Choveu bastante naquele ano de 1891 com prejuízo das culturas e danação das gentes que viram o Sizandro ultrapassar as margens e invadir a Corredoura como se assim negasse a sua condição de rio doméstico votado ao esquecimento. O mau tempo prolongou-se mesmo pelo Abril adentro justificando a tradição de ser um mês de águas. Do mesmo modo “O Crime do Penedo” preencheu boa parte do ano em laudas do jornal A Semana com descrições das audiências ao estilo de qualquer emocionante folhetim. A proximidade da Páscoa trazia devotos de todo o concelho à Procissão dos Passos congregando na fé os que arrastavam as penas dos seus pecados e os que por estes eram arrastados. Oportunidade para exibir a dor e a caridade que concediam às mulheres a liberdade do beatero em visitas a igrejas ensombradas pelos crepes do calvário. Na Rua das Olarias, Manuel Carmona aproveitou para realizar a sua última exposição de santos esculpidos em cera que trocaria pelas representações de fantoches para os lados do campo da feira.
Radioso Abril, aquele, nos braços de um pequeno exército de jornaleiros que trazia a população curiosa e excitada com as obras da praça de touros – também designada “circo tauromático” – cuja inauguração teria lugar a 7 de Maio.[1] Afortunado Abril para Januário Miranda que no seu estabelecimento espalhava a sorte grande e «bastantes prémios grandes e imediatos» em benefício de muita gente. Derradeiro Abril o de Francisco Xavier Pinto, comerciante com loja de ourivesaria na Rua da Misericórdia, que no seu trágico dia 18, às nove horas da noite, deu um tiro na cabeça por ter a vida comercial arruinada com acções em tribunal metidas pelos credores. «Um bom homem mas uma má testa. O crédito aos fregueses deitou-o abaixo» – era esta a voz burguesa no dia do funeral. «Digam antes bom e generoso. Não foi a má cabeça que o perdeu mas a generosidade que o traiu» – ripostaram raras vozes de lúcida razão. Funesto Abril o de José de Bastos e Silva (1800-1891) que moldara o prestígio da sua vida como substituto do juiz de direito, vereador, vice-presidente da Câmara e amigo de Torres Vedras, prescindindo dos foros dos prédios que lhe foram expropriados para a construção do Largo de S. Pedro.
A performance feminina pertencia ao elitista Colégio Litterário Torreense que sob a direcção de Rachel Avelino anunciava-se recebendo meninas para leccionar a instrução primária, piano, desenho, a falar, ler e escrever francês e inglês, lavores e bordados próprios do «ensino femenino». A performance das récitas de amadores fazia-se com Prima Francisca ou Um Marido em Calças Pardas, comédias em um acto, paradigmas de um teatro de riso rudimentar que fazia as delícias do reduzido círculo de famílias burguesas num convívio corrente entre o Casino e o Hotel Natividade. Abrangendo a pequena e média burguesias emergentes o novíssimo Grémio Artístico Torreense, coqueluche da vila moderna que frequentava a sua sede na Rua de Santiago ao lado da igreja do mesmo nome, impunha-se com o seu salão de cento e vinte lugares sentados para os “saraus-dramático-musicais” que numa só noite chegaram a contemplar a representação de quatro peças em um acto.
A desibernação dos finais do século XIX está patente não apenas no carácter das notícias publicadas na imprensa mas na publicidade que fornece a imagem da ascensão da classe comercial sobrepondo-se ao poder agrário: lojas com anúncios permanentes, dois estabelecimentos termais, duas empresas de aluguer de trens, uma filarmónica e uma banda, dois grupos cénicos, alfaiates e modistas idos de Lisboa, casas de moda, chapelarias, sapatarias, dois semanários.
