EUROPEIAS: PS ADICIONA DIARIAMENTE MAIS GROTESCO AO GROTESCO – LE CAUSEUR

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Falareconomia1

Europeias: PS adiciona diariamente mais  grotesco ao grotesco

Levantai-vos, Danados da Terra

Revista Le Causeur, 15 de Maio de 2014

Danados da Terra

Em Janeiro ou Fevereiro de 2002, Pierre Mauroy, que já só tinha  uma posição de grande sábio no PS, sugeriu a Lionel Jospin que se dirigisse  ao povo em geral e à  classe operária em especial. Recusa altiva do interessado, que tinha  escolhido, como o conjunto dos sociais‑democratas  que constituem o que se chama  hoje impropriamente a Esquerda, passar a  ignorar que ainda existia uma classe operária (e mesmo uma classe média pauperizada  e que àquela já se assemelhava fortemente). “A batalha da segunda volta decide-se ao centro do espectro político…” Sabe-se o que aconteceu a este  homem que tinha  escolhido ganhar a segunda volta — e que se provou ser  incapaz de se qualificar na primeira, pelas graças de Christiane Taubira que lhe retirou  os 2,32% que lhe fizeram falta  para se qualificar  face a  Chirac. François Hollande, escolhendo-a duas vezes para participar no governo, pagou-lhe  o preço da sua traição da época — é o seu problema, não o  meu. As disputas dos mencheviks não me interessam.

Spinoza diz algures que o conceito de cão não morde. Recordo-me de uma intervenção sobre  este tema feita pelo falecido  Althusser, em resposta a um pseudo-socialista que explicava que o conceito de proletariado já não era funcional — isto já nos anos 1970. Pior, é que estes  imbecis acreditam: ao ouvi-los, teríamos apenas classes médias. Primeiramente, deveriam ter lido  Camille Peugny, que não se cansa de explicar  desde o seu livro Le Déclassement  (2009)  (depois de muitos outros assinale-se) que as classes em questão  são sobretudo classes  “menos médias”, como se diz  nos conselhos de ano escolar  onde a palavra “cábula” é proibida.

Não sei se ela é ainda  “trabalhadora”, mas há uma classe, uma classe numerosa, que o PS ignora porque conhece apenas os bobos de Paris, classe esta que vive na ilha de Ré  e do Luberon, uma classe que vive com muitíssimo  pouco dinheiro para lhe conhecer mesmo a cor, uma classe que tem o pão diário relativamente semanal, como dizia Prévert, que sofre todos os dias e que vai votar FN por falta de ter sido ouvida à  esquerda.

Para dizer a  verdade, isto são as questões do PS, que não se aguentaria  um segundo em frente de um candidato de direita dotado de um pouco de carisma (digam Juppé,  ou uma parelha Juppé/Bayrou, que seria a solução inteligente se a Direita não tivesse permanecido, como dizia De Gaulle, a besta do  mundo), mas que espera preparar-se sabiamente para  um 2002 ao contrário — salvo que Marine Le Pen ganhará em frente do sedutor dessas damas,  o capitão de motocicleta a pedal, o grande manhoso  negligente — tem-se as alcunhas que se merecem. Designa-se por conseguinte o FN assim como o adversário essencial, toma-se — propositadamente —decisões que os radicalizarão e atrairão para eles ainda mais gente desesperada (conscientemente desesperados, à custa de grandes cortes orçamentais, de políticas laxistas, de leis “societais” que não nos levam a ter manteiga na mesa, e “de ritmos escolares destinados a substituir um ensino coerente). Enaltecem-se  factos diversos mais susceptíveis de agitar os ódios raciais. Abre-se uma alameda à extrema-direita, embora sabendo bem que a direita está demasiado  ocupada a  aniquilar-se para ser capaz de a ocupar.

Pensei  nisto um  outro dia ouvindo  o meu amigo Gérard Filoche  apelar à  Esquerda para ser  de esquerda — esperança vã, quando se ouve  Benoît Hamon (de quem outrora estava muito próximo) aceitar que sejam as mulheres com véus  a enquadrar  doravante as saídas dos alunos  nas escolas; quando se  ouve Valls explicar porque é urgente oferecer 35 mil milhões de euros a um patronato que não retorna e que de repente  pede ainda mais — “ escravos, escravos, rapidamente! ”; quando nos explicam que somente  o rigor é possível para colocar fora de perigo uma França que o rigor está já a afundar; quando nos querem impingir mesmo à força que o liberalismo é a única solução para o liberalismo — como o pedagogismo  que está a afundar a  Escola é  a única solução ao pedagogismo.

