UMA VÍTIMA MORTAL DO RACISMO EM LISBOA EM 1995 – por Clara Castilho

No dia 12 de Junho de 1995, Alcindo  Monteiro morreu em Lisboa, vítima de racismo, depois de ter estado em coma dois dias no Hospital de S. José. É uma história muito feia e triste em todos os sentidos.

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Tudo começara no dia 10 de Junho anterior, em que falar da “raça”, pode levar espírito fascistas a considerarem que são os únicos detentores da verdade e que gostariam de voltar a velhos tempos. Tempos que já foram corridos há 40 anos…

Já anteriormente, em 1989, tinham ocorrido actos violentos praticados por elementos de um grupo de Skin Heads, ao atacarem a sede do PSR conduzindo à morte de um seu, dirigente, José Carvalho. Por este acto, os agressores foram condenados e pensou-se que o assunto estava encerrado. Resultante deste acontecimento surgiu a associação SOS RACISMO.

Porquê tanto ódio? Em 1993 tinham entrado em vigor novas Lei dos Estrangeiros e a Lei do Asilo.  Portugal também assinara o acordo de Schengen sobre a política de abertura de fronteiras e livre circulação de pessoas entre os países europeus signatários. Simultaneamente associavam-se aos jovens imigrantes a delinquência juvenil, com implicações de que eram pessoas que punham em perigo a sociedade existente.

Em 1985 fora criado o Movimento de Acção Nacional (MAN), uma associação nacionalista que existiu até 1992, defendendo os “valores nacionais, étnicos, culturais, éticos e espirituais”, numa actividade de extrema-direita. Em comum, também a cultura skinhead. Passatempo preferido? Ataques as pessoas de origem africana!

Em 1992, o Tribunal Constitucional declarara o Movimento de Acção Nacional (MAN) extinto, a pedido da Procuradoria Geral da República, sob acusação de ideologia fascista. Pensava-se que o assunto estava esquecido. Mas não. Só andavam mais comedidos e juntavam-se a claques de futebol.

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Mas voltemos a 1995, a Alcindo Monteiro. Na noite de 10 para 11 surgiram nas urgências do hospital 10 indivíduos agredidos, todos negros, distinguiam-se marcas de soqueiras e objectos redondos. Um décimo-primeiro chegou mais tarde. Era um jovem português nascido em Cabo Verde, na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, quando ainda esta era uma colónia portuguesa, de 27 anos e que fora encontrado sem sentidos na rua Garrett. Morava no Barreiro, trabalhava numa oficina de automóveis e gostava de cozinhar e de dançar, ganhando concursos.

A família de Alcindo ficou destroçada, só tendo sido avisada muitas horas mais tarde de este ter dado entrada no hospital.          .

O julgamento ocorreu no ano de 1997, com 17 arguidos identificados e a serem julgados por um crime de homicídio e dez ofensas corporais. Um deles arrependeu-se e “deu com a língua nos dentes”, ajudando a reconstruir o que acontecera. Se durante o julgamento deixaram crescer o cabelo, na sessão da leitura da sentença, apareceram de cabeça rapada e com gritos de “Nazis!” A soma de todas as penas resultou num total de 201 anos.

A irmã de Alcindo, Luísa, depois da morte do irmão, envolveu-se na Frente Anti-Racista, como voluntária.

Gostaria de pensar que isto é assunto do passado. Mas atitudes que estão a ser permitidas pela Europa podem influenciar quem ainda tem estes preconceitos.

Nota: a maioria das informações, e as fotos foram retiradas de http://observador.pt/reportagem/alcindo-monteiro/.

 

 

 

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