou é mesmo puro preconceito e estupidez primeva?