Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Caros Amigos
As eleições realizaram-se, o povo escolheu e, pela lógica da Democracia, escolheu bem, porque escolhe sempre bem. Se os resultados não estão à altura é sempre porque alguém considera que não foi claro no passar da sua mensagem e portanto foi sancionado. Mas uma questão: na maioria dos casos havia mesmo mensagem a entender, quando nestas eleições europeias praticamente se falou de tudo menos da Europa?
Pois bem, a França dá-nos um bom exemplo disso mesmo, com um tsunami agora nada silencioso, pelos resultados de ontem, pelas declarações de ontem, pelo baile das avestruzes de ontem a que se terá assistido. Sobre isso um elegante texto aqui vos deixo, com o título O baile das avestruzes.
Sublinho o que num outro texto da semana passada mas ainda não publicado no blog A Viagem dos Argonautas se afirmou:
“François Hollande, a tentar criar as condições da sua reeleição, cria as circunstâncias favoráveis à existência de fortes tumultos sociais, de reacções de auto-defesa, dos Comités de cidadãos e ao esmagamento da República. E terá feito tanto e de tal maneira que mesmo Filoche não o lamentará — em que ele corre o risco de ver, como muitos outros, nestes acontecimentos a condição necessária para que ventos favoráveis voltem a soprar de novo sobre a França. (…)
É no plano da economia que tudo se jogará, porque não há outro princípio determinante em última instância. E a economia, de momento, é exactamente o sofrimento dos humildes — entre eles, muitos pessoas que votaram François Hollande porque Sarkozy, era o liberalismo financeiro (este capitalismo moderno estilo do que Piketty denuncia no seu livro que funciona tão bem nos … Estados Unidos), e que se apercebem dia após dia que Hollande é o capitalismo financeiro, e que tudo isto vai terminar num banho de sangue — ou numa “aurora dourada ”, como dizem na Grécia, este laboratório de todos os erros europeus.”
E é tudo.
Júlio Marques Mota
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Europeias: face à FN, o baile das avestruzes
Da recusa ao desprezo, o antifascismo vive em dificuldades
Daoud Boughezala
Revista Le Causeur, 26 Maio de 2014
Jogo Nulo entre a UMP e o PS. Com uma Frente Nacional pairando à volta dos 26% dos votos em toda a França, cinco pontos à frente relativamente à UMP e de onze pontos face ao Partido Socialista, o panorama político hexagonal não sai indemne destas eleições europeias. De passagem, notemos que o bom e velho mito da abstenção ser favorável a Marine Le Pen é um pouco como ficar de grão de chumbo na asa pois claramente o aumento de votação terá beneficiado ostensivamente as listas da Frente Nacional. Jean-Christophe Cambadélis terá que assumir as despesas das suas afirmações, ele que tinha previsto, como uma Pítia com o dedo molhado: “a FN só é forte na abstenção e, consoante esta aumente ou diminua nas próximas eleições, assim ela terá um bom ou um menos bom resultado. Chumbado!
Ao contrário, em vez disso verificou-se o teorema de Guilluy: as classes trabalhadoras, também conhecidas como as classes perigosas, votam massivamente FN, quando estas gentes não se abstêm. Os picos de Marine Le Pen em torno de 32% no noroeste, relegando Jérôme Lavrilleux, o menino de Copé a 15 pontos de distância e o seu adversário socialista a vinte pontos de distância, expressam bem a caricatura da nova geografia social francesa. Da mesma forma, o comportamento de certa maneira constante do federalista da UMP, Lamassoure, vencedor em Île-de-France, um dos raros advogados do Tratado Transatlântico na praça de Paris, confirma o futuro da direita bobo na cidades-mundo. Que Hidalgo o tenha considerado …
Todo o picante de ontem à noite esteve no conjunto de reacções com que os comentadores e os políticos nos têm gratificado. Alguns dias antes das eleições, Cambadélis (e ainda Harlem Désir que lhe cedeu o seu lugar de mestre de entretenimento) já havia anunciado a cor e o tom: “Se a Frente Nacional chegasse em primeiro lugar nos resultados eleitorais de Domingo isto significaria que a França dos direitos humanos passou a ser o país que quer excluir os outros.” Como numa pintura de Jérôme Bosch, parece que uma grande parte do eleitorado está hoje a arder nas chamas do inferno.
