ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A NECESSIDADE DE UM DEBATE NACIONAL E EUROPEU E TAMBÉM SOBRE AS RAZÕES PELAS QUAIS VOTAREI SEGURO – ASSIM COMO UMA SUGESTÃO PARA A LEITURA DE TRÊS TEXTOS DE ECONOMIA – por JÚLIO MARQUES MOTA.

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Algumas considerações sobre a necessidade de um debate nacional e europeu e  também sobre as razões pelas quais votarei Seguro – assim como uma  sugestão para a leitura de três textos de economia

 

Parte II

(continuação)

Do caminho contrário ao que agora expomos como vontade política, como expressão da Democracia para salvar a Europa, mostram-nos os jornais diariamente os efeitos de continuarmos a aplicar as políticas erradas. Recentemente, o jornal Público noticiava que “os gregos lutam contra a privatização das suas praias, já à venda na internet. E como subtítulo dizem-nos: a Grécia quer fazer dinheiro e atrair investimento estrangeiro vendendo terrenos mesmo à beira mar, termas e até um castelo. Os críticos queixam-se de que o património está a ser estragado, desbaratado”. Enfim, cumpre-se o sonho alemão, expresso por altos responsáveis seus  quando  estalou a crise grega da dívida pública em que afirmaram: os gregos que vendam as suas ilhas. Na mesma linha se entende a atribuição de passaportes europeus a quem tiver dinheiro para pagar, prática que muitos dos países europeus fragilizados estão já a seguir, entre os quais o executivo português. Em suma, a Europa à venda é espelho do caminho que tem sido seguido, é a consequência das medidas de austeridade que são concebidas a partir dos enganos do FMI, mas em que uma vez detectados os enganos nada foi feito por esta Instituição para que alguma coisa mudasse. Em suma tudo ficou na mesma. Salvou-se a consciência da inconsciência do seu economista-chefe, Olivier Blanchard, que ainda não há muito tempo gritava em Riga Viva a Austeridade!

Das consequências das políticas seguidas e desenhadas a partir dos tais “erros dos multiplicadores” nos fala a Standard and Poor’s num seu relatório de Junho passado, a que delicadamente chama impasses, mas em que, se retirarmos o verniz do texto, descobrimos que este relatório nos mostra sem ambiguidade o caminho para o inferno que à Europa está a ser imposto.

A crise já passou, é o que agora nos andam agora a dizer. Contra esta argumentação, vejamos alguns dados sobre a crise, sobre as posições dos países europeus de agora face ao período em que se desencadeou a crise, para se perceber bem o beco sem saída a que as politicas de austeridade nos têm levado e mais ainda para se perceber que cada vez estaremos mais endividados, cada vez com menos capacidade de resposta para uma verdadeira saída da crise.

Na linha deste tema diz-nos a agência de rating Standard and Poors, num relatório acabado de sair, em Junho passado, com o título The Long Haul: Eurozone – Deleveraging Could Stunt Growth For Years:

A dívida global do sector privado e do sector público dos três grandes agregados residentes, (famílias, empresas não financeiras e governo) e em termos de pontos percentuais em relação ao PIB permanece nos países da periferia muito perto dos valores muito altos atingidos no auge da crise, o mesmo acontecendo quando analisamos o problema da dívida em termos de valores absolutos, em termos de montantes globais. O elevado rácio dívida / PIB tem sido exacerbado pela queda no PIB nominal em toda a periferia. E enquanto na maioria dos países da periferia se está agora com a retoma perante um modestíssimo crescimento económico – o baixo crescimento do PIB, (e em alguns casos a deflação nalguns países) fará com que a redução da dívida continue a tornar- se ainda mais complicado.

 E espera-se que todos os componentes da procura interna (consumo privado, investimento privado e gastos do governo) permaneçam sob pressão à baixa. Isto colocará visivelmente ainda uma maior importância e pressão nos resultados alcançados nas exportação e mais importância, portanto, na reequilibrarem das contas externas para gerar as taxas de crescimento económico sustentado necessárias para melhorar a situação ainda em depressão em termos de PIB e de emprego.”

Mas devemos sublinhar face ao texto reproduzido que procurar pela via das exportações melhorar a situação interna, com uma moeda sobreavaliada, o euro, e com todos os países a querer fazer o mesmo e num quadro de um mundo sem fronteiras alfandegárias, é objectivamente um absurdo, é uma ideia só pensável e exigida ou por ignorantes em economia ou então por verdadeiros predadores às ordens de potências externas, dos mercados financeiros, dos abutres destes mesmos mercados como é o caso de Paul Singer. Desde 2010 a insistirem neste absurdo das políticas de contracção que fazem aumentar o rendimento (!), ou seja, a garantirem-nos que seremos tanto mais ricos (no futuro) quanto mais pobres formos agora, com as políticas de contracção que farão disparar depois em alta os rendimentos de todos nós! E depois, como uma asneira destas nunca vem só, dizem-nos que devemos deflacionar para obtermos excedentes, o que é, de imediato, uma impossibilidade pois sendo para cada um dos Estados em dificuldade os países da UEM os seus principais parceiros, a deflação interna praticada por todos não altera os preços relativos internacionais, não aumenta a competitividade do país. E dos resultados alcançados por este grupo de predadores da coisa pública continuemos a mostrar resultados. Como nos assinala Matt O’Brien, no Washington Post:

“Toda a gente gosta de andar a fingir que a crise do euro acabou.

