O meu nome é Maria, como a avó Maria, a outra chama-se Ivone, tenho sete anos e consigo ler tudo, até o diário da mãe, que é o mais difícil por ela não saber fazer as letras, a mãe trabalha todos os dias, depois fica com dores, dívidas, desgostos e não é fácil eu tomar conta dela, gosto muito de saltar à corda mas os vizinhos de baixo não deixam, também queria uma bicicleta, por isso escrevi uma carta ao Pai Natal, outra ao Menino Jesus, não são eles quem oferece as prendas, portanto recebi oito livros, já os li, menos um e a mãe zangou-se com o Pai Natal, é um egoísta, não precisas dele para nada… E eu roí as unhas todas. O Rodrigo vive com o Artur e o David, os teus irmãos, repete ele mas, quando conversa comigo, põe-se logo um – se não os dois – a chiar, a Sara enruga a testa, pega no Artur (ou no David), só tenho dois braços, então o Rodrigo faz um sorriso:
– Vê se tens programa na televisão.
Há sempre programas mas a mãe diz que não se aprende nada, o conhecimento é a nossa bicicleta, ajuda a ir mais longe, explica a professora, o avô Nuno avisa que me podem tirar o que tenho mas não o que sei, o que vivo, por isso venho cá para fora com o Sapador, que prefere cavar buracos mas não se importa de saltar à corda e se diverte com os pássaros enquanto descubro palavras no oitavo livro do Pai Natal, mariola, que é um monte de pedras e serve para indicar o caminho, sevandija, que também é mariola mas agora um homem mau, trocamos festas, olhares, confidências, corremos e dançamos sem acordarmos as duas lombrigas que a Sara conseguiu adormecer, acordá-las era um crime de sevandijas, podemos alargar horizontes, como o Rodrigo diz, no resto do tempo o Sapador fica dentro de casa, o quintal tem o ladrilho com a mesa e o limoeiro mais um retângulo de terra onde ele não pode entrar, o Rodrigo e a Sara plantaram lá quatro pés de tomate, dez alfaces, salsa, hortelã, cebolinho e, num monte de composto, mesmo ao lado do compostador, semearam um pé de chila que vai crescer por cima do muro com abóboras penduradas mas, por enquanto, só tem cinco folhas. É o primeiro ano que estão aqui, antes o Rodrigo vivia na nossa casa, a seguir mudou para outra muito escura, agora comprou esta cave e começou a dizer: a nossa quinta. Doidos varridos, grita a mãe, mas eu também acho que é uma quinta em ponto pequeno, não tem patos, porcos, burros, ovelhas, tratores como nos livros, só melros, minhocas, joaninhas, borboletas e uma lagartixa, mas dá para saltar à corda, é pena não haver terra para o Sapador, quando passeio com ele no parque, disfarçadamente, deixo-o fazer dois buracos, o Rodrigo e a Sara adotaram o Sapador há treze meses, se cada ano canino equivale a sete humanos, temos mais ou menos a mesma idade, mas entretanto eles arranjaram os dois montes de trabalhos, começaram a fazer críticas, esse bicho é monomaníaco, talvez esperassem que o Sapador escrevesse poemas, diz a minha mãe, o que me dá vontade de rir… Cada sexta-feira o Rodrigo teima:
– Quero que a Maria cresça com os irmãos.
Mas eu não gosto do Artur nem do David, que são dois estômagos quezilentos (outra palavra do Pai Natal): com eles não se aprende nada. Prefiro crescer com o Sapador.