NINGUÉM AUMENTA A DESPESA, CORTANDO-A[1] – por BILL MITCHELL

Temaseconomia1

 Selecção de Júlio Marques Mota. Tradução e revisão de Flávio Nunes e Júlio Marques Mota.

Ninguém aumenta a despesa, cortando-a[1]

Publicado a 19 de outubro de 2011

Por Bill Mitchell

Parte I

Na semana transacta, véspera da reunião do G-20 em Paris, o Departamento do Tesouro australiano falava e dirigia grotescamente um ultimato para os nossos amigos do Norte, dizendo-lhes que o “tempo para as meias medidas já passou. O tempo de agir é agora. Desta forma, as pessoas olharão para um programa detalhado a apresentar a 23 de Outubro”. Naturalmente, no Comunicado dos Ministros das Finanças e Governadores dos Bancos Centrais do G20, aquando a reunião de Paris, não se vislumbra nenhum sentido de urgência. Saliente-se que, nem uma única vez se menciona a palavra “desemprego”. Aqui, o problema é que os dirigentes mundiais permanecem em negação e, mesmo assim, pretendem que acreditemos que ao cortar-se na despesa pública, estes conduzam a resultados “favoráveis ​​ao crescimento”. Para aumentar a despesa não se deve começar por cortá-la.

A Figura I que se segue resulta dos dados do Banco Central Europeu (BCE) para as taxas das obrigações a 10 anos (onde se usa como termo de comparação a taxa das obrigações alemãs a 10 anos, os bunds). Nesta figura é perceptível que, enquanto os spreads dos suspeitos do costume, (Grécia, Irlanda, Portugal), evoluem, desde o início do período em análise (10/2007), de forma crescente, encontrando-se cada vez mais altos e a subirem a um ritmo elevado, nos mercados da Itália, Bélgica, Áustria e França analogamente também se observam agora movimentos crescentes.

Figura I) Evolução das taxas das obrigações a 10 anos (taxa de referência: taxa das obrigações alemãs a 10 anos)

bill mitchell - IIFonte: BCE

Comportamento das mesmas, um mês depois:

Figura II) Evolução das taxas das obrigações a 10 anos (taxa de referência: taxa das obrigações alemãs a 10 anos)

bill mitchell - IIIFonte: Bloomberg

Dentro da mesma esfera, mas agora com dados de 02/2014:

Tabela I) Taxas de juro harmonizadas de longo prazo para fins de avaliação de convergência

 bill mitchell - IV

A 18 de Outubro de 2011, na sua crónica, Thaler’s Corner, Erwan Mahe[2], especialista em mercados financeiros, a trabalhar em Paris, disse que: devido aos planos de resgate semi-concluídos e às renúncias camufladas, a zona euro encontra-se diariamente a deslizar para um processo de explosão nos países ditos centrais. Bom, em nada se parece, este tipo de crise, com um núcleo de um reator de uma central nuclear, mas sim com a lenta deterioração do núcleo central que sustenta a União Europeia (UE), dada a inexorável onda de desconfiança dos investidores relativamente aos títulos da dívida pública, dívida esta que colocou já a Grécia, Irlanda e Portugal debaixo de água. Note-se que esta encontra-se agora, apreensivamente, a expandir-se a passos largos para a Itália e Espanha, tendo já, inclusive, imposto restrições à Bélgica e ameaças à França. Não obstante, a Áustria é o próximo alvo… Portanto, o núcleo forte da UE está sob ataque!

Repare-se que agora não nos limitamos somente a falar de nações ditas “periféricas”. O processo implacável que assola os mercados de dívida soberana da zona euro pode ser nitidamente observado, após a primeira crise de Maio-Junho de 2010, imediatamente aquando o primeiro plano de resgate sobre a dívida pública grega, onde o BCE interveio diretamente para acalmar os mercados secundários na base do seu programa de mercado de títulos [Securities Market Program (SMP)).

(continua)

________

[1] Tradução e revisão de Flávio Nunes e Júlio Mota.

[2]

Erwan Mahe, Damned Euro, Cursed Hypocrisy, 19 de Outubro de 2011. Texto disponível em: http://seekingalpha.com/article/300690-damned-euro-cursed-hypocrisy

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