Então sim, sem dúvida, desde as eleições europeias, os que sofrem, todos os que sofrem, votarão pelos extremos. Mas nunca mais voltarão à Esquerda — também não voltarão  à Direita, que de Fillon a  Copé, fazem o seu  melhor para se autodestruírem. Isto vai-se passar nas eleições europeias, depois, vai-se passar nas ruas.  François Hollande, a  tentar  criar as condições da sua reeleição, cria as circunstâncias favoráveis à existência de  fortes tumultos sociais, de reacções de auto-defesa, dos  Comités de cidadãos e ao esmagamento da  República. E terá feito tanto e de tal maneira que mesmo Filoche não o lamentará — em que ele corre o risco de ver, como muitos outros, nestes acontecimentos a condição necessária para   que ventos favoráveis voltem a soprar de novo sobre a França. .

O pecado mortal que comete o PS desde há dois anos (de facto, desde 1983, quando se pensa que  Hollande hoje se inspira  daquele Mitterrand que levou  a televisão a reinventar Jean-Marie Le Pen), é precisamente o de relegitimar a FN, instalando-se no pensamento do  “ fim da história” — como se a história alguma vez  parasse. Conhece-se a fórmula de Marx — o grotesco depois do  trágico —, mas o PS acrescenta diariamente mais  grotesco ao grotesco.

É no plano da  economia que tudo se jogará, porque não há outro princípio determinante  em última instância. E a economia, de momento, é exactamente  o sofrimento dos humildes — entre eles, muitos pessoas que votaram François Hollande  porque Sarkozy, era o liberalismo financeiro (este capitalismo moderno estilo do que Piketty denuncia no seu livro que funciona tão bem nos …  Estados Unidos), e que se apercebem dia após dia  que Hollande  é o capitalismo financeiro, e que tudo isto  vai terminar num banho de sangue — ou numa  “aurora dourada ”, como dizem na Grécia, este laboratório de todos os  erros europeus.

Então sim, a  FN com  26% dos votos no final (aposta-se?), porque muitos pessoas não quererão uma alternativa entre os que votarão Jean-Claude Juncker (aproximadamente, o UMP e os seus aliados) e os que votarão Martin Schulz (aproximadamente, o PS e alguns mais). Nem um nem o outro são aceitáveis. Porque os dois, um e outro, são como  branco boné,  boné branco, são as duas faces da finança  triunfante.

E não quererei mal àqueles  que não votarão nem Peillon, nem Muselier (no Sudeste) — nem nenhum de  todos aqueles que lambem as solas dos banqueiros e dos accionistas. A Europa que nos tinham prometido  não era a Europa dos  plutocratas —plutocratas muitíssimo pouco europeus, acrescente-se;  as gesticulações a propósito da Ucrânia mostram até que ponto  todas as pessoas se alinham  pelos  interesses da OTAN, ou seja  dos Estados Unidos. Nada de surpreendente, de resto: ao estar a apostar  sobre um euro forte (que satisfaz os interesses dos bancos alemães , estes avarentos pelo dinheiro  do velho continente, que têm posto sucessivamente de joelhos países como a Grécia, a Espanha, Portugal e a Itália — e a França, mas não é necessário dizê-lo), permitem que a libra  e o dólar flutuem lentamente à baixa  ao sabor da rotativa do FED ou do Banco de Inglaterra  e que deixa Ingleses e Americanos estarem a querer rectificar a sua economia — à nossa custa. Não sou eu que o digo, são os últimos Premio Nobel de economia americanos — Stiglitz e Krugman.

E será que se quer re-eleger pessoas que consideram  calmamente baixar o salário  afim de que os porcos engordem mais ainda?

 Revista Le Causer, Européennes : le PS ajoute chaque jour du grotesque au grotesque, Maio de 2014.

*Photo : BAZIZ CHIBANE/SIPA. 00682902_000001

 

http://www.causeur.fr/europeennes-ps-ump-mauroy-27564.html

 

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