CRIANÇA DESAPARECIDA, MAS PRESENTE por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

O dia da Criança Desaparecida e Abusada sexualmente é o dia 25 de Maio, porque neste dia foi raptado um menino de seis anos, quando ia apanhar o autocarro para a escola. Etan Patz foi raptado. A sociedade noviorquina ficou chocada e a polícia procurou-o, até hoje. A notícia também chegou à Europa. Muitas organizações comemoram este dia.

Em 1983 o presidente norte-americano Ronald Reagan declarou este dia como “dia das crianças desaparecidas”. Em Portugal esta data foi assinalada pela primeira vez em 2004, pelo Instituto de Apoio à Criança (IAC).

O símbolo do Dia da Criança Desaparecida e Abusada sexualmente é uma flor, o miosótis, que significa “não me esqueças”.

 miosotis

A Flor Miosótis significa recordação, fidelidade e amor verdadeiro. É também conhecida como “Não-me-esqueças”.

Existem muitas lendas da Flor Miosótis, mas preferi escolher esta porque já a contei a várias crianças e o sucesso foi grande. É de origem alemã e foi sendo contada de geração em geração.

Diz a lenda que num belo dia de Primavera,dois jovens apaixonados encontravam-se na margem de um rio. Nas águas turbulentas que corriam velozmente, a jovem avistou um ramo de miosótis flutuando e ficou maravilhada pela beleza da flor.

O seu amado foi, então, apanhar as flores e oferecê-las à sua amada. No entanto, quando tentou voltar para a margem, foi arrastado pela forte correnteza do rio. Pouco antes de desaparecer ele gritou para a sua amada: “Não me esqueças, ama-me para sempre!”.

A partir desse dia a flor miosótis passou a crescer nas margens dos rios, para que mais ninguém tivesse que morrer por sua causa e, assim, a flor simboliza o amor sincero e desesperado e a esperança de que há sempre salvação para quem se perde.

A partir daí a flor miosótis ficou também a ser conhecida pelo nome “ não te esqueças de mim”

As crianças fisicamente desaparecidas passam a viver num mundo de terror, num mundo que não é de ninguém, onde tudo vale, até ser vendida e abusada sexualmente,  a engrossar o grupo das crianças exploradas no trabalho.

As crianças vítimas de negligência são crianças desaparecidas, mas presentes.

Como podem ser felizes se os pais, ou as mães privam o filho de estar com o outro. A criança sofre, muitas vezes em silêncio, a falta do pai ou da mãe. Por vezes estas crianças revelam, na escola, comportamentos desadequados e precisam (serão elas que precisam?) da ajuda de um psicólogo ou de tomar Ritalina ou Atarax.

 Estes adultos não pensam no superior interesse da criança que tem direito a estar com os pais e com as mães.

Estará a ser cumprido o direito a ter uma família em que a criança possa crescer de forma saudável?

Sabemos que o conceito de família já não é o mesmo, não se poderá falar ainda em família, mas em famílias devido à composição dos seus elementos que podem ser de género diferente, ou do mesmo género, da família alargada, da família nuclear, da família reconstruída….

Estas crianças que são postas em dilemas bem difíceis “ com quem queres ficar? Com a mãe ou com o pai?” Com que sentimentos elas vão decidir se os pais se esquecem dela e egoisticamente as vão “moldando” conforme os seus interesses? como podem tomar uma decisão se não querem magoar nem o pai nem a mãe? E quando estas crianças começam a ficar com medo, com vergonha, com culpa, com revolta?

Elas estão desaparecidas dentro de casa. Onde está a harmonia, onde estão aquelas pessoas de quem elas mais gostam?

 Que paradoxo quando os pais se zangam e depois vão dizer-lhes que não é nada com elas?

Como não é nada com elas? Se os pais se separarem lá vão ter que andar com a mochila às costas de casa para casa, vão ter que conviver com o namorado da mãe ou com a namorada do pai, vão ter que partilhar o que é seu com outras crianças de que não são obrigadas a gostar.

Mas todos os adultos se orgulham do que dão aos filhos no Dia Mundial da Criança! Não foi para isso que o dia da Criança foi pensado! Foi para que as sociedades não se esquecessem destas crianças e das crianças mal tratadas e criassem condições para que tal não acontecesse.

1950 foi o primeiro ano em que se comemorou o Dia da Criança , por iniciativa da Federação Democrática Internacional das Mulheres, nos Estados Unidos da América e isto porque consideraram que numa família em que a mulher é maltratada os filhos também o são.

Tantos direitos que não estão a ser cumpridos! E qual a responsabilidade da sociedade, da comunidade, da escola, dos médicos, da assistência social?

Em 1959 foi aprovada a Declaração dos Direitos da Criança e Portugal foi um dos primeiros países a assinar a declaração, mas a declaração não passava de um conjunto de boas intenções, foi preciso, em 1989 repensar a declaração e torná-la numa convenção em que todos os estados fossem obrigados a cumpri-la.

Datas importantes para que a sociedade reflicta sobre o sofrimento de tantas crianças.

1949 Declaração dos Direitos Humanos

1950 Dia Mundial da Criança

1959 Declaração dos Direitos da Criança

1989 Convenção dos Direitos da Criança

A título de exemplo:

em Portugal, na Idade Média, os pedagogos reconheciam o uso de castigos corporais “… uma vez esgotadas as advertências, se vergastassem as crianças mal comportadas” (Oliveira).

o direito paternal no final da República Romana consentia que os pais pudessem castigar os filhos e até tirar-lhes a vida, se fosse caso disso, só mais tarde o Direito Romano amenizou este poder, assim como a própria igreja.

Mas entre um grito e a morte vai um grande caminho, tal como no alfabeto de A a Z vão muitas letras e todas elas temos que conhecer.

É verdade que vida da criança tem sido feita de sofrimento, mas não nos podemos esquecer das muitas, muitas pessoas que têm vindo a lutar pela sua dignidade exigindo o cumprimento da Declaração e da Convenção dos Direitos da Criança.

Quando acabei de escrever este texto quantas crianças terão sido negligenciadas, maltratadas, desaparecidas, abusadas. Quantos adultos terão sido julgados e condenados por estes crimes?

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1 Comment

  1. Infelizmente, queridas amigas, muito mais crianças terão sido maltratadas do que adultos culpados terão sido punidos depois que você acabou de escrever o seu ótimo artigo. E bastará punir? Não estaremos precisando de uma total reforma do ensino para que todo mundo aprenda, desde o início, com tudo o mais que precisam aprender, mas como base de tudo: o respeito ao outro, à criança, ao velho, à mulher, ao “diferente”, ao animal e ao meio ambiente? Não deveríamos começar a ensinar tudo isso desde os jardins da infância? e nas reuniões de pais e mestres, não deveríamos colocar tudo isso em questão e discutir sobre todos esses assuntos?
    Há pessoas que lutam, sim. E você é uma delas, assim como a Clara Castilho.
    Obrigada!
    abraço solidário

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