A PROPÓSITO DE UM ENCONTRO ACIDENTAL, A PROPÓSITO DA CRISE NA EUROPA, A PROPÓSITO DA APRESENTAÇÃO DE UM TEXTO SOBRE UMA NOVA BOLHA A REBENTAR EM BREVE: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA

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Parte I

Dizem-nos que a crise já passou, ali mesmo ao virar da esquina. Bravo então. Mas um problema aqui me surge, preciso de ir ao oftalmologista, porque ao virar da esquina, desta e de todas as esquinas, a crise passada, ultrapassada, a descer da escada por onde tinha escalado, é que eu não vejo. Mais ainda, o que vejo são, do ponto de vista humano, os graves e adicionais sinais da crise que começam já a ser visíveis agora. Mais simples ainda, os sinais da crise vão-se acumulando em crescendo até que isto há-de rebentar em qualquer lado e assim mesmo, a começar exactamente ao virar de uma qualquer das esquinas onde os políticos começarem a ser abatidos. E estas são as mesmas esquinas a que os mentirosos dos nossos políticos se referem agora. Veremos se estou enganado ou não e o tempo o dirá.

Um pequeno exemplo desse crescendo de sinais de que as pessoas não aguentam. Há duas semanas atrás, fechei o meu dossier Piketty. Um texto de mais de 900 páginas sobre as contradições ditas fundamentais do sistema capitalista e afinal a obra de Piketty não nos poderá fornecer o que muitos dizem que fornece, a saber, uma teoria geral do capitalismo, unificando teoria do crescimento e repartição (Krugman). Quanto à teoria de crescimento não está lá, pelo menos a teoria que explique as origens do crescimento e a sua dinâmica. Quanto à teoria da repartição esta aparece como meramente técnica e, portanto, enquanto teoria da distribuição também não existe, que nos desculpem os defensores de Piketty e de Krugman. Saio do café a pensar que temos obrigatoriamente de voltar aos clássicos, aos antagonismos de classes e deixar Piketty quase que de lado. Saio do café de livro lido, passo pelo PINGO DOCE, faço as compras da casa e depois, de sacos nas duas mãos, dirijo-me a pé para o local onde escrevo estes meus textos, a minha casa. No caminho paro para descansar os braços. Uma senhora, na casa dos 55-60 anos, dirige-se a mim e pergunta-me: desculpe, posso fazer-lhe uma pergunta?

Pode. Claro que pode.

Desculpe-me com esta minha pergunta: o senhor é professor?

Sou. Há, não, não sou, já fui. Sabe, foi uma farda que vesti quase durante 40 anos. Ainda não me habituei a reconhecer que já a despi. Ou talvez não, se calhar entrou-me pela alma adentro mesmo que com essa roupagem  já tirada do meu corpo. Desculpe este meu desabafo de “velho” professor. Mas porquê a sua pergunta?

Sabe, vejo-o na Vénus a ler, a sublinhar os livros, vejo-o empenhado a viver o que está a ler, vejo-o empenhado em registar o que lhe agradou ou desagradou quando escreve nas margens dos livros. Sinto-o agarrado à vida, gostava de ser eu assim, desabafou com um ar triste.

Apanhado de surpresa, convido a senhora a avançarmos uns metros para a esplanada do café Bolero, vinte metros mais à frente. Sentamo-nos. Olho-a, mulher bem vestida, mulher que já soube o que era viver bem, de rosto ainda a mostrar traços de uma grande elegância que já foi mas que as suas marcas na cara aí registou. Quando escreve nas margens dos livros, sinto-o agarrado á vida, lembro-me do que me acabou de dizer. Ponho-lhe a minha mão sobre o braço, cuidadosa, carinhosamente. Digo-lhe então; mas o que a faz não ter âncora na vida? Não será que precisa de um qualquer outro apoio, clínico que seja?

Do que me diz fico a saber que o marido o tempo já levou, para a eternidade ou para outras companhias mais alegres, para outros corpos mais apelativos, não fiquei a saber mais nada. Nem era relevante. Tem dois filhos, tem dois netos. Dos dois filhos, e deles vai sabendo pelo telefone, um em Angola outro dele no norte, para os lados de Trás-os-Montes, um emigrado, outro emigrante no próprio país, para um local nunca até aí pensado, depois de encerrada em Coimbra a empresa em que trabalhava. Por falência, pela crise. Tem dois netos que ouve igualmente pelo telefone. E quanto ao resto? Do resto, fico igualmente a saber, passa a vida a pensar nos problemas reais ou imaginários que os filhos e os netos têm ou que ela imagina que podem vir a ter. De noras não me falou. Possivelmente famílias outrora funcionais, mas famílias agora rasgadas, destroçadas. A crise verdadeiramente instalada em tudo o que  lhe diz respeito.

