Algumas considerações sobre a necessidade de um debate nacional e europeu e também sobre as razões pelas quais votarei Seguro – assim como uma sugestão para a leitura de três textos de economia
Parte III
(CONTINUAÇÃO)
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A Standard and Poor’s diz-nos frontalmente, embora com algum verniz: “O fraco crescimento e a polarização política poderiam seguir-se na crise instalada enquanto as políticas de austeridade, de consolidação das contas continuam a ser aplicadas”, ou seja, o que nos espera por este caminho são as explosões sociais na sequência exactamente dos bloqueios criados. E isto não são os radicais a afirmá-lo, é a Standard and Poor’s. Uma posição semelhante expressa agora Peter Whal na Newsletter- EU Financial Reforms quando no seu artigo The mess is increasing afirma:
“(…) O denominador comum é que o seu sucesso (da direita nas eleições europeias) é a ponta do um iceberg de protesto, que vai para além das forças de direita. Reflecte um descontentamento geral com a UE e com as suas políticas económicas e sociais. A insegurança do desemprego e do trabalho, o desmantelamento do Estado de Bem-Estar, a polarização social resultante da forte e crescente desigualdade na repartição entre ricos e pobres e com as classes médias a perderem o seu estatuto, é tudo isto que está a alimentar os partidos populistas. A progressão destes partidos só poderá ser travada se houver uma mudança nas políticas da UE, que seque assim a base de reprodução política e social em que estes partidos se desenvolvem.”
Daí que na sua opinião uma vez quer se continua com o mesmo modelo se pode afirmar então:
“Os próximos cinco anos não serão mais fáceis do que os cinco últimos anos. Os “velhos” problemas não estão resolvidos mas os novos estão já a estalar. Isto dá-nos a ideia de que vamos entrar numa situação em que o caos será cada vez maior.”
Como se disse acima, o impacto das posições de mea culpa dos principais teóricos das políticas seguidas abafou-se, esfumou-se sem que nada tenha mudado. O estranho de tudo isto é não ter havido vozes de protesto na Assembleia da República e junto do Presidente da República, um economista de formação supostamente, mesmo que neste caso não o tenha mostrado, em que se deveria necessariamente exigir que nos explicassem os pressupostos dos modelos utilizados, que nos explicassem em que pressupostos se apoiava o Executivo português para justificar que a austeridade era expansionista. Em vez disso, grande parte da oposição considerava o governo responsável das políticas seguidas como é o caso do PS que votou, já com António José Seguro, a regra da austeridade orçamental, conhecida como a regra do travão da dívida.
A partir daqui, ou seja da aceitação dos Tratados impostos no turbilhão da crise, o discurso político de toda a oposição contra o governo actual era constituído apenas de tiros de pólvora seca, uma vez que a prática da austeridade faz parte e está gravada no mármore dos Tratados e o governo, mesmo que recheado de incompetentes, defendia-se com os Tratados, com os mercados, com os nossos credores, com a necessidade de pagar, com o empenho de não querer ser caloteiro mesmo sabendo que desta forma nunca poderá pagar, e não sendo NUNCA atacados os principais responsáveis e estes eram exactamente aqueles com quem o governo exactamente se defendia: a Comissão Europeia, o BCE, sobretudo interessado em salvar os bancos alemães, e o FMI.
Esta realidade é evidente no caso das eleições de Maio passado, onde os partidos da coligação não perderam porque o principal adversário, o principal partido da oposição, o PS, não ganhou estrondosamente, o Bloco de Esquerda não perdeu porque manteve um deputado, onde o único partido vitorioso terá sido o PC. E pelo meio ganhou um meteorito, caído do céu nas eleições meio aos trambolhões, Marinho Pinto, cuja grande vitória ninguém quer discutir. E porquê? Porque discuti-la seria discutir a campanha nas eleições europeias que foi feita em que se falou de quase tudo menos de Europa, onde se falou de quase tudo menos de União Europeia e Monetária, onde se falou de tudo menos do importante, de que com estas políticas é a União Europeia e Monetária que está a morrer e com um Euro em profundo desgoverno a ser mais uma ficção do que uma Moeda Única, porque discutir a vitória de Marinho Pinto seria discutir a razão de ser do descontentamento dos Europeus face a esta Europa em risco de se estiolar: a pressão dos referendos é um grande sinal disso mesmo, o deslocar do eleitorado para a extrema‑esquerda ou para a extrema-direita quando a outra não existe é igualmente outro sinal desse mesmo descontentamento. Falar das razões desse descontentamento é proibido a todos aqueles que querem servir Bruxelas e que de Bruxelas se querem igualmente servir. Nada é grátis, hoje, e os políticos que trabalham para Bruxelas e que de Bruxelas se cobram, sabem-no muito bem.
As eleições europeias passaram-se, os políticos da coligação quanto a isso calaram-se, no PS as dinâmicas pessoais, de António Costa e dos fiéis seguidores de Sócrates, silenciaram a derrota da direita e tudo se passou agora como se tenha havido uma derrota da esquerda e como seja portanto necessário abater o secretário-geral, António José Seguro, e substituí-lo. E quanto às verdadeiras razões dos resultados eleitorais nada é discutido. Pessoalizou-se o drama europeu e cristalizou-se este na figura de António José Seguro como o seu responsável. Mais grave ainda é o facto de se terem esquecido neste ataque a António José Seguro do papel de sapa assumido pelo BCE desde Setembro-Outubro do ano passado em que desceram simultaneamente as taxas de refinanciamento da Espanha, de Portugal, da Grécia, da Irlanda e tudo isto ao mesmo tempo. Manipulação de mercados, confiança “garantida aos mercados, acrescente-se. E há também a famosa ida “organizada aos mercados, num carrinho alimentado por Bruxelas, mas que foi apresentado como uma virtude, como um êxito alcançado pela coligação. E há ainda os sucessivos discursos oficiais, semi-oficiais, para-oficiais a dizerem-nos que a crise já passou ou quase a passar e tudo isto a credibilizar o governo. Uma verdadeira central de manipulação é montada à escala europeia e para todos os países a vender a ilusão de que a crise está a passar. As eleições vinham aí e Bruxelas precisa de preparar o terreno, apoiando sobretudo os governos que directamente a apoiavam. Disso não ouvi falar ninguém nas eleições de entre as vozes dos partidos do arco do poder, muito menos no mais importante deles, o PS. Lamentavelmente fá-lo o próprio FMI, fá-lo o perigoso Presidente do Bundesbank, o fundamentalista protestante Jens Weidmann. Estamos cansados de falar disso. Sobre esta questão diz-nos Peter Whal no artigo citado:
“Durante a campanha eleitoral os especialistas em manipulação tinham tentado dar a impressão de que a crise tinha já acabado. Mas também a avaliação do FMI sobre a situação na zona euro chegou à conclusão em 20 de Junho de 2014 que apesar dos mercados financeiros estarem calmos no momento, esta calmaria é a consequência das ‘recentes medidas do BCE.’ Mesmo Jens Weidemann, presidente do Bundesbank alemão, fala de uma calma’ enganadora’ dos mercados (Süddeutsche Zeitung, 24.6.2014, p. 2).”
(continua)
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