A CRIAÇÃO LITERÁRIA E A CRIATIVIDADE PUBLICITÁRIA – por Carlos Loures

livro&livros1Há muitos anos, numa conferência que proferiu numa cidade de província, Alves Redol que, como muitos outros escritores, trabalhou em publicidade, comentava a circunstância de haver reuniões em que escritores, intelectuais de grande valia cujo nome referiu, estavam durante horas absorvidos na busca de uma frase publicitária para uma máquina de lavar roupa ou para qualquer outro produto.

Temo-lo dito muitas vezes – o livro é um produto. Já aqui, noutro artigo, transcrevi aquele que parece ser o mais antigo anúncio feito a um livro – foi escrito em finais do primeiro século da nossa era por Marcial, um poeta latino, nascido na Península Ibérica, em Bilbilis, perto da actual Calatayud, Saragoça, (c. de 40-104). Diz assim:

Tu, que desejas levar contigo os meus livros para qualquer parte/e procuras tê-los como companhia de longa jornada,/compra aqueles em que o pergaminho fica apertado em pequenas tábuas./Deixa as prateleiras para os grandes (livros), em mim segura com uma só mão. /Não deixes, porém, de saber onde estou à venda e não andes errante,/perdido pelo cidade toda; com a minha indicação estarás certo: /a seguir às portas da Paz e ao foro de Minerva.

Numa sociedade em que o marketing é rei e, inclusive, determina quem deve governar, não faria sentido não promover o livro através de campanhas publicitárias. Mas sendo um produto, o livro é um produto especial. E um livro de um autor como José Saramago é especial, por maioria de razão. Na realidade, mesmo que não queiramos sobrevalorizar o facto de José Saramago ser o único Prémio Nobel da Literatura atribuído a um escritor de língua portuguesa, a sua obra pela sua qualidade intrínseca, com ou sem Nobel, seria sempre uma obra a preservar, a defender, a divulgar. Que fique claro – tenho pela obra de Saramago um grande respeito, uma profunda admiração. Não gostei de todos os seus livros por igual – há obras-primas e outras menos importantes – como acontece com todos os escritores com obras vastas como é o caso. Porém, considerada no seu conjunto, é uma obra de elevadíssima qualidade. A Porto Editora apresentou há dias, na Casa dos Bicos, em Lisboa, os primeiros títulos da nova edição da obra de José Saramago. Tudo normal. Vejamos as capas:

Do ponto de vista gráfico, não há volta a dar – inqualificáveis – em cores de post it e com os títulos escritos com letras manuscritas. Manuscritas por quem – e aqui radica o segredo, a ideia da qual alguém se sente orgulhoso – as letras dos títulos foram caligrafadas por grandes escritores, humanistas como Eduardo Lourenço, ficcionistas como Lídia Jorge. É capaz de ser uma boa ideia em termos de marketing – Se uma margarina tivesse a embalagem manuscrita por Cristiano Ronaldo ou uma garrafa de azeite tivesse um rótulo feito pelo Tony Carreira, seria uma boa ideia, Neste caso, parece-me um disparate.

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Pilar del Río, presidente da Fundação José Saramago disse na sua intervenção que os livros “levam o autor dentro”. Será que Saramago apreciaria ir dentro destes livros tão feios? Uma homenagem de grandes intelectuais portugueses a José Saramago? É merecida. Por que não um anterrosto o fac-simile de um manuscrito de cada uma das personalidades – uma frase sobre a obra do grande escritor.

E no local onde habitualmente se coloca a capa?

Uma capa.

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