EDITORIAL – O ATENTADO DE SARAJEVO

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Sábado passado, dia 28 de Junho, completaram-se 100 anos sobre o atentado de Sarajevo. Um estudante sérvio, Gravilo Princip, matou a tiro o herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, o arquiduque Francisco Fernando, e a sua esposa, Sofia de Hohenberg. O atentado foi preparado pelos serviços de espionagem sérvios, e constituiu uma retaliação contra os propósitos de anexação da Bósnia por parte de Viena. Um mês depois, Viena declarava guerra à Sérvia. Esta foi apoiada pela Rússia, enquanto que a Alemanha tomou o lado da Áustria-Hungria. Com base na Tríplice Entente, formada para enfrentar o expansionismo alemão,  a  França e a Grã-Bretanha apoiaram a Sérvia e Rússia, e desencadeou-se a Primeira Guerra Mundial. Cinco anos depois, também a 28 de Junho, com 10 milhões de mortos a lamentar, era assinado o Tratado de Versalhes, que redesenhou o mapa da Europa, e também trouxe muitas alterações no resto do mundo.

É fácil fazer considerações sobre as causas e os efeitos de algo tão horrível como uma guerra mundial. A análise dos factos traz obviamente luz sobre as razões dos acontecimentos, mas quando se olha para o que aconteceu posteriormente fica-se com dúvidas sobre se se terá aprendido alguma coisa. Basta olhar para o que viu a cidade de Sarajevo ao longo deste cem anos, para nos interrogarmos sobre se realmente temos progredido alguma coisa. Os conflitos no Leste da Europa parecem cada vez mais acesos, e cabe a pergunta: o que falhou? Porque não há melhoras? Muitas coisas falharam, com certeza.

Uma coisa é necessária, para começar. Tentar olhar as coisas como elas são. Não chega, e é muito custoso, mas é indispensável. Olhemos para o seguinte: a Ucrânia, a Geórgia  e a Moldávia estabeleceram acordo com a  União Europeia. Porquê? qual o conteúdo desses acordos? As notícias são parcas sobre as matérias do acordo, incidem apenas sobre a ocorrência. Claro que pode haver muitas razões, mas não se pode deixar de ver o óbvio. Sentem que, no estado actual do conflito leste-oeste, a proposta será atraente para as potências ocidentais. E que a Rússia (esta não se resume a uma ditadura de Putin, ao contrário do que a propaganda nos quer fazer acreditar) a sentirá como um acto de hostilidade. A União Europeia não consegue sair do beco do anticomunismo e da livre circulação do capital. Permite os excessos da Alemanha, as manobras de David Cameron e as palhaçadas de François Hollande, fomenta a degradação das relações de trabalho e do relativo bem-estar que tem garantido a parte da sua população (não a toda), e assiste de braços cruzados ao drama dos clandestinos, enquanto observa impávida o crescimento da desigualdade e da xenofobia, preconizados abertamente pelos partidos em ascensão no quadro político, ainda há pouco tempo rotulados de extrema-direita. Será com esta União Europeia que a Ucrânia, a Moldávia e a Geórgia se querem associar? Os seus povos o que realmente dizem a isto?

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