São os políticos que não querem ouvir a palavra “resgate” novamente. São os banqueiros centrais que nunca querem ouvir a palavra “deflação” de novo. São as pessoas que nunca mais querem ouvir as palavras “spreads da dívida pública”. Mas estar-se suspenso nesta crença, é claro, não faz nada para acabar com a depressão da Europa. O desemprego esta ainda acima dos 25% na Grécia e em Espanha, de 15 por cento em Portugal e de 10 por cento na Irlanda.

Então porque é que a Europa não tem verdadeiramente nenhum sinal de retoma? Bem, é a dívida, oh estúpidos, é o que nos dizem.”

Mas retomemos ainda o relatório citado da Standard and Poor’s,

“Os dados mostram-nos que para as economias seleccionadas da zona euro, a dívida do sector privado no final de 2013 está abaixo do seu valor de pico, mas tipicamente apenas com uma diferença de pequenos valores, portanto insignificante.

Não obstante, uma vez que a dívida do sector público continuou a crescer nos países da periferia e permaneceu situado em níveis máximos apesar dos esforços fiscais inauditos de alguns governos, podemos ser levados a afirmar que os esforços para a redução da dívida, também ditos efeitos de desendividamento parecem terem começado bem mal.”

Muito delicada a expressão da Standard and Poor’s: parece ter começado mal, quando estamos já, e devido às políticas de austeridade impostas, com países completamente destruídos e por décadas, tornados claramente falidos face às brutais dívidas, face à fragilidade dos seus recursos agora que tudo foi posto em saldo para satisfazer a voragem dos ladrões internacionais que tudo nos levam.

Avancemos um pouco mais e mesmo no quadro do mesmo modelo, o modelo de política economia que tem sido utilizado na União Europeia, vejamos o que os analistas de Standard and Poor’s nos dizem sobre o futuro, em forma de conclusão:

 “O fraco crescimento e a polarização política poderiam seguir-se na crise instalada enquanto as políticas de austeridade, de consolidação das contas continuam a ser aplicadas.

Na nossa opinião, a verdadeira escala da subida dos rácios de dívida em muitas nações da periferia mesmo a partir dos níveis de 2006 e a inversão desta situação que foi relativamente muito pequena desde os valores de pico sugerem-nos fortemente que o processo de desendividamento, verdadeiramente apenas só agora começou. Enquanto para Portugal, Espanha, Grécia, Itália, Irlanda e Eslovénia, a dívida como proporção do PIB aumentou numa média de 106 pontos percentuais (p.p.) do PIB entre o início de 2006 e o valor de pico trimestral verificado em 2013, o rácio terá decrescido apenas 3 p.p. do PIB a partir daquele pico. A disparidade entre esses dois valores assinala no nosso ponto de vista a lentidão dos progressos realizados na periferia em conseguir a redução conjunta do endividamento privado e público, mesmo admitindo que o crescimento nominal do PIB (o denominador desta equação) terá melhor desempenho no futuro do que tem tido desde 2006.

Nesse sentido, consideramos que a recuperação económica já frágil da zona euro provavelmente irá continuar a ser moderada. Além disso, se as expectativas de recuperação se tornarem decepcionantes achamos que isso poderá vir a agravar a polarização política e, portanto, representa uma ameaça crescente para a sustentabilidade do crescimento, e em que se trata muito frequentemente de reformas impopulares. Temos observado o crescente descontentamento público, mais recentemente, evidenciado por muitos eleitores ao optarem pelos partidos eurocépticos nas eleições parlamentares europeias de Maio de 2014. Sem uma mais rápida recuperação económica e crescimento ao nível do volume de emprego, pensamos que a insatisfação popular poderia mesmo aumentar. Em última análise, porém, o crescimento permanecerá dependente das exportações líquidas, uma vez que a procura interna irá enfrentar ventos continuamente adversos. Os nossos ratings soberanos, portanto, reflectem a nossa opinião cautelosa sobre as perspectivas de crescimento da zona euro a médio prazo”.

(continua)

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Para ler a Parte I desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A NECESSIDADE DE UM DEBATE NACIONAL E EUROPEU E TAMBÉM SOBRE AS RAZÕES PELAS QUAIS VOTAREI SEGURO – ASSIM COMO UMA SUGESTÃO PARA A LEITURA DE TRÊS TEXTOS DE ECONOMIA – por JÚLIO MARQUES MOTA.

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