As crónicas de António Sales são excertos do seu livro Os Guardadores do Tempo
Os primeiros avisos do outonochegaram com os carros de bois e de muares, carregados de selhas cheias de uvas, atravessando a vila em direcção às adegas onde os homens as pisavam embalados pelos cânticos que marcavam a cadência dos pés. À medida que o Setembro envelhecia a atmosfera saturava-se do aroma viscoso do mosto misturado com conversas de colheitas e pipas, suporte económico de uma vila onde tudo provinha, no final do século XIX, directa ou indirectamente, da terra e das cepas. Despedia-se do Verão um sol que começava a baixar matizando o horizonte da melancólica luz que arrastava memórias dos meses passados na Praia de Santa Cruz.
A burguesia regressara à terra. Casavam-se dias de rotina e noites de solidão fazendo renda, malha ou ponto de cruz, à luz de candeeiros a petróleo. À espera do inverno conversas triviais dominavam os serões em família. Os homens, jogando e fumando charutos, reuniam-se no Casino ou no Hotel Natividade, locais onde “a melhor sociedade” encontrava divertimento entre bailes e récitas de amadores. A vida tinha vagares, gentilezas, pequenos afagos, dores de trabalho e pobreza, ofícios de riqueza e de poder. Augusto B acumulava fortuna com propriedades e um armazém de víveres que abastecia quase todas as tendas da vila; Onofre Bastos confeccionava fraques e casacas por medida conferindo à sua arte de alfaiate reconhecimento social; Procópio Freitas constituía-se como autoridade ao assentar registos de tabelião; Emílio Costa, pequeno e frágil, malhava insistentemente na ideia de uma corporação de bombeiros enquanto cortava cabelos e aparava barbas aos clientes; Francisco Carapau alugava trens e char-à-bancs com boas parelhas para o transporte de gente endinheirada; D.Diogo de Nápoles,[1] cujo prestígio e personalidade impuseram-se logo que chegou a Torres, liderava o processo de transformar a cerca do Convento da Graça, logradouro de mercados no terceiro domingo de cada mês, num recinto ajardinado com coreto que servisse de passeio público. Entusiasta dotado de demolidora perseverança andava de porta em porta a reunir fundos para aquele genuíno empreendimento popular inaugurado em 1892.
Morria-se de tédio! Eu que o diga, aqui e nesta época a única personagem de ficção desta narrativa de gente real perdida na sucessão de dias bocejantes e noites vazias a quem restava os bailes no Casino com meninas a trautear cançonetas e jovens representando monólogos ou comédias em um acto. Era o chic da sociedade, esse chic que vinha do antecessor Club Torreense,[2] única colectividade de então. Pese a circunstância do clube configurar um “pequeno teatrinho” no piso superior, seria por natureza pouco activo pois A Voz de Torres Vedras, a propósito de um baile ali organizado, sublinhava que as salas «de há muito não se abriam para esse fim».
Nesse tempo em que é rasgada a avenida ligando a Graça à estação do caminho-de-ferro o teatro era raro e sobretudo de fora. Em Outubro de 1887 apresenta-se ao “estimadíssimo público” o Theatro Recreios Dramáticos, conhecido pelo “teatro barraca” por se encontrar instalado numa barraca no Largo D. Carlos I,[3] mantendo-se com espectáculos até Fevereiro do ano seguinte e um repertório que ia de A Falsa Adúltera a Frei Luís de Sousa. A companhia sofreu quatro meses atormentados por bilheteiras pouco entusiásticas e um inverno rigoroso que destruiu a barraca e obrigou a encontrar uma zona no edifício da Graça. Por último, a doença do director sensibilizou a iniciativa de “três cavalheiros” para uma récita de benefício que teve a participação de amadores locais que «desempenharam admiravelmente os seus papéis». Antes, a Companhia Dallot ressentira-se das más condições da barraca pelo que se comentava a falta de uma sala como a do “elegante Teatro Sobralense” no vizinho concelho de Sobral de Monte Agraço. O actor Trindade, numa curta temporada, optou pelo “teatrinho” do Casino quando à vila chegou no ano da morte de el-rei D. Luís I cuja notícia na imprensa local primou pela sobriedade e modéstia de espaço jornalístico.
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[1] D. Diogo de Nápoles viveu em Torres Vedras entre os finais do século XIX e os princípios do século XX. Morreu em S. Tomé em data desconhecida.
[2]O Club Torreense foi fundado em 1868. Em 1880 a sua sede era no nº. 4 da Rua Serpa Pinto. Na última década do século XIX já era conhecido por Casino abandonando o anterior nome.
[3]O jardim público foi chamado Largo D. Carlos I, posteriormente Largo da República, Praça do Império e Praça 25 de Abril. Não obstante o povo sempre lhe chamou Largo da Graça e da Graça continua sendo popularmente conhecido.