CONTOS & CRÓNICAS – “UMA CARTA DE MAURÍCIO VILAR” – por João Machado

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Permita que me apresente. Chamo-me Maurício Vilar. Moro em Lisboa, onde nasci há quarenta e sete anos. Sou estudante. Frequento a Faculdade de Direito há vinte e cinco anos, e faltam-me três cadeiras para concluir o curso. Vivo com a minha mãe, na rua de Santo Ambrósio, que, como devem saber, fica perto do Castelo de S. Jorge. Moramos num prédio já antigo, de quatro andares, que fica no lado direito de quem sobe, sensivelmente a meio do segundo quarteirão. Vivemos calmamente, sem problemas, da reforma da minha mãe e de outros rendimentos, sobre os quais agora não lhe quero falar. Venho maçá-lo para lhe contar uma história que me aconteceu e que não sai da cabeça. Não consigo descansar a pensar no assunto. Vou contar-lhe o que se passou.

Há dias, a minha mãe e eu saímos depois do almoço, para irmos tomar café na pastelaria Esplendorosa, como fazemos normalmente. Sentámo-nos na mesa de uma nossa vizinha, a D. Gertrudes Acabadinho (não se ria, é mesmo o nome dela), e estivemos muito entretidos a ouvi-la contar as proezas do gato. A D. Gertrudes é realmente um pouco maçadora, mas é muito amável e prestável. Depois devemos ter paciência com as pessoas idosas, mesmo que elas não nos paguem o café, e pensar que um dia lá chegaremos, a ser como elas, se tivermos sorte. Mas, a dada altura, pareceu-me que alguém, numa mesa ao lado, me olhava com insistência. A princípio não liguei, mas acabei por achar estranho que a senhora, ainda nova, estivesse a olhar para mim. Voltei a cabeça e olhei-a de frente, com o ar mais sereno que consegui. Ela sorriu e cumprimentou-me. A seguir concentrou-se no café e no bolo que tinha à frente. Minutos depois, levantou-se, pagou e saiu. Quando se afastou é que a reconheci. Fiquei um pouco assustado, mas procurei manter um ar calmo, e continuar a conversar com a D. Gertrudes e a minha mãe, que felizmente não deram por nada.

O problema é que voltei a avistá-la dias depois, e imagine, a entrar para o prédio onde moro. O que mais me chamou a atenção foi ela abrir a porta da rua com uma chave. Eu ia do outro lado da rua, e não me aproximei, segui em frente, Dei a volta ao quarteirão, muito devagar,e só entrei passados mais de dez minutos. Subi as escadas o mais silenciosamente que pude, até ao segundo andar, onde moro. Felizmente que a minha mãe estava a ver televisão, e mal respondeu ao meu cumprimento. Assim não deu pela minha agitação.

Já agora, deixe-me dizer-lhe que sou solteiro. Se calhar já desconfiava. É verdade quejá tive uma namorada, há bastantes anos, mas ela desistiu da nossa relação, por achar que eu nunca me separaria da minha mãe, nem arranjaria trabalho certo, e organizou a vida por outro lado. Desde então as minhas relações com mulheres, para além de conversas com as vizinhas e com a senhora da mercearia, limitam-se a umas “visitas” a uma pensão (em chamo-lhe assim, não gosto de outros nomes mais rudes) de uma senhora numa que fica perto da Almirante Reis. Converso lá com umas raparigas e quando tenho dinheiro…, bem, já sabe. É uma casa sossegada e nunca tive lá problemas. O único problema que tenho é esconder as “visitas” à pensão da minha mãe. Ela quer sempre saber para onde vou, quando saio. A senhora do café foi quem me “atendeu” na minha última visita.

A ultima complicação aconteceu hoje de manhã. Estava no meu quarto a arranjar-me, seriam umas onze horas, quando ouvi tocar a campainha. A minha mãe abriu logo a porta.

– Bom dia. – ouvi uma voz, que me deixou petrificado.- É a Sr.ª D. Heloísa?

– Sim… – respondeu a minha mãe. – Que deseja?

– Eu chamo-me Maria Antónia. – Estou a trabalhar em casa da D. Henriqueta, aqui por cima.

– Ah, e como está a Henriqueta?

– Está muito bem. Desculpe vir maçá-la. É que deixei cair uma camisola, e ficou presa no seu estendal da janela das traseiras.

– Pois claro. Espere só um instante, que eu vou buscar.

Enquanto a minha mãe Heloísa corria a buscar a camisola, procurei mover sem ruído a porta do meu quarto, para conseguir ver a Maria Antónia sem ser visto. Consegui. Era a minha “atendedora” que estava à porta da minha casa a falar com a minha mãe. Fechei muito devagar a porta.

Diga-me, o que hei-de fazer?

Lisboa, 18 de Junho de 2014

Maurício Vilar

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