Mãos de hoje que foram de sempre – poema de Adão Cruz

 

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Na noite que já não é noite de madrugadas perpassa em doce silêncio por entre os dedos dormentes uma brisa dolente esquecendo as mãos na paz adormecida

Por entre os frágeis dedos da quietude e do silêncio vagueia agora em suave melancolia o magro regato da secura da vida arrastando em seu leito rugoso a triste canção de um tempo sem cor nem movimento

O lento gesto do abrir destas mãos de tantos anos vividas cai agora em pesado silêncio por entre as malhas da sombra no impiedoso vazio das mãos cheias de nada

Foi-se embora a madrugada das manhãs perdidas no tempo em que o sol sorria entre os sonhos e as mãos cantavam a força da vida com ondas do mar por entre os dedos frementes

No penoso abrir e fechar de mãos deste plangente gesto do fim do dia feito canção de tão gélido silêncio apenas a saudade se aninha em negro fundo para morrer sozinha

 

 

Ilustração – Fotografias de José Magalhães. Este poema de Adão Cruz foi escrito para estas fotos

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