A ESQUERDA CONTRA ELA PRÓPRIA, por DIDIER ERIBON

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Falareconomia1

A esquerda contra ela própria

Didier Eribon

Le Monde, 10 de Maio de 2014

Piketty - IV

Não é muito original, eu sei, preocuparmos-nos com o estado em que hoje está a esquerda e o pensamento de esquerda considerando mesmo que é possível distinguir estes dois registos. Mas na medida em que a esquerda política parece estar a afundar-se no que se anuncia como um desastre eminentemente histórico, é compreensível que aqueles que ainda acreditam nas virtudes de um processo de transformação social procurem agarrar-se a alguma réstia de esperança que ainda lhes resta, a tudo o que se assemelhe, de perto ou longe, a uma contribuição progressista para a reflexão teórica.

A tentação é grande, neste contexto de tomar por extraordinário avanço, o que, noutros tempos, se teria considerado como concessões destinadas a salvar o sistema e até mesmo de sentir com essa atitude um ar de ‘revolucionário’ no que seria conveniente ser interpretado como um ponto de conclusão e de reordenamento do que foi produzido durante a “revolução conservadora” desde o início da década de 1980.

OS CÍRCULOS IDEOLÓGICOS

Pessoalmente penso, por exemplo, no livro do economista Thomas Piketty, Le Capital au XXIe siècle (Seuil, 2013), que não pode aparecer como um livro de esquerda porque os círculos ideológicos que lhe estão mais próximos foram altamente determinados em primeiro demolir tudo o que restava do que era a esquerda. Isto seria suficiente para se ficar convencido e verificar que aqueles que o aplaudem nos jornais em francês são os mesmos que ontem insultavam Pierre Bourdieu quando ele denunciou o caos, a destruição, que se estava a criar com o neoliberalismo.

Não será pois de surpreender: o livro de Piketty aparece na França numa colecção, dirigida por Pierre Rosanvallon, o antigo animador da Fundação Saint-Simon, que pretendia reunir de maneira duradoura, académicos, jornalistas, políticos e grandes responsáveis políticos, com o objectivo de organizar a viragem do campo intelectual de esquerda para a direita, de Marx para Tocqueville ou mais exactamente, a viragem a partir  de Sartre, Foucault e Bourdieu para Raymond Aron.

O olhar centrado sobre o mundo social por Piketty é parte desta problemática de Raymond Aron da individualização construída contra a ideia de classes sociais, contra a ideia dos determinismos sociais e de reprodução e, consequentemente, contra toda e qualquer abordagem em termos de exploração e de lutas sociais, de dominação e de conflito. Esta é a abordagem subjacente a todo o seu livro: o que define “modernidade democrática”, repete-nos, é que as desigualdades sociais são justas e justificam-se se elas são baseadas no trabalho individual e no mérito [daí o calor com que debate os altos salários em relação com a produtividade marginal do trabalho, penso eu.]

A sua obra constitui o segundo tempo da empresa de destruição do pensamento de esquerda: para que o capitalismo seja aceitável e as desigualdades sejam aceites é necessário limitar – pelo imposto – aquelas que se tornam diariamente e cada vez mais ultrajantes e cada vez menos justificáveis. A crítica do «capital» e algumas medidas fiscais intervêm aqui e está aqui para salvar o paradigma onde se pensa o mundo social sem classes e sem antagonismos de classe.

Apoiar as políticas de redistribuição de rendimentos

Logo na introdução Piketty avisa-nos que o problema central não é o da escala das desigualdade, mas o problema é do que é que elas dependem. Aqueles que possuem fortunas colossais devem-nas não aos seus méritos, mas sim à acumulação de património e à sua transmissão por herança. Daí a ideia de introduzir um imposto progressivo sobre a capital a fim de apoiar as políticas de redistribuição do rendimento.

Quem poderia ser contra tais medidas? E fica-se espantado ao vermos governos de esquerda – na França- recusá-las. Basicamente, se o livro de Thomas Piketty é recebido como um livro de esquerda, isto é porque a esquerda no poder é menos de esquerda que ele próprio.

A recepção dada à tradução deste livro por algumas personalidades do establishment académico americano e o sucesso internacional que eles assim lhe garantiram deveriam incitar os leitores a terem um grande prudência. São realmente esses economistas de grande audiência nacional e internacional que devem estar a viver  desligados das realidades do mundo para se poderem maravilhar que um livro venha, em 2014, dizer-lhes que o capitalismo é um sistema em que a riqueza produzida pela empresas não beneficia a todos, mas somente uma pequena minoria. E deixá-los tirar a conclusão surpreendente que isto prova que o capitalismo, assim “não funciona”.

Pode-se argumentar ao contrário que isto prova que o capitalismo “funciona” e desde há muito tempo, pois é exactamente isso que o define. Se as minhas memórias sobre o período em que era estudante não me enganam, um livro intitulado o Capital (publicado no século XIX) tinha-o  já bem demonstrado.

