CRÓNICA DE DOMINGO – «As acções dos homens são os melhores intérpretes dos seus pensamentos» – por António Gomes Marques

cronicadomingo3

O jornal Público dehoje lembra-me a frase de James Joyce que dá título a este texto, frase essa que, penso, se ajusta bem ao que pretendo dizer em complemento ao que já muito se escreveu e disse no seguimento das Eleições Europeias, procurando não repetir o que o meu amigo e camarada Joaquim Ventura Leite ontem escreveu no mesmo jornal.

Começo por dizer o que há muito penso, particularmente após a eleição de António José Seguro para Secretário-Geral do Partido Socialista, que o sistema não gosta de homens de mãos limpas, de que o actual líder do PS é um dos exemplos, infelizmente muito pouco acompanhado no sistema político português, no qual, ao que parece pela actuação da justiça (com minúscula, pois claro!), não há corruptos.

Recuemos um pouco e lembremos a acção dessa figura que se julga «dono» do país, Mário Soares de seu nome, após a posse do actual governo (com minúscula, evidentemente!), que nos seus escritos no Diário de Notícias e em entrevistas não se cansava de tecer elogios à simpatia do actual Primeiro-Ministro (em maiúsculas, pelo respeito que o cargo nos deve merecer). «Passos Coelho é uma pessoa bem-intencionada com quem se pode falar», foi um dos elogios de Mário Soares a Passos Coelho. Seria esta a melhor forma de apoiar o Secretário-Geral do seu partido, o PS, de que Soares foi um dos fundadores? «As acções dos homens…».

Mas Passos Coelho lembrou-se de «atacar» as Fundações, muitas delas a viverem à custa do Orçamento de Estado sem que para isso haja qualquer justificação. Claro que Passos Coelho se ficou mais pelas ameaças do que pela acção que se justificava inteiramente, cortando injustamente numas e fingindo cortar ou não cortando noutras. A Fundação Mário Soares terá tido algum corte nos apoios do Estado. Mário Soares deixou de considerar Passos Coelho «uma pessoa bem-intencionada». Coincidência? «As acções dos homens…».

Mudando de opinião acerca de Passos Coelho, seria lógico esperar que Mário Soares, na sua acção política, se disponibilizasse a apoiar claramente o Secretário-Geral do que ele considera ser o seu Partido; no entanto, Mário Soares lança-se numa campanha, numa linguagem que chegou a superar os representantes da extrema-esquerda, contra o actual governo, nomeadamente com as suas iniciativas no Auditório da Aula Magna da Universidade Clássica de Lisboa, como se ele fosse o único possível opositor ao governo de Passos Coelho e Paulo Portas. «As acções dos homens…».

Para além de Mário Soares, António José Seguro tem ainda contra si a generalidade da imprensa, até de alguns jornalistas —poucos— que continuam a ter da profissão uma posição ética e, portanto, independente do poder financeiro que domina o mercado e os jornais, como proprietário da sua quase totalidade. Mário Soares ajuda-os a espalhar a ideia de que António José Seguro é uma pessoa sem coragem, frouxo. Ninguém, com acesso aos órgãos de informação, se lembrou, ao menos, de lembrar a herança que recebeu de José Sócrates que, em conjunto com Cavaco Silva, é um dos principais responsáveis da situação a que o país chegou.

Claro que António José Seguro cometeu um erro grave ao não se distanciar claramente da governação de Sócrates, reafirmando também que, no seu mandato à frente do PS, os valores socialistas seriam retomados, afastando-se assim do consulado do seu antecessor no cargo, que de socialista nada tem. Outro erro comete agora António José Seguro, com mágoa o digo, ao não avançarde imediato, perante o desafio calculista de António Costa, para a Comissão Nacional com um único ponto na agenda: Convocação de um Congresso Extraordinário.

Na actual «crise» (ponho esta palavra entre comas por pensar que uma discussão aberta, olhos nos olhos, será sempre positiva) interna ao PS, Mário Soares vem claramente apoiar António Costa, ousando mesmo dizer, num texto publicado no Público de ontem, sob o título «Resposta ao povo»: «Para que o PS seja um partido de esquerda e se bata em favor do povo contra a direita que o tem oprimido. Foi um acto de grande coragem que faz esquecer as hesitações do passado» E, no período seguinte do seu lamentável texto, acrescenta: «Felicito-o e apoio-o. Acho que nos vai permitir que o nosso querido PS, do punho erguido à esquerda e dos socialistas que não têm medo de ser tratados por camaradas, se mobilize para construir um futuro diferente.» Ora, a ser isto o que Mário Soares quer para o PS significa que agora considera que o partido não tem. Ou será que Mário Soares o que realmente quer é aquele PS de que ele era o Secretário-Geral e, ao mesmo tempo, Primeiro-Ministro do Governo de então, que esqueceu um dos princípios básicos do ser socialista quando não teve a coragem de se assumir solidário com um dos cidadãos portugueses mais verticais, mais solidários que alguma vez tive a honra de conhecer e de ter como amigo, que dá pelo nome de Edmundo Pedro, no célebre processo das armas? Haja um pouco de vergonha! E mais não digo por, apesar de tudo, o ex-Presidente da República ainda me merecer algum respeito. «As acções dos homens…».

