POESIA AO AMANHECER – 448 – por Manuel Simões

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ALBERTO DA COSTA E SILVA

( 1931 )

SONETO

 

Voltada sobre o pano, a moça borda

a infância e seus jardins, os dias claros,

as despedidas na ponte dos poentes,

a magia da noite, os seus cavalos.

 

Como evitar a morte, a mão que borda,

ao sereno lençol que, nu, aguarda

a forma de seu sonho, humilde, indaga,

senão amando e se tornando amada?

 

O fio compõe a lenda, sobre o linho,

do capim trescalante e o rio da tarde

que banhava a colina e os dois amantes.

 

Mas, por saber no amor eternizado

o que a morte vencer não pode mais,

a mão desfaz os pontos já bordados.

 

(de “O Tecelão”)

Poeta, ensaísta, estudioso da História de África e diplomata. Foi embaixador do Brasil em Portugal (1989-1992). Considerado autor da geração de 50, a qual, para muitos, recupera acentos populares e o jogo formalista da vanguarda. Da sua obra poética recordamos “O parque e outros poemas” (1953), “O Tecelão” (1962), “Livro de linhagem” (1966) , “As linhas da mão” (1979) e “Ao lado de Vera” (1997).

 

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