O anúncio deste episódio apocalíptico abriu uma tourada em redor do touro frentista que tristes picadores espicaçam com as suas bandarilhas. “Horas sombrias”, insiste Cambadelis, depois de uma overdose de Nuit et brouillard. Mas o prémio do grotesco vai para Carlos da Silva, prefeito de Evry PS, a substituir Manuel Valls. O porta-voz do PS tem levado a inconsciência política ao ponto de questionar Nicolas Bay ao vivo na I-tele, dando-lhe uma pequena lição de moral digna das horas mais sombrias do antifascismo. Veredicto: “a FN é um partido anti-republicano” e os seus eleitores não passam de uns bastardos que é necessário re-educar”. E a arrogância do edil socialista: ” os senhores não servem para nada”, recordando o perfil pouco atraente dos aliados estrangeiros da FN. Como se o eleitor de FN, senhor X, esperasse derrubar a Europa pela aliança entre Marine Le Pen, o partido da liberdade austríaco e os liberais-libertários de Geert Wilders. Até mesmo o primeiro-ministro deu mostras de um melhor sentido político no seu discurso tão oco e grandiloquente como um discurso presidencial. Certamente, Valls não irá mudar de rumo, o leme de austeridade organizado continuará a alimentar a Frente Nacional para esta continuar a aumentar as suas votações . Uma menção especial para o seu pensamento: “os franceses gostam da Europa”.
Mesmo comportamento à direita, que mostra um pouco menos desprezo pelos eleitores da FN e se contentam em relativizar, ou mesmo em negar, esta autêntica tempestade eleitoral. Os manhosos e bem experientados sarkosystas Hortefeux e Morano estavam altamente embaraçados e consolavam-se com contas de merceeiro, adicionando os 10% da lista UDI-Modem aos seus resultados medíocres. Cansado, a afronta infligida à Sarkozy é bem mais que flagrante, com os tons soberanistas da sua recente tribuna a não serem suficientes para enganar o povo de direita. Tradução, em linguagem techno: “O partido UMP é a única força capaz de se opor à Frente Nacional” (Bruno Le Maire). Se há uma virtude no cataclismo de ontem, é claramente o de ter suscitado algumas vocações para a profissão de cómicos. Tudo muito clássico com os outros tenores enrouquecidos da UMP, com Goasguen a colocar a derrota do seu campo sobre os ombros de Guaino. O primeiro que diga a verdade ….
E a lucidez em tudo isto? Mélenchon, distanciado pela outra Frente, tira dos seus curtos 6% uma conclusão moral desabusada: “O voto étnico suplantou o voto social. ” Bela tirada. Retomada por Zemmour, esta semiverdade dissocia sem razão o voto social e o voto étnico, enquanto que os dois estão estreitamente ligados. Cahin-Caha, “a classe média proletarizada ” sofre tanto as consequências empresariais da imigração como os seus efeitos económicos, a multiplicação dos talhos para muçulmanos a fazerem menos mal que uma deslocalização.
A grande quinzena antifascista já não é realmente o que era. Doze anos depois do 21 de Abril de 2002, o PS esfrega as mãos ao ver Marine Le Pen aceder ao primeiro posto de oposição. Desde ontem, Valls martela-nos a mesma mensagem que Copé: a esquerda deve partir unida desde a primeira volta para estar segura de que se irá qualificar para a segunda volta das eleições que contam duas voltas (procurem o erro, a política liberal do governo não feita precisamente feita para agradar à Frente de esquerda…). A despeito das aparências, Eliseu e Solferino por conseguinte obtiveram a sua maior vitória desde as municipais: se não quisessem aumentar a votação na FN, porque é que desenterraram o direito de voto dos estrangeiros? Exacerbando a guerra civil ideológica entre “uma França que tem medo em face de certas realidades mais ou menos mitificadas – a começar pela imigração” e “uma França que tem medo do medo dos outros, e tende a negar os problemas postos por estes últimos” que Pierre-André Taguieff analisa no seu último ensaio, Hollande e Cambadélis fazem figura de aprendizes de feiticeiros da diabolização. Prudência: 2017 dir-nos -á quem da UMP ou do PS andar a brincar demasiado com os fósforos.
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Du diable en politique. Réflexions sur l’antilepénisme ordinaire. Pierre-André Taguieff, CNRS éditions, 2014.
*Photo : AY-COLLECTION/SIPA. 00684371_000011.
Revista Le Causeur, Européennes: face au FN, le bal des autruches-Du déni au mépris, l’antifascisme est bien mal en point
*Há que correr e bem depressa -Maria *