O PS tinha o dever de fazer a reparação pública que o Edmundo merecia, era o mínimo que do partido se poderia esperar, mas nunca tal reparação foi feita.

Mas voltemos à já referida imprensa portuguesa, com uma maioria de jornalistas que não têm coluna vertebral, como já o caso Edmundo Pedro havia claramente demonstrado, que agora, perante o desafio de António Costa, corre a ouvir o sr. Manuel Alegre, o maior Narciso da política portuguesa e que se mostrou ser senhor de uma cobardia monstruosa ao nunca defender Edmundo Pedro, sendoAlegre o responsável pelo pelouro de Segurança do PS quando Ramalho Eanes acordou com ele a entrega das armas ao partido, e não a Edmundo Pedro, nem mesmo o defendendo de calúnias que a dita imprensa, já depois de a inocência de Edmundo Pedro ter sido declarada pela Justiça, ousou ainda atacar o cidadão exemplar que sempre foi Edmundo Pedro. Esta imprensa e este Manuel Alegre devem ser fruto da mesma cepa! Leiam o 3.º volume de «Memórias – Um Combate pela Liberdade», de Edmundo Pedro, de que transcrevo apenas este período: «Manuel Alegre foi-me pedir, como devem estar recordados, para não referir a sua ligação ao “caso das armas” ao juiz que iria instruir o processo. Essa atitude, como sublinhei na altura, evidenciou uma chocante fuga às responsabilidades próprias e uma enorme falta de solidariedade para com um camarada e amigo em dificuldades.» De facto, «As acções dos homens…».

Para quem não leu este volume das Memórias de Edmundo Pedro, acrescento que Manuel Alegre teve a ousadia de o visitar na prisão apenas para lhe solicitar que não citasse o seu nome quando era ele o maior responsável, dentro do PS, pelas armas recebidas dos militares. Claro que, cinicamente, contava com a verticalidade de Edmundo Pedro, que nunca foi delator e que, com tal verticalidade, suportou longos meses de prisão no pós-25 de Abril. Atentem nestas palavras de Edmundo Pedro: «O que me motivou, desde que fui preso, foi o desejo de não implicar quem quer que fosse naquele incrível processo!» Mas há uma mágoa profunda no meu amigo, foi a sua prisão no regime democrático pelo qual ele arriscou a vida, tendo-me dito por várias vezes: «Acredita, António, custou-me mais esta prisão do que os quase dez anos que passei no Tarrafal!»

Por último, falemos de António Costa.

É ele filho de um amigo, o saudoso escritor Orlando Costa, o que me fez estar mais atento à sua evolução na política. Durante muito tempo pensei que o futuro do PS passaria por ele e, por assim pensar, apoiei-o para a Câmara Municipal de Loures, um combate de que não se saiu mal. Estive atento à sua acção como Ministro, onde também não esteve mal, melhor umas vezes do que outras, chegando mesmo a pensar, ao que parece erradamente, que a sua saída do Governo Sócrates se teria ficado a dever a divergências comeste.

Quando Marcos Perestrello se candidatou pela primeira vez à FAUL – Federação da Área Urbana de Lisboa do PS, apoiei-o desde a primeira hora, tendo mesmo sido eleito Delegado pela Secção da Portela, por duas razões fundamentais: sentir como necessária a derrota de Joaquim Raposo, para mim sem perfil para o cargo de Presidente desta estrutura, e por Marcos Perestrello ser apoiado por António Costa. Pensei mesmo que este estava a criar a sua rampa de lançamento para se candidatar a Secretário-Geral.

No acto final, confirmada em Odivelas a vitória de Marcos Perestrello, disse ao António Costa: «Meti-me nesta luta sobretudo por tua causa; espero que, agora, avances para líder do partido». António Costa pôs-me a mão no ombro, sorriu e afastou-se.

Algum tempo depois desta cena, Marcos Perestrello chamou os Delegados que o haviam apoiado, tendo-nos comunicado que havia sido feito um acordo, nas costas de quem o tinha apoiado, com a outra candidatura, acordo esse que decepcionou a larga maioria dos Delegados —a imagem dos seus rostos não me sai da memória—, compreendendo eu então o sorriso e o silêncio de António Costa, o principal responsável por esta conciliação com a candidatura de Joaquim Raposo, na cena anteriormente relatada. Marcos Perestrello, pelo menos, teve a coragem de enfrentar os seus apoiantes.