Ouço-a dizer-me: precisava de ser como o senhor, que nos transmite a ideia de estar bem empenhado em lutar contra as misérias do mundo. Uma boa âncora, portanto. Gostava de ser assim, de ter coisas na vida a que me agarrar e que me fixem um sentido que os tempos de agora me levaram.

Um discurso de bom recorte. De novo, olho-a nos olhos e uma tristeza infinita parece saltar-lhe da menina dos olhos, parece espalhar-se por cima da mesa, parece ocupar os silêncios curtos que se vão criando à medida que cada um de nós pensa no que vai dizer ao outro, a seguir. E remato, parece-me que anda por aí uma certa depressão a cavalgar. Tem que tratar disso. Precisa de apoio, acho.

Sabe, ando a ser acompanha nos HUC pela doutora X.

Pois bem, fale com ela, fale-lhe na nossa conversa, peça-lhe sugestões de leitura. Ela conhece-a, eu não, ela poderá indicar-lhe que livros pode ler. Depois, faça o seguinte: leia um livro, pegue num caderno de notas, tipo A4, faça o resumo do livro. A seguir, escreva o que pensa do livro, do que gostou e porquê, do que não gostou e porque razões. Escreva numa letra legível. Meta depois o seu texto num envelope, feche-o, coloque-lhe a data em que o escreve. Guarde esse envelope, todos os envelopes que assim fizer. Dois anos depois, volte ao que escreveu, envelope a envelope, pense no que a sua dor de então lhe ditou a escrever. Far-lhe-á bem, disso estou seguro.

Para amenizar a situação falo-lhe de Stuart Mill, um expoente da cultura britânica no século XIX, falo-lhe da sua autobiografia, da forma como ele venceu a sua depressão, lendo, escrevendo, depois discutindo sobre o que lia, sobre o que escrevia. Falo-lhe dos meus esforços estipulando livros de leitura obrigatória nas disciplinas por onde passei, ditos livros de leitura complementar porque obras de cultural geral para quem queria ser economista. Falo-lhe de uma amiga minha que sobreviveu à morte macabra do filho único, ainda muito novo a formar-.se em Direito, escrevendo, guardando na gaveta o que escrevia, tratando por essa via as suas dores, como que a bisturi, e que hoje está bem, bem firmada e com um editor que lhe vai publicando o que escreve e que não se considera arrependido dessa opção de editar esta “jovem” escritora, futuro nome, talvez,  na literatura portuguesa.

Despeço-me desejo-lhe felicidades. Agradece-me com muita delicadeza o carinho com ela tido. Curioso, até nesta despedida.

Nisto, uma “gaffe” monumental da minha parte. Podia-me ter oferecido para ser o leitor de um dos tais envelopes, mais tarde. Não o fiz, por delicadeza, mas aqui reconheço, por uma delicadeza tipicamente burguesa. Se a reencontrar corrigirei a minha posição, claro está.

Uma mulher cuja dor as estatísticas não registam, cuja vida se reduz a farrapos, que a quer refazer e assim desses fragmentos quer fazer um vestido bonito, ou seja uma outra vida, uma mulher que pela vida dos filhos e dos netos teme, vidas que a crise estragou e de que delas muito pouco até agora se registou.

Uma mulher invisível da crise, e invisíveis há pois muitos e muitas cujas reacções amanhã ninguém sabe quais serão. O pior ainda está para vir, avisava a Cruz Vermelha, a referir-se a todas as sequelas que iriam aparecer e a adicionar-se aos estragos já feitos e não tratados, não reparados. Esta mulher, a sua história, fazem parte do exército de invisíveis para serem abatidos pelo sistema. Será que estes invisíveis o vão consentir? Será que nós, todos nós, o vamos permitir? Ou será que todos em conjunto faremos as coisas eclodir para esse massacre impedir?

 Encontro Acidental - I

Bom , mas a crise já passou, é o que agora já nos dizem. Pois bem, a crise que se começou objectivamente a criar no final dos anos 70 princípio dos anos 80, rebentou em 2008, e foi mudando de figura, ampliando-se sempre, pois passou de crise de subprime a crise da banca, na Europa, depois rapidamente, a crise dos défices públicos, depois dos défices externos, depois do volume das dívidas soberanas, cruzando-se com as crises do imobiliário na Espanha, na Irlanda, na Holanda, Trata-se de um rebentar de bombas de neutrões activadas em Bruxelas, Berlim ou algures, num crescendo de deflagrações que ainda não pararam.

(continua)

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