CONTOS & CRÓNICAS – IMPRESSÕES DE UMA VIAGEM AOS ESTADOS UNIDOS EM 1986 – 9 – por José Brandão

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O dia ainda não terminou.

Ao cair da noite vamos até Georgetown, a parte histórica da capital federal norte-americana. Percorremos a pé a comprida K Street em direção ao jantar que nos vai ser oferecido pela AFL-CIO. No restaurante espera-nos um importante dirigente da central. O local é bonito e a casa bem composta. O rio Potomac passa perto.

Não muito longe, na outra margem do rio, em Langley, avista- se o quartel-general da CIA.

Um hotel de Georgetown, o Four Seasons, serve habitualmente para albergar os frequentadores dos cursos da famosa Agência secreta americana.

Por esta altura, 1986, entre os seus hóspedes constavam dois coronéis e três majores dos serviços secretos libaneses, aqui destacados para frequentarem um curso de três semanas de treino-direto de alto nível na CIA.

Diariamente eram transportados para uma residência segura em McLean, onde lhes eram ministradas as lições do curso e servido o almoço por um cozinheiro asiático.

Jantámos calmamente, apreciando este lado bom do capitalismo americano. A comida estava ótima. A bebida… Já não me lembro!

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Os últimos dois dias deste mês de Julho de 1986 vão ser ocupados com contactos e palestras em locais diferentes.

Uma interessante visita ao Capitólio permite-nos assistir a uma sessão do Congresso americano, passear no Senado e conversar com o deputado Gerry Studds que amavelmente nos recebe. O congressista fala e entende bem o português, dado que é representante dos eleitores de New Bedford onde vive uma grande comunidade portuguesa.

Na tarde de dia 31, o Dwight Justice tinha uma surpresa especialmente para mim.

Vou ser o primeiro português, ligado aos transportes, a entrar na sede dos famosos Teamsters, a mais controversa organização sindical do Mundo.

É a organização do célebre Jimmy Hoffa, o sindicalista que inspirou Sylvester Stallone no filme “F.I.S.T.”.

Jimmy Hoffa esteve envolvido com os Teamsters de 1932 a 1975, ocupando a presidência do sindicato entre 1958 e 1971. Teve um importante papel no crescimento do sindicato, que se tornou o maior dos Estados Unidos durante a sua liderança, com mais de 1,5 milhão de filiados.

Em 1961, respondendo se contratava gângsteres nas greves, declarou: “Que mal há nisso? Há uns 20 anos, era o patronato que contratava gângsteres para romper as greves. Por que não posso eu agora contratar gângsteres para combater os patrões e proteger os grevistas?”.

Em 1964 Hoffa foi condenado por fraude e tentativa de suborno de um jurado. Após esgotar os seus recursos legais, foi preso em 1967 e sentenciado a 13 anos de prisão. No entanto, Hoffa só renunciou oficialmente à presidência dos Teamsters em meados de 1971. A renúncia foi parte de um acordo de perdão com o então presidente Richard Nixon, visando facilitar a libertação de Hoffa ao final daquele ano. Também como parte do acordo, Hoffa foi impedido por Nixon de participar de atividades sindicais até 1980; as tentativas de Hoffa de reverter essa ordem e recuperar sua influência no sindicato foram infrutíferas.

Hoffa foi visto pela última vez no final de julho de 1975, no estacionamento do Machus Red Fox, um restaurante suburbano de Detroit.

À época, o FBI teria descoberto que Hoffa tinha-se encontrado com três pessoas ligadas à Máfia, que negaram o encontro. Outra denúncia envolvia líderes de outros sindicatos. Nada foi provado. Hoffa tentava recuperar o comando do sindicato, do qual foi afastado para receber o indulto. Disputava a presidência com Frank Fitzsimons, que era seu aliado antes de ir para a cadeia. Diversas teorias conspiratórias cercaram o desaparecimento de Hoffa e a localização de seus restos mortais, mas a verdade permanece desconhecida.