Jurei a mim mesmo nunca mais confiar em António Costa.«As acções dos homens são os melhores intérpretes dos seus pensamentos».

Portela (de Sacavém), 2014-05-31

1 Comment

  1. Caro António Gomes Marques, dizes-nos:
    “Claro que António José Seguro cometeu um erro grave ao não se distanciar claramente da governação de Sócrates, reafirmando também que, no seu mandato à frente do PS, os valores socialistas seriam retomados, afastando-se assim do consulado do seu antecessor no cargo, que de socialista nada tem.”

    Vemo-lo agora acusado pelos apoiantes do António Costa do contrário, isto é, acusado de se ter distanciado e demais. O tempo passou, basta olhar para o passado recente, para o que foi feito e não feito, dito e não dito e chegamos a uma conclusão que ambos os lados têm razão:
    1. Distanciou-se. Aqui acho que temos seus críticos razão, distanciou-se demais quando o PSD/CDS acusava o PS do estado lastimoso em que estavam as finanças públicas, o défice externo, a dívida pública e privada, quando acusavam o governo de Sócrates de ser o responsável da crise. Aí o PS de José Seguro calava-se, calavam-se os deputados e muitos deles eram fervorosos adeptos de Sócrates. Não se devia calar, devia responder-lhes, devia responder que os dados macroeconómicos do país estavam na média europeia, que não eram inclusive muito diferentes dos alemães, na época. Calou-se e não se devia calar. Mas calou-se porquê? Porque aqui, passa o dilema que está a minar todos, sem excepção, todos os partidos socialistas na Europa. Denunciar que se falava mentira, era ter que denunciar Bruxelas pelas directivas impostas, era acusar Bruxelas de modelo ultraneoliberal, era acusar Bruxelas de não ter política comercial, de não política industrial, de ter nada a não ser um dogma como orientação: o poder absoluto aos mercados, Diz-nos agora o Comissário Banier que a Europa foi ingénua nos seus acordos comerciais. Di-lo agora para aliviar a consciência e para ficar tudo na mesma e entretanto permite-se que a EU negocie secretamente um acordo comercial de grandes dimensões com os Estados Unidos onde Obama tem dificuldade em se opor ao bando de rufias que dá pelo nome de Tea Party. Uma crítica de fundo portanto, a segunda que emerge do que estou a dizer. Também se distanciou de menos, porque, pelo que acabo de dizer, porque o distanciamento relativamente ao governo socialista anterior, que tinha assinado o memorando, seria um distanciamento que Bruxelas não admite e portanto o grande erro terá sido não se distanciar o suficiente nem de Sócrates nem de Bruxelas, porque o próprio PEC IV antecede e insere-se na lógica do memorando e de tudo o se lhe seguiu. Mas uma pergunta: seria possível distanciar-se de Bruxelas? Ou se o fizesse, se criasse oposição a Bruxelas, não iriam disparar as taxas de juro da dívida pública em forte e descontrolada alta como aconteceu noutros sítios, como por exemplo em Roma? Um outro exemplo e no mesmo sentido: foi o governo irlandês, o eleito antes da crise rebentar e o que se lhe seguiu depois da crise estalar, capaz de tornar pública a carta com as ameaças feitas pelo BCE, assinada por Trichet, ao povo irlandês? Não, pura e simplesmente.
    Em síntese, José António Seguro distanciou-se onde não se devia distanciar, no ataque frontal à direita que desse ponto de vista não foi feito, não se distanciou onde se devia, no ataque à política de Sócrates e de Bruxelas igualmente, pois a primeira é filha directa da segunda. E não podemos esquecer que cada Estado membro depende em média, no seu quadro legislativo, em 70% das directivas de Bruxelas. E de toda a crise Bruxelas lava as mãos! Nesta linha de compromisso com Bruxelas, foi inclusive obrigado a suportar tensões elevadas aquando das reuniões pedidas pelo Presidente da República com os partidos no poder, pois não podia aceitar nenhuma plataforma de acordo com o governo fascizante em exercício, mas não podia ou não era capaz de recusar por princípio as ditas conversações por causa de… Bruxelas.
    Mas meu caro António Gomes Marques, diz-me um partido socialista na zona Euro que desse ponto de vista tenha feito melhor? Com isto não estou a querer desculpar o PS português, longe disso, e sobre essa matéria fiz um texto sobre o assunto que conheces, estou apenas a tentar compreender o que se está a passar. E se tenho razão, nunca vi o António Costa manifestar-se no sentido que agora estou eu a fazer.
    Um abraço.

    Júlio Marques Mota

Leave a Reply