Vestiam-se as madamas com saias a arrastar pelo chão, blusas de aba comprida, vestidos de corpinho, casaca, jaqueta curta, paletós justos ou de aba triplicada em cetins, sedas e granadines. Usavam-se grandes chapéus redondos, de feltro, ornados de vidrilhos ou belas capelines enfeitadas com plumas ou flores. As toilettes para as soirées eram elegantíssimas com as capas compridas e conjuntos de corpinho decotado guarnecidos por contas ou lantejoulas. Braços sedutores envolvidos por luvas de mosqueteiro e adornos em ouro de pregadeiras, brincos ou colares. Bolsas ricamente bordadas, brancas sombrinhas com cabos em madrepérola, cabelos à pompadour. Outras, já não madamas mas mulheres, figuravam a tradição do lenço atado por debaixo do queixo, blusas fechadas, saias largas, xailes negros, botas pregueadas e avental, roupas em chita, sarja, pano-cru. Casimiras para os homens, casacos de aba comprida e bandas largas, colete, calças justas, casaca e chapéu alto nas grandes ocasiões, sapatos de polimento, bengala, pêra ou bigode. O boné para os mais modestos, o barrete para os campónios, a jaqueta para os pobres mais o varapau para o que desse e viesse. Gente de pele escura, sebenta, tisnada do sol.
O veículo da moda era a bicicleta mas jamais nessa época dei conta de senhoras ou meninas andarem nas duas rodas pelas ruas mal calçadas. Ao morrer do século XIX encontrava-se inaugurada a grande Avenida Ignácio do Cazal Ribeiro[2] ligando o Largo D. Carlos I à estação. As Termas dos Cucos atraíam um desusado movimento de visitantes que mantinha em funcionamento, durante a época termal, cinco unidades hoteleiras.[3] Respirava-se uma certa atmosfera citadina a que Torres não estava habituada e tinha dificuldade em responder por falta de diversões.
Na estância dos Cucos o Hotel das Termas possuía excelente capacidade e localização privilegiada. Mas o segundo grande hotel, aquele que mais directamente concorria com o Natividade, era o Hotel dos Cucos instalado com os seus cem quartos na Avenida Casal Ribeiro, próximo da estação como referia a publicidade. Pela “módica quantia” de mil ou mil e duzentos réis os hóspedes tinham serviço de transporte diário e gratuito ao estabelecimento termal entre as 5 e as 8 horas da manhã. O almoço, marcado entre as 9 e as 11 horas, compunha-se de três pratos, vinho à descrição, café ou chá. O jantar ocorria a partir das quatro e meia da tarde e oferecia sopa, cinco pratos, vinho à descrição, queijo, frutas, café ou chá. O Hotel Pimenta, situado na Rua Serpa Pinto, anunciava-se como o mais antigo e datava a sua fundação de 1872. Tinha «boa casa de jantar, bons quartos, todos com janelas, jardim, bom estabelecimento de confeitaria e mercearia, gabinete com bebidas nacionais e estrangeiras, gasosas, cervejas e tabacos». Um serviço “esmerado” que o proprietário António da Cruz Pimenta completava com um exclusivo fabrico de “bolachas”. Mais pequeno, provavelmente o mais barato de todos, seria o Hotel Villa D. Felicidade que estaria ao nível de uma unidade de características familiares servindo um tipo de clientela fidelizada ano após ano.
[1] Esta terá sido a primeira praça de touros em alvenaria que doze anos mais tarde (1903) seria leiloada em hasta pública por dívidas fiscais.
[2] Ignácio do Cazal Ribeiro foi deputado às cortes pelo concelho de Torres Vedras até 1893. Faleceu em 27 de Dezembro de 1909. A avenida com o seu nome tomou a designação de 5 do Outubro logo após a implantação da República. Nos anos cinquenta houve uma tentativa de lhe chamar avenida Dr. António de Oliveira Salazar o que dado os protestos da população não foi avante.
[3] Hotel Natividade, Hotel dos Cucos (assim chamado mas instalado na avenida Casal Ribeiro), Hotel das Termas (mesmo nas termas dos Cucos), Hotel Pimenta e Hotel Villa D. Felicidade.