CONTOS & CRÓNICAS -Uma memória de Eduardo Guerra Carneiro – por Carlos Loures

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Imagem2Ao longo deste mês de Maio, às terças-feiras, calha-me a tarefa de escrever uma crónica.  Crónica “literária”, se possível. Falarei de poetas, de escritores amigos, que já não estão connosco – mas não será um “clube dos poetas mortos”- os poetas, os escritores, estão vivos enquanto alguém lê as suas obras, lhes recorda os versos ou as prosas.  Até acontece o poeta só viver depois da morte de um correspondente comercial  cujo corpo o escritor habitava. Bernardo Soares que o diga… Começo por um amigo de longa data – o poeta que confirmou que «isto anda tudo ligado».

Na foto, eu e Eduardo Guerra Carneiro, no Verão de 1962, em Vila Real. O «fotógrafo» foi o Ascenso Gomes.

Já contei como num dia frio, mas luminoso do princípio de Janeiro, fez dez anos, bebia um café na esplanada do Paulo China, em Vila Moura, quando recebi um súbito coice no coração – li no Expresso a notícia da morte do Eduardo Guerra Carneiro – suicidara-se.

Meses antes, pedira-me para lhe arranjar umas traduções. Consegui reservar-lhe um trabalho (tradução de biografias para uma enciclopédia) e o tempo foi passando sem que mo entregasse. Em Outubro ou Novembro almoçámos juntos num restaurante do parque Eduardo VII, perto do meu escritório. Disse-me que já pegara por diversas vezes no trabalho, mas que não conseguia avançar, Desdramatizei, demos o negócio sem efeito e fiquei de tentar encontrar um trabalho mais motivador. Depois disso, falámos algumas vezes pelo telefone. Pareceu-me triste, mas não ao ponto de se suicidar, O José Quitério falou com ele em dia mais próximo da tragédia e o Eduardo ter-lhe-á dito que a paciência para aturar «isto» se acabara.

Recentemente, foi-me pedido um texto de homenagem ao excelente poeta que foi António Cabral e procurei no meu caótico arquivo uma carta que ele me escreveu e que seria interessante reproduzir – não encontrei a carta, mas encontrei coisas que não procurava e, entre elas, um poema que Eduardo Guerra Carneiro me dedicou quando da minha primeira prisão, em Janeiro de 1965. Acontece que ele também estava ligado ao projecto que foi a causa aparente da minha prisão – o Círculo de Cultura Ibero-Americano. Digo «causa aparente», porque o verdadeiro ou, pelo menos, o principal motivo da prisão foi a minha ligação a um movimento que, dissidente do PCP, propugnava a luta armada contra a ditadura. Era uma organização de inspiração maoista. Aderi pela prática que era prometida. A teoria, muito inspirada pelo famoso «livrinho vermelho», não me dizia nada. Conselhos excelentes para camponeses da China que, só por uma postura religiosa, podiam ser ouvidos na Europa do século XX.  Mas voltemos ao poema do Guerra Carneiro.

Está datado de Fevereiro de 1965, É a chamada “poesia de circunstância” que não nos dá uma medida doImagem2 bom poeta que o Eduardo foi. E mostro de novo a foto de Novembro de 1962, em Coimbra, da esquerda para a direita vemos o Egito Gonçalves, eu, o Eduardo e o António Cabral, ainda sacerdote católico. Fomos ali reunir-nos por questões políticas e culturais – a expansão do Centro de Cultura Ibero Americana, que pretendíamos alargar editando um boletim periódico multilingue (nos idiomas da Península a que juntaríamos resumos em francês e inglês). O Fèlix Cucurull esteve também connosco, mas tinha um compromisso em Lisboa que o obrigou a partir mais cedo.   Na reunião que fizemos, o Eduardo ao ouvir ler o rascunho para o manifesto sugeriu que fôssemos mais explícitos na exposição dos objectivos. E exemplificou com uma tirada revolucionária. Ironicamente, o Egito, mais velho e experiente, diria – «Para eles não terem muito trabalho, escrevam à cabeça do documento – Somos marxistas! Somos marxistas!». Foi uma grande gargalhada. Mesmo sem sermos tão explícitos, anos depois, em Janeiro de 1965, o Círculo seria dissolvido e eu seria preso.

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Cercados estávamos naquele ano de 1965, cercados estamos 50 anos depois. Ao Eduardo, ao «amarelinho», como lhe chamava o Ascenso Gomes, faltou-lhe a paciência para aturar «isto» – rompeu o cerco, saltando de uma janela.

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