O ALENTEJO NA POESIA PORTUGUESA – por Manuel Simões

raiaEm termos de geografia literária, o Alentejo ocupa um lugar privilegiado na poesia portuguesa. Limitando a análise só à literatura contemporânea, grandes poetas como Miguel Torga, Teixeira de Pascoaes, Armindo Rodrigues ou Manuel Alegre, por exemplo, não sendo alentejanos, dedicaram – lhe composições vibrantes de atmosfera solidária e emotiva.

Eu próprio, que sou ribatejano-beirão, depois da minha primeira viagem por terras transtaganas, senti o apelo da escrita a ponto de dedicar-lhes um capítulo (“Crónica do Sul”) do meu primeiro livro de poemas (1970), tornando-me alentejano de adopção. E voltei a ser reincidente em “Errâncias” (1998), livro onde incluí um poema precisamente intitulado “Alentejo”, dividido em duas partes, podendo ler-se na segunda: «A cultura camponesa,/ mísera ou desconhecida/ que seja a sua genealogia,// em torno reconhece/ as raízes de pedra,/ a sua força de sangue.// Obstinada, resiste/ ao princípio da dureza».

Mas são talvez os poetas nascidos no Alentejo os que transferem para a obra poética os aspectos distintivos, e muitas vezes contrastantes, de uma região emblemática ao nível da resistência e da rebeldia relativamente ao poder instituído, sempre que este lhes pareceu injusto, opondo-lhe, por isso, a voz transgressiva e indomável. Estão neste caso poetas como o Conde de Monsaraz ou Raul de Carvalho, embora me pareçam paradigmáticos os nomes de Florbela Espanca (1894-1930) ou de Manuel da Fonseca (1911-1993), de cujas obras se apresenta aqui um poema de cada um deles:

Minha terra

A J. Emídio Amaro

Ó minha terra na planície rasa,

Branca de sol e cal e de luar,

Minha terra que nunca viu o mar

Onde tenho o meu pão e a minha casa…

Minha terra de tardes sem uma asa,

Sem um bater de folha… a dormitar…

Meu anel de rubis a flamejar,

Minha terra mourisca a arder em brasa!

Minha terra onde meu irmão nasceu…

Aonde a mãe que eu tive e que morreu,

Foi moça e loira, amou e foi amada…

Truz… truz… truz…Eu não tenho onde me acoite,

Sou um pobre de longe, é quase noite…

Terra… quero dormir… dá-me pousada!

(Florbela Espanca, “Charneca em Flor”)

Para um poema a Florbela (I)

Caminhos do Alentejo.

Terra bravia de fomes

com piteiras aceradas

como pontas de navalhas

em esperas de encruzilhadas!

Caminhos do Alentejo.

Desde valados e sebes,

searas, vilas, aldeias

e chuvas e descampados

(sem manta de me abrigar,

ai, sem Maria Campaniça!…)

– caminhos do Alentejo,

desde menino vos piso.

… … … … … … … …

Ó navalhas de malteses,

coro de ganhões perdidos,

emboscadas de ladrões,

ó urzes, cardos, esteveiras,

terra bravia de fomes,

caminhos do Alentejo

– deixai-me passar em frente!

Que na torre alta de Beja

Florbela grita o meu nome

sorrindo para os meus olhos!…

Sorrindo para os meus olhos

com os seios tão redondos

como duas rosas cheias!

(Manuel da Fonseca, “Planície”)

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