O que são os Teamsters além dum poderoso sindicato de camionistas?

A sede dos Teamsters é um belo edifício da Avenida Louisiana e fomos recebidos por uma figura que estava longe de ter o aspeto sinistro e tenebroso dos gângsteres das séries de televisão. Nancy Shoening não se apresentou de charuto ao canto da boca, com chapéu de abas largas e de pistola encaixada sob o lado esquerdo dos seios.

A graciosa assistente do diretor do Departamento dos Assuntos Governamentais dos Teamsters primava pelo encanto de uma boca sem poluição á vista e por um alinhamento de curvas que dispensava mais volumes no meio dos vistosos atributos que em boa hora Deus lhe pôs no inspirado corpo de mãe.

Esta visita ao mundialmente famoso sindicato dos camionistas americanos não estava prevista nas indicações que levava de Portugal.

Alguns dias antes de partir conversara com o adido laboral da embaixada americana em Lisboa e soubera da pouca afeição que a AFL-CIO dispensava aos Teamsters. O polémico sindicato dos camionistas fora expulso da grande confederação sindical americana em 1957. A AFL-CIO não queria estar comprometida com dirigentes que passavam o tempo presos nas penitenciárias americanas.

Praticamente todos os homens que estiveram à frente do famoso sindicato dos camionistas têm sido condenados por crimes de corrupção, fraude ou violências do mais variado tipo.

Contudo, o apoio dos Teamsters ao grande Partido Republicano é conhecido publicamente e os seus dirigentes tanto aparecem atrás das grades a cumprir penas como ao lado de presidentes como Richard Nixon.

Jimmy Hoffa estava condenado a oito anos de cadeia por fraude cometida no fundo de reforma do sindicato e por corrupção do júri quando o presidente Nixon o foi libertar e lhe comutou a pena em 1971.

Conta-se que Hoffa continuava a dirigir o sindicato da sua cela na penitenciária federal de Lewisburg.

O sucessor de Hoffa, Frank Fitzsimons, teve de abandonar, por ordem do Departamento de Estado do Trabalho, as suas funções de administrador do principal fundo de reformas dos Teamsters, o Central State Fund (perto de 4 biliões de dólares), devido às acusações de má gestão de que foi alvo.

Nos últimos anos todas as atividades do sindicato têm vindo a estar sob vigilância permanente das autoridades americanas. Inquéritos federais mostraram que o fundo de reforma do sindicato chegou a ser utilizado em hotéis e casinos de Las Vegas e, mais recentemente, em luxuosos apartamentos no Arizona que servem para descanso e reuniões de dirigentes.

O que quer que seja, o facto é que os Teamsters não param de crescer enquanto o resto do sindicalismo americano desce ou está estagnado. Com mais de 2 milhões de associados, eles têm estado sempre entre as organizações mais reivindicativas do pais e são a única capaz de parar a América num abrir e fechar de olhos.

Conversava habitualmente com John Kelley que durante vários anos esteve em serviço na representação americana em Lisboa. Este funcionário dos Estados Unidos era um homem com grande empenho no desenvolvimento dos sindicatos da UGT e gostava de confirmar com o máximo rigor a verdade desse mesmo desenvolvimento. Desempenhava as suas funções com grande competência e seguia de perto toda a atividade sindical portuguesa.

Os adidos laborais americanos são pessoas normalmente ligadas á AFL-CIO. Quer por intermédio de pessoal das embaixadas, quer por contactos com os adidos de outros países, os sindicalistas americanos tem o seu próprio controlo do Mundo e não se importam que isso seja do domínio público. Num dos milhares folhetos que a central edita está escrito o seguinte:

“O Departamento de Assuntos Internacionais da AFL-CIO permanece em contato contínuo com as embaixadas dos governos estrangeiros através dos seus adidos laborais num esforço para promover o que se entenda melhor para o movimento laboral dos Estados Unidos e para as suas políticas nacionais e internacionais.”

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