BISCATES – A Espanha que nos convém – por Carlos de Matos Gomes

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Aquino de Bragança, um homem invulgar que tive o privilégio de conhecer e de com ele conviver nas suas visitas a Lisboa e na que fiz a Moçambique com ele ainda vivo. Natural de Goa, anti-colonialista desde a juventude, formado em física em Grenoble, redactor da revista Afrique-Asie, secretário da CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas), reitor da universidade Eduardo Mondlane no Maputo, após a independência de Moçambique, conselheiro especial de Samora Machel, com quem morreu no “acidente” que vitimou o presidente moçambicano. Aquino de Bragança foio principal arquitecto dos acordos de Incomáti, que estabeleceram uma convivência de respeito mútuo entre Moçambique e a África do Sul ainda no regime de apartheid. É sobre esse acordo que quero falar a propósito de Espanha e das mudanças que estão em curso a propósito da mudança do chefe de Estado.

Aquino de Bragança convenceu Samora Machel a estabelecer o acordo de Incomáti, contra as críticas de muitos camaradas e amigos, que o consideravam uma cedência ao inimigo, uma quebra de valores e de princípios pelos quais Moçambique e a Frelimo se batiam e pelos quais haviam lutado. O argumento que o ouvi repetir-me era simples, claro, pragmático, sensato. D e uma lógica e racionalidade linear: Tal como as famílias não escolhem os seus elementos, os Estados não escolhem os seus vizinho. Considerava o apartheid um problema mundial, tanto de Moçambique quanto de todos os outros países. Era com aqueles vizinhos e com aquela realidade que tinham de conviver.

Tem esta introdução a ver com a abdicação do rei Juan Carlos e com a subida à chefia do Estado Espanhol do seu filho, dentro das regras do regime monárquico. Seguindo o raciocínio de Aquino de Bragança: eu sou republicano, mas somos vizinhos e eles têm um regime monárquico. (Ao contrário do que por vezes leio, não é um regime infamante.)

Julgo que dois pontos são do maior interesse de Portugal e dos portugueses: que se mantenha a boa vizinhança e que os vizinhos não entrem em processo de violência doméstica, que terá sempre reflexos em nossa casa.

Conhecemos bem os nossos vizinhos, sabemos da facilidade com que passam da racionalidade à exaltação. Eu, que os conheço particularmente bem e há muito, vivi em Espanha quando tinha 12 anos, nos anos 50, sei da indiferença deles pelas opiniões dos outros a seu respeito. Têm a mentalidade de grande potência, que já foram. Agem como se o mundo rodasse à sua volta. É uma mentalidade imperial, podemos não gostar, achá-la soberba, mas é a deles. Por isso os espanhóis não perdem um minuto a escutar conselhos ou opiniões que daqui lhes possam mandar os vizinhos do Atlântico que, ao contrário deles, gostam sempre de ser muito bem vistos pelos outros em vez de se imporem por si mesmos.

A Espanha existe. Existe na cabeça dos espanhóis. A questão dos regionalismos, dos nacionalismos são questões de empurrões entre seres da mesma espécie para abocanharem um pedaço maior de um bolo. Existe Espanha e existem espanhóis. A República não altera esta realidade. Os espanhóis conhecem as diferenças entre eles, não precisam de açuladores vindos de fora, nem os ouvem. Nós só teremos a ganhar com uma Espanha integrada na mesma união supranacional em que estamos e a viver em baixa tensão interna. É-nos indiferente que eles tenham um rei ou um presidente.

Uma última nota, sendo eu republicano, e conhecendo bem a Espanha e alguns republicanos dos quatro costados, entendo que nesta ocasião o movimento republicano espanhol, sempre entusiasta e enérgico é, para além das causas sentimentais, um pretexto para promover interesses de grupos de gente que é,no essencial, idêntica,embora dizendo-se galegos ou navarros, leoneses ou asturianos. Gente que quer obter vantagens para si e para os seus próximos. A pulverização da Espanha, com todas as consequências que são fáceis de adivinhar serve em boa parte interesses de senhoritos regionais que querem fazer de conta que são grandes e que, para isso, utilizam naturais sentimentos de identidade étnico-regional. De gente que prefere ter um olho em terra de cegos a ter dois e ser obrigada a bater-se num grande espaço com grandes competidores.

Julgo que não é do interesse de Portugal um conflito do tipo dos Balcãs em casa do nosso vizinho e que os políticos e os intelectuais portugueses deveriam ajudar os portugueses a pensarem que Espanha nos convém eque Espanha não nos convém.

Carlos de Matos Gomes

1 Comment

  1. Meu Caro Matos Gomes,

    O Estado espanhol é um mau vizinho e Olivença uma chaga insanável – foi-nos roubado um território dezasseis vezes maior do que Gibraltar e Madrid nem quer ouvir falar na devolução; Espanha cedeu Gibraltar ao Reino Unido, mas exige que lhe seja devolvido o que, pelo Tratado de Utreque deu. Será que ao Estado espanhol convém levantar problemas com a Grã-Bretanha?
    Trabalhei durante quase 30 anos numa empresa de Barcelona, depois integrada num grupo multinacional. Os meus colegas catalães, nacionalistas, quase todos eles, sempre falaram comigo em castelhano (língua que eu tinha estudado). Ensinaram-me que o patriotismo catalão não se faz de ódio ao castelhano. O perigo de um conflito bélico tipo Balcãs parece-me fora de questão. Os catalães não precisam de uma guerra para se tornarem independentes. Sobre a luta dos galegos, bascos e andaluzes pouco sei. Mas creio que a hipótese de um conflito armado não se coloca. E parece-me que para nós seria mais favorável, não uma Espanha pulverizada, mas uma península onde as ancestrais culturas e nações vivessem harmoniosamente como bons vizinhos. Não se trata de senhoritos ambiciosos, mas sim de nações,com história, cultura e idioma próprios. Com tanto direito à independência nacional como nós.
    Há entre nós neste blogue cidadãos do estado espanhol, gente das nacionalidades oprimidas e “espanhóis”. Há entre nós quem não reconheça o direito de existência a Espanha. Eu acho que Espanha, tendo começado por ser uma ficção mantida pela força, é hoje uma realidade. Milhões de pessoas se consideram espanhóis, com um sentimentos de patriotismo genuíno. A língua castelhana é muito bela e deu lugar a uma literatura sem paralelo – uma poesia que, de Lorca a Neruda e de Neruda a Jorge Luis Borges, nos encanta; que tem romancistas com Vargas Llosa e García Márquez, ensaístas como Unamuno… há, pois razões para que exista um legítimo orgulho. Mas ao lado desta Espanha, ergue-se outra, arrogante, ignorando o que é diferente, colocando o centro do mundo em Madrid – a frívola Espanha das pandeiretas, castanholas e dos touros.
    Talvez esta Espanha modelada por Franco nos convenha. Não me parece, mas admito a hipótese, Mas nem sempre, meu Caro Carlos de Matos Gomes, podemos ir atrás do que nos convém. Por vezes é preciso privilegiar o que é correcto. E tu, militar de Abril, bem sabes que assim é. Um grande abraço. CL

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