Num artigo do New York Review of Books, Paul Krugman opera uma deslocação edificante. Ele orienta sobretudo a sua análise sobre a concentração de capital nas mãos de poucos, ao invés de centrar a sua atenção sobre a desigualdade de rendimentos entre as diferentes camadas de assalariados, como se fazia até agora. Haveria de um lado os muito ricos e, do outro  lado, o resto da população que ganha a sua vida pelo trabalho, e as diferenças no seio desta população seriam, num tal quadro de pensamento,  relativamente secundárias. Neste sentido, Paul Krugman não está a trair o livro que ele próprio está a promover, e é esta a razão pela qual o acha inovador.

MITO DA IDEOLOGIA MERITOCRÁTICA

A discussão crítica que o economista americano conduz não se situa num espaço da esquerda: os seus adversários são os economistas da escola de Chicago, os defensores do liberalismo puro e duro, os editorialistas da direita americana… E contra eles, ele diz e rediz que o livro de Thomas Piketty demonstra que aqueles que possuem fortunas colossais não as devem ao seu trabalho ou ao seu mérito pessoal, mas sim à herança constituída e herdada. E então, ele pode pois ler e ver o trabalho de Piketty como uma desmontagem como il faut da ideologia meritocrática, que serve como um mito fundador para a sociedade americana ou, sobretudo, para as suas classes dominantes.

Mas também ou ele está grosseiramente enganado ou então é ele que nos quer enganar. Porque Thomas Piketty  não deixa de sucessivamente estar a promover a ideologia meritocrática. Simplesmente, ela localiza- num andar abaixo. Pensemos sobretudo que a visão meritocrática e inigualitária de Paul Krugman se encontra confortada pela visão que lhe é oferecida por Thomas Piketty: o mérito não se situa no seio daqueles cuja riqueza é indecentemente enorme, mas sim nos outros estratos da sociedade, onde as desigualdades salariais , por muito elevadas que sejam, são, portanto, legitimadas.

Ao ponto de se querer saber como é possível que ninguém, que eu saiba, tenha levantado nos Estados Unidos uma questão tão crucial como dolorosa: ao insistir no mérito individual como fundamento justo para as desigualdades reafirma-se como estando na base das mesmas a responsabilidade individual, devida à falta de talento, de competências, de  todos aqueles que não conseguem sair da situação de pobreza. E como é muito provável que isso se aplica primeiro quer tudo aos habitantes dos guetos de negros das grandes cidades, estamos finalmente em face a uma ideologia que não é muito diferente da de inferioridade racial.

Isto deve levar-nos a questionar os slogans do movimento como “Occupy Wall Street”. Por muito interessante que possa ser esse movimento e por muito prometedor de um grande aumento nas mobilizações contra a violência económica e social exercida pelo poder das finanças internacionais que este movimento seja, temos obrigatoriamente de admitir que a sua maneira de opor os 1%, que representam a fracção mais rica de uma nação contra os 99% que representam ‘o povo’ reunido significa apagar as consideráveis diferenças dentro de um grupo tão vasto como o é o grupo dos 99%.. É como se a hierarquia entre as classes desaparecessem no gesto de revolta contra alguns espoliadores e especuladores. Mas não desaparece!

PERPETUAÇÃO DAS DESIGUALDADES SOCIAIS

Este “povo” não é um conjunto homogéneo, no qual prevalecem simplesmente diferenças secundárias (e merecida) de estatuto ou de salários. No entanto, a análise centrada sobre a mais obscena desigualdade tende a instalar para o resto do mundo social um continuum entre os níveis de rendimento, separados por “decis” ou “percentis”, e no qual as diferenças seriam plenamente justificadas. Esta ideologia de mérito e talento (certificada e ratificada pelos diplomas escolares) é um dos mais poderosos vectores na legitimações e no perpetuar das desigualdades sociais.

Reduzindo-se a noção de “capital” apenas ao capital económico, Thomas Piketty ignora deliberadamente – está inscrito na sua perspectiva global – o papel principal do capital cultural e do capital social como formas decisivas de herança: a lógica implacável da distribuição diferencial de oportunidades de acesso ao que ele considera baseado no mérito (as escolas de elite, as profissões mais bem remuneradas)

Não é muito difícil reconstruir como, desfazendo  toda e qualquer percepção do mundo em termos de pertença a uma classe social, mobilizada ou potencialmente mobilizável através das lutas ou através do voto para um partido de esquerda, se expõe a sociedade ao que fatalmente se irá refazer: a reconstituição deste grupo através de eleições a favor de  um partido de extrema-direita.

Paul Krugman e o seu colega Joseph Stiglitz prometem já o prémio Nobel de Economia a Thomas Piketty (concedido pelo banco da Suécia). Esta medalha pode ainda ter um revés bem sombrio: a ascensão da Frente Nacional em França e dos partidos fascistas na Europa.

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Didier Eribon (Professeur de philosophie, sciences humaines et sociales de l’université d’Amiens.), La gauche contre elle-même, Le Monde, 10 de Maio de 2014.

http://www.lemonde.fr/idees/article/2014/05/10/la-gauche-contre-elle-meme_4414550